
Acidentes graves aumentaram
Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens
Nunca em Portugal a sinistralidade matou tão poucas pessoas. Estimativas provisórias apontam para cerca de 400 mortes, em 2020.
Mas o resultado pode ser enganador: os dados, mês a mês, mostram uma relação próxima com os estados de emergência que deixaram as estradas vazias. Uma vez passada a pandemia, os números voltarão aos níveis de 2019, receiam Manuel João Ramos, da Associação dos Cidadãos Automobilizados (ACAM), e João Dias, do Núcleo de Investigação de Acidentes do Técnico de Lisboa.
Os primeiros meses do ano de 2020 até começaram com menor sinistralidade (ver infografia). O primeiro estado de emergência foi declarado a 18 de março, mas, já antes disso, os portugueses se tinham recolhido em casa, perante as notícias do novo coronavírus e as imagens dos hospitais italianos a transbordar de doentes. "Se ninguém sai à rua, a sinistralidade melhora", diz Manuel João Ramos.
Até maio, a cada mês, a sinistralidade foi menos grave do que em 2019. Abril teve, inclusive, metade do número de mortes. Em maio, contudo, a descida foi muito menor e, chegados a junho e julho, até houve mais mortes do que em 2019. Em Junho, a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) deu conta de oito mortos e de 14 feridos com gravidade, no primeiro fim de semana do mês, indicadores "muitos superiores à média registada nos últimos anos", disse.
Agosto foi um mês atípico, em que muitos emigrantes não regressaram ao país para as tradicionais férias de verão. Com menos veículos a circular, também o número de mortes baixou. Setembro só teve menos três mortes do que no ano anterior e outubro igualou 2019. Chegado a novembro, novo confinamento decretado, nova queda brusca do número de mortes. Quanto a dezembro, dados provisórios da GNR e da PSP, enviados ao JN, dão conta de 24 mortes até ao dia 20.
Meta temporária
Na soma dos 12 meses, as estradas terão tirado a vida a menos de 400 pessoas. A confirmar-se, Portugal terá atingido a meta do Plano Estratégico Nacional de Segurança Rodoviária - PENSE 2020. Será, todavia, um feito passageiro.
"2020 e 2021, pelo menos até ao verão, são atípicos. Depois, a sinistralidade voltará a níveis de 2019", acredita João Dias. Manuel João encontra duas medidas de redução da sinistralidade em 2020: "O confinamento e os radares nas autoestradas". O que significa que a melhoria "não é estrutural, é conjuntural". Até porque, disse, "a segurança rodoviária tem sido secundarizada" pelo anterior e pelo atual ministro.
"Oportunidade perdida" para nova mobilidade
"Quando o trânsito voltar ao usual, com confiança renovada no automóvel, será uma oportunidade perdida". Manuel João Ramos lamenta que Portugal não tenha aproveitado a pandemia para alterar, de modo radical, a forma como os portugueses se deslocam, a bem da segurança rodoviária, mas também da redução da poluição e dos gases com efeito estufa. Em contraste, o presidente da Associação dos Cidadãos Automobilizados aponta a mira para cidades, como Barcelona, que está a organizar o trânsito em "maçãs": a cidade espanhola é dividida em blocos, de uns 400 por 400 metros. Os carros podem circular em torno de cada bloco, ou maçã; mas, lá dentro, a prioridade é dada a peões e às bicicletas.
Acidentes diminuem mais do que mortes
Até novembro do ano passado, a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) reporta uma descida de 27,8% do número de acidentes, face ao mesmo mês de 2018. Mas o número de mortos e de feridos graves não baixou na mesma proporção: as vítimas mortais diminuíram apenas 17,6% e os feridos com internamento superior a 24 horas baixaram 22,5%.
Índice de gravidade dos desastres cresceu
Houve menos acidentes, mas foram mais graves, entre janeiro e novembro do ano passado. O "índice de gravidade", calculado pela ANSR, mede o número de mortes que resultaram de cada cem acidentes com vítimas. Em 2018, esse número era de 1,3; no ano passado, subiu para 1,5, tanto quanto em 2017 e 2018.
Dados do ano passado são ainda provisórios
O número de mortos, citado neste trabalho, é ainda provisório. Primeiro, porque é necessário mais algum tempo para que as autoridades verifiquem todos os dados recolhidos pelas forças de segurança. Segundo, porque a sinistralidade oficial é a chamada "a 30 dias", ou seja, a que ocorre até um mês após o acidente. Aqui, são referidas as mortes que aconteceram no local do acidente ou a caminho do hospital ("a 24 horas"). O número oficial de mortes deverá ser superior ao avançado neste trabalho.
