Monteiro defende que AD só ganhou porque o CDS "estava lá" e critica "polícia do pensamento"

Pedro Rocha / Global Imagens
O ex-presidente do CDS-PP Manuel Monteiro defendeu, este sábado, que a Aliança Democrática só ganhou as legislativas porque os centristas "estavam lá" e salientou que o partido tem valores que "não se negoceiam", lembrando que não existe "polícia do pensamento".
Estas posições foram defendidas pelo antigo líder centrista no 31.º Congresso do partido, em Viseu, num discurso de cerca de 40 minutos no qual afirmou que o CDS "pode até estar agradecido ao PSD" por lhe ter dado "a mão no regresso ao parlamento", através da coligação Aliança Democrática (AD).
"É verdade. Mas o PSD só ganhou as eleições porque o CDS lá estava ao lado do PSD. Nós não esquecemos nem a nossa circunstância, nem somos ingratos. Mas uma coisa é não esquecer a nossa circunstância nem sermos ingratos, outra coisa é sermos esquecidos ou distraídos", sustentou.
Monteiro afirmou que "é bom que o parceiro de coligação saiba que existe uma coligação e que o governo é um governo de dois partidos e não apenas de um partido".
"O que é que isto significa? Significa que nós não temos que pedir desculpa, doutor Paulo Núncio, de sermos contra o aborto", defendeu, num momento bastante aplaudido.
Monteiro lembrou que o CDS "deu a cara", posicionando-se contra a Interrupção Voluntária da Gravidez no primeiro referendo, altura em que foi "espezinhado e assobiado".
"Mas nós lá estávamos. Na perspetiva de que sempre tivemos de que os valores não se negoceiam, não se colocam em segundo plano. Porque no dia em que aceitarmos ter os nossos valores em segundo plano, deixamos de ter a nossa identidade e marca. E se deixarmos de as ter não estamos cá a fazer rigorosamente nada", defendeu.
Monteiro, que foi um dos autores do polémico livro "Identidade e Família", apresentado na semana passada pelo antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, disse ter participado "com muita honra" na obra e que "voltaria a participar ainda com mais vontade e ânimo" hoje.
"Para dizer que não há nenhuma polícia de pensamento em Portugal que nos possa impedir de ser livres e de defender o que convictamente acreditamos. O problema é que há por aí algumas pessoas que querem os votos da direita desprezando os valores da direita. E ninguém pode pretender ter os votos da direita desprezando os valores da direita. Isso tanto vale para nós como para o PSD", avisou.
Nesta intervenção, na qual foi acompanhado ao palco pelo atual líder Nuno Melo, o ex-presidente entre 1992 e 1998 salientou que "a liberdade de pensamento é total e não pode deixar de ser".
"Mal andaríamos se 50 anos depois do 25 de abril de 1974 ainda tivéssemos aí uns senhores a dizer quem é democrata e quem não é, quem é reacionário ou é conservador, quem pode falar ou não pode falar. Pasme-se, 50 anos depois, temos os herdeiros dessas pessoas que andavam calados mas o doutor António Costa entendeu dar-lhes a mão - quem sabe a pensar no futuro lugar do Conselho Europeu, ainda que abençoado pelo senhor Presidente da República", considerou, momento em que se ouviram vaias na sala.
Monteiro considerou que está de volta "um espírito e um sentimento na sociedade portuguesa que pensava que estava ultrapassado" mas garantiu que o CDS não tem receio de dizer o que acredita.
Monteiro diz que à direita do CDS "a parede caiu" e quer partido "da ordem e bem comum"
O ex-presidente do CDS-PP Manuel Monteiro salientou hoje que à direita do partido "a parede caiu", traçando diferenças com outras forças do mesmo campo político, e apelou aos centristas para que defendam "a ordem e o bem comum".
"Estávamos habituados a estar sozinhos à direita. O doutor Paulo Portas dizia «à direita do CDS, a parede». Por muito que nos custe a parede caiu. Alguma responsabilidade seguramente temos nisso, não podemos só culpar os outros. Mas o que importa agora não se saber de quem foi responsabilidade mas é saber que isso aconteceu", considerou.
Nesta intervenção, que foi das mais aplaudidas do dia, Manuel Monteiro traçou diferenças com outros partidos à direita, como o Chega ou a IL.
Monteiro avisou que "a verdadeira direita não aceita que existam movimentos inorgânicos na polícia", nem compactua com "pessoas que ameaçam fazer greves contra a lei", mesmo defendendo as forças de segurança.
"A verdadeira direita não é uma certa direita que tem tanto de direita como eu tenho de esquerda", ironizou.
Monteiro disse entender os desiludidos e os que "votam pela negativa" mas avisou que o CDS-PP "não aceita a estigmatização de pessoas".
Se há "pessoas que recebem subsídios indevidos", esta atribuição deve ser combatida, independentemente da sua origem.
Monteiro considerou que o CDS-PP "tem que ser para o futuro o partido da ordem e do bem comum", uma vez que "sem ordem não há liberdade, sem ordem não há segurança e sem segurança e liberdade não há democracia".
Num recado aos "amigos da Iniciativa Liberal", Manuel Monteiro avisou que os centristas "preservam a autonomia pessoal de cada português mas não confundem o individualismo extremo com o bem da comunidade" e rejeitam a privatização "de tudo e mais alguma coisa".
"Defendemos a liberdade económica e de mercado mas para nós o indivíduo não é apenas um consumidor", salientou.
Apesar do surgimento de várias forças políticas à direita do CDS-PP, Manuel Monteiro mostrou-se convicto de que "nunca como agora há tanto espaço politico para a afirmação de um partido conservador democrático em Portugal".
"Não me assustam certos ventos ou pessoas que são tão corajosas na defesa dos valores, mas na campanha, quando perceberam que queriam agradar a todos, meteram esses voares na gaveta. Eles eram contra tudo, o aborto, a eutanásia, a ideologia de género. Na campanha eleitoral, caladinhos não fossem assustar a caça", apontou.
O antigo líder centrista afirmou que o CDS não tem medo de perder votos e garantiu que o partido vai reconquistar "um a um" aqueles que acreditam na liberdade e democracia "mas foram embora".
