
Empresários querem manter espaços exteriores na via pública
(Rui Oliveira/Global Imagens)
Cidades como Porto, Lisboa e Braga isentaram proprietários de estabelecimentos e deram-lhes ainda direito a ocupar passeios e estacionamento.
Com os negócios do setor da restauração a sufocar devido à pandemia de covid-19, as medidas excecionais de licenciamento de esplanadas fizeram disparar, do Norte ao Sul, o número e o alargamento destas estruturas para espaços públicos, como passeios ou lugares de estacionamento.
No Porto, as esplanadas licenciadas mais do que duplicaram de 2019 para 2020, de 223 para 537. No final de setembro passado, eram 543. Do mesmo modo, os pedidos de âmbito excecional cresceram, contando-se este ano 174 esplanadas em estacionamentos (mais 57 do que em 2020), 16 em praças e largos (seis).
Também em Lisboa o número de pedidos aumentou em quase todas as freguesias nas quais o JN apurou dados, tendo sido licenciadas pelo menos 942 esplanadas em passeios ou lugares de estacionamento desde 2020, um fenómeno mais visível no centro da cidade. Por exemplo, em 2020, foram licenciadas 62 esplanadas na Estrela, em passeios, e este ano 90. Já a Junta de Santo António licenciou 61 estabelecimentos este ano, a ocuparem 216 metros quadrados em passeio e 433 metros quadrados em estacionamento. No ano passado, autorizou 73 esplanadas.
"Muitos estabelecimentos de restauração e bebidas que não tinham esplanada, para cumprimento das medidas da Direção-Geral da Saúde, apresentaram pedidos para ocupação do espaço público", explica a Câmara do Porto. "Nos passeios, junto aos estabelecimentos, foram, em 2020, alargadas as áreas de esplanada e reduzidos os corredores pedonais, porque eram poucas as pessoas que circulavam a pé, mas, desde junho, com a diminuição das restrições e o aumento de pessoas, temos vindo a reduzir a largura das esplanadas nos passeios, para permitir que a circulação se faça com mais conforto e segurança", indica ainda a Autarquia.
Municípios vizinhos
Em concelhos vizinhos, o número de esplanadas também aumentou em tempos de pandemia. Os pedidos dispararam na Maia - de quatro em 2019 para 14 este ano - e em Matosinhos também subiram. Em Gondomar havia, em 2020, cinco esplanadas licenciadas, número que disparou para as 60 neste ano. De acordo com o Município, "o aumento mais acentuado verificou-se em Rio Tinto, S. Cosme e Fânzeres". Em Gaia assistiu-se igualmente a "um aumento muito significativo da área de esplanadas", sendo que os 97 espaços de 2019 passaram para 154 em 2020 (19 em zonas de estacionamento), sendo de 230 este ano (43 em estacionamento). A área ocupada nos três anos cifra-se em 3600 metros quadrados.
No âmbito do regime "Braga de Porta Aberta", o município bracarense recebeu 93 pedidos para alargamento de esplanadas, dos quais foram autorizados 72. "Maioritariamente, os aumentos incidiram em passeios e praças" do centro da cidade, mas também houve casos em que a ocupação se estendeu a lugares de estacionamento "sem recurso a estrado", refere a Autarquia.
Com tempo bom, é o melhor para chamar o cliente
Se o "boom" turístico no Porto já tinha plantado esplanadas em cada recanto - especialmente na Baixa da cidade -, a pandemia multiplicou-as, em número e em área, deixando, em muitos casos, corredores de apenas um metro de largura para os peões se cruzarem.
Com o negócio enfraquecido pela crise pandémica, aproveitou-se cada palmo de chão para conquistar clientes, e a medida camarária de exceção foi um bálsamo para Justino Pinto, que, sem espaço amplo à porta, ganhou uma extensão da esplanada do outro lado da rua, a par do gradeamento do jardim de S. Lázaro.
"Depois de tanto tempo em que estivemos sem ganhar dinheiro, foi uma coisa muito boa. Está tudo legal. Agora, vamos ver como é a partir de janeiro, e quanto vão pedir anualmente" pela esplanada, atira o empresário, que lançou a Tasquinha do Ouro II em março, com takeaway, e pôs mesas na rua em maio, em período de isenção de taxas.
Atravessar a rua
Ter de atravessar a rua para servir os clientes no Passeio de S. Lázaro não o incomoda, e garante que também nunca teve queixas sobre o encurtamento da zona de peões. "Com o tal metro que somos obrigados a dar para as pessoas passarem, nunca tem problema", assegura Justino Pinto. E redobra os elogios à medida: "Foi a única coisa boa que deram. Com tempo bom, é a melhor coisa para chamar o cliente. Quem é que não quer estar aqui a tomar um café e a fumar um cigarrinho? E agora, com a doença, as pessoas têm de ficar separadas e ao ar livre, e toda a gente quer isto, já se sabe".
Segue-se pelos Poveiros e a árida praça é um mar de esplanadas - sobretudo, à noite. Na Rua de Passos Manuel, predominam as plataformas para o exterior do passeio, e na Praça da Batalha espraiam-se mesas e cadeiras. Em frente à estação de S. Bento, imperam as inúmeras filas de mesas, e o taipal de uma obra torna ainda mais estreito o corredor de passagem. "Aqui, sempre foi assim. É uma zona turística", observa Fernando Santos, que trabalha num dos cafés da Praça Almeida Garrett.
Segundo o funcionário, não houve ampliação da esplanada, e "a área ocupada é exatamente a mesma" do período pré-pandemia, embora aponte que a obra em frente, que dura "há bastante tempo", "roubou uma fila de mesas". Reclamações sobre o espaço transitável na praça que já foi ampla diz nunca ter ouvido. "Mesmo ao almoço, nunca houve queixa. Como também tem este corredor à frente das portas...", aponta.
Igualmente com pontos de passagem estrangulados pelas esplanadas, a Rua das Flores é quase um contínuo de mesas até ao Largo de S. Domingos, também todo ocupado. "É a área que tínhamos antes", diz Núria Sá, que regista enchentes à noite, na esplanada das Flores.
Um "balão de oxigénio" que manteve vivos os negócios
Ao percorrer a Avenida 5 de Outubro, nas Avenidas Novas, percebe-se por que é que esta foi a freguesia de Lisboa que mais esplanadas licenciou excecionalmente durante a pandemia. Porta sim, porta não, veem-se vários lugares de estacionamento ocupados com cadeiras, mesas e guarda-sóis - os espaços exteriores cada vez mais procurados. Satisfeitos com a medida, que ajudou muitos a alavancar os negócios, os comerciantes gostavam de manter e melhorar as esplanadas, para já só autorizadas até ao final do ano.
Após um ano e meio de pandemia de covid-19, a instalação de uma esplanada em regime excecional "foi um balão de oxigénio" para o restaurante La Pasta Fresca. "Trouxe mais clientes quando era proibido entrar no restaurante e continua a trazer porque as pessoas ainda têm medo de apanhar o vírus e preferem comer cá fora", conta Giuseppe Godono. O proprietário italiano ganhou 10 lugares na nova esplanada, que quer manter. "Espero que nos deixem continuar com ela. Queremos melhorá-la e fechá-la para torná-la mais confortável. Até há pouco tempo não havia muitos carros, mas o trânsito regressou e algumas pessoas já não gostam tanto de se sentar ao lado dos carros", explica Giuseppe.
Com um hotel em frente e dezenas de escritórios à volta, perdeu muitos clientes durante os períodos de confinamento que ainda não recuperou. Do mesmo se queixa Adriano Lopes, do Cave 158. Com a nova esplanada senta mais 14 pessoas no exterior, mas ainda espera por clientes antigos.
Takeaway ajudou
"A esplanada ajudou muito, porque quando as pessoas voltaram não se sentiam confortáveis a comer na cave, onde funciona o restaurante. O teletrabalho, porém, prejudicou muito. Temos clientes habituais que trabalham na zona que agora estão em casa". Adriano reconhece os benefícios do espaço exterior, mas acredita que não foi só este que permitiu salvar o negócio: "O takeaway também ajudou".
Jorge Xavier, da pastelaria Lobafo, sente o mesmo. "Sem esplanada, estaríamos tramados, mas não foi tudo, foi um complemento que ajudou ao negócio".
A pandemia veio dar a João Pinheiro, proprietário do restaurante Papi, a esplanada que já queria antes de a covid-19 chegar a Portugal. "Já tinha pedido autorização, na altura não aceitaram. O regime excecional veio permiti-la, correu bem", conta. O empresário nota que "muitas pessoas continuam a preferir comer cá fora" e diz que ganhou novos clientes "principalmente ao final do dia". "Vêm beber cerveja. Mesmo no inverno, com frio, vinham e ficavam lá fora. É um tipo de cliente que não tinha. Noto também que ficam mais tempo, até às 21 ou 22 horas, o que não acontecia se estivessem cá dentro".
