
Rui Oliveira / Global Imagens
Um ano após a tragédia de Pedrógão e a escassos meses de se aproximar igual marca da grande catástrofe que atingiu a Zona Centro, é legítimo que qualquer cidadão se interrogue acerca do percurso e das estratégias que nos protejam para o presente e para o futuro.
Se a defesa é uma questão de soberania nacional, não é menos verdade que a segurança e proteção de pessoas e bens é igualmente um facto de enorme responsabilidade do Estado, indelegável, imprescindível para que se promova a coesão, proteção e segurança.
Nos primeiros tempos, era determinante responder-se à emergência. E aqui, o Estado Central, as autarquias, a sociedade - apoiada em tantos movimentos de cidadãos que emergiram e que provaram que a solidariedade é uma causa que nos agrega sem tutelas -, deram sinais de resposta ajustada.
Sendo verdade que nem em todos os domínios ela foi de igual amplitude e com a mesma equidade.
De facto, no apoio aos pequenos agricultores, aos que desempenham uma atividade de complemento da sua atividade económica, aos que - tantas vezes - são o primeiro elo na defesa do território e da coesão local, e que contribuem para o primeiro escudo natural de proteção das nossas aldeias, o apoio do Ministério da Agricultura e Pescas não foi ajustado.
Nem os operadores e proprietários florestais veem encontradas soluções para que se opere a remoção de tantas toneladas de madeira queimada, o que é imperioso para se garantir a não infestação desses terrenos e que não se propague e eternize o estado de degradação paisagística e ambiental.
Mas, ao mesmo tempo em que se procuram mitigar esses efeitos, a pergunta legítima não deixa de se colocar: como está o país preparado para o futuro? Que medidas estruturais estão a ser desencadeadas?
Julgo ser evidente que a ação governativa está centrada na gestão mais imediata, procurando demonstrar que está a contratar meios - principalmente aéreos, depois de ter deixado para trás a ideia das forças profissionais para combate a fogos florestais, como havia anunciado no Conselho de Ministros ocorrido após o 15 de outubro.
E a questão estrutural e nuclear do planeamento florestal? E a gestão sustentável da floresta? E o combate ao abandono destes terrenos, onde não se investe se não existir retorno e onde não pode deixar de se defender a biodiversidade? E o ordenamento florestal, a existência de "faixas-tampão" e a plantação de áreas de proteção nos coroamentos das povoações, mais resilientes e ajustadas a essa função?
Estas são, de facto, questões que jamais poderão continuar sem resposta. Sob pena de nada fazermos a pensar no futuro, que cada vez é mais presente.
Basta percorrermos as áreas ardidas e observarmos o que está a acontecer: são inúmeras as árvores invasoras que estão a emergir e a alterar profundamente a floresta que existia. As mais resistentes - eucaliptos e acácias, através das suas sementes, estão a dominar a regeneração natural. Não é difícil encontrar num metro quadrado várias dezenas destas espécies em crescimento! Incluindo bermas ou mesmo no meio de caminhos.
Sem medidas para a sua limpeza imediata, em breve, estaremos perante autênticos barris de pólvora. Assustador, mas real.
*Presidente da Câmara de Tondela
