
Passos antevê números pouco positivos da economia portuguesa nos próximos anos
Foto: Carlos M. Almeida/Lusa
O antigo primeiro-ministro social-democrata Pedro Passos Coelho apontou, esta quarta-feira, para uma "previsão miserável" sobre o crescimento da economia a partir de 2027 e disse que o Estado "tem sido um óbice muito grande" em relação a esta matéria.
"Quando olhamos para as previsões da maior parte das instituições internacionais, a previsão para o crescimento per capita a partir de 2027 é miserável. E mesmo sem ser per capita, também é miserável. Regressaremos à nossa tendência de longo prazo, que é na casa de 1%, 1,1%", antecipou Passos.
As declarações foram proferidas durante uma intervenção no lançamento do ensaio "Economia, Inovação e Inteligência Artificial", editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em Lisboa, Passos deixou ainda outras críticas. "Fala-se muito da reforma do Estado, mas faz-se pouco por isso", considerou ainda Passos Coelho.
O atual professor universitário defendeu que, com a generalização da inteligência artificial, Portugal tem de se distinguir pela "qualidade das instituições e a capacidade de investir adequadamente no capital humano".
Questionado, em concreto, como é que o Estado pode apoiar as empresas e a economia de forma a aproveitar ao máximo as potencialidades da inteligência artificial, Passos Coelho criticou, por exemplo, a forma como Portugal tem acedido ao financiamento europeu.
"Usamos mal o financiamento europeu destinado à investigação e ao desenvolvimento. Aplicamos mal. Há uma espécie de empresas que se especializaram na captação desses fundos e que impedem que outras possam aceder a eles", considerou, falando num "ecossistema muito enviesado em que são sempre os mesmos que recebem os apoios".
Para o antigo responsável pelo Governo há empresas que "nem crescem, nem inovam mais do que as outras que não recebem", sinal de "alguma coisa que não está a funcionar bem".
"Quando nós passamos do Portugal 2020 para o Portugal 2030 e nada mudou na maneira como equacionamos a distribuição de recursos, há aqui qualquer coisa que não está a funcionar bem", acusou. "O Estado não está a usar a inteligência artificial para tirar conclusões, para mudar os processos, para investir de outra maneira e isso hoje é urgente", defendeu.
Assegurando não ser "um pessimista" em relação à matéria, Passos lembrou que a inteligência artificial tem riscos, como tornar mais facilmente substituível o fator humano.
"Podemos ser altamente produtivos para aqueles que estão a trabalhar, mas cada vez menos as pessoas terão do que viver, porque não serão precisas para produzir nada", alertou.
"Não podemos ficar de braços cruzados", apelou. Por isso, defendeu, as políticas públicas têm de atuar para que cada país aposte no que os pode distinguir dos outros e que já não será a tecnologia, "conhecida por todos e que pode ser apropriada por todos".
Na conversa com os autores do livro, Óscar Afonso e Nuno Torres, participou também a cientista e antiga ministra Elvira Fortunato, a um debate a que assistiram os antigos governantes do PS António Costa Silva e António Mendonça e o antigo governador do Banco de Portugal Carlos Costa.
