
Desperdicio custa 158 milhões de euros por ano ao país
Foto: Leonel de Castro / Arquivo
Portugal desperdiça quase nove piscinas olímpicas de água por hora. Em 2024, foram perdidos mais de 187,3 milhões de metros cúbicos (m3) de água tratada e a maioria desaparece a caminho das casas dos clientes, no serviço em baixa (166 milhões de m3). A Entidade Reguladora dos Serviços de Água e Resíduos (ERSAR) calcula que, se juntarmos os 78 milhões de m3 de afluências indevidas (águas pluviais que vão para as redes de esgotos para serem tratadas) às perdas de água, o desperdicio custa 158 milhões de euros por ano ao país.
"Importa salientar que o potencial de poupança associado às perdas reais permitiria abastecer cerca de 2,8 milhões de habitantes num só ano. Na segunda perspetiva, o potencial de poupança, em 2024, ascenderia a cerca de 157,9 milhões de euros (73,6 milhões de euros, associado aos gastos com a aquisição de água em alta para abastecimento público, que corresponde às perdas na rede de distribuição, e 84,3 milhões de euros, associado aos gastos com o tratamento em alta das afluências indevidas nas ETAR)", como pode ler-se no relatório de caracterização do setor de águas e resíduos da ERSAR, divulgado esta sexta-feira pela reguladora do setor.
Das 214 entidades gestoras que distribuem a água por casas, empresas e serviços, 60 têm perdas de água muito elevadas, 46 também apresentam uma qualidade de serviço mediana e há 87 com bom desempenho nesta área. O abastecimento de água é maioritariamente assegurado por câmaras e por serviços municipalizados e intermunicipalizados (156 entidades gestoras). Contam-se, ainda, 24 serviços concessionados a privados e 34 sob gestão delegada em empresas municipais ou intermunicipais e em parceria com o Estado.
Em declarações à Lusa, a presidente do conselho de administração da ERSAR, Vera Eiró, destaca o indicador da água não faturada e de perdas de água como os aspetos mais negativos, "que poderia melhorar substancialmente", bem como o indicador de conhecimento das infraestruturas, que é "a porta da boa gestão" e a partir da qual outros indicadores irão melhorar. Já Susana Rodrigues, diretora do departamento de qualidade da ERSAR, dá conta de que a água não faturada - que inclui perdas reais, perdas por avarias, por fraudes e por faturas por pagar e, ainda, a água que é usada para consumo pelo universo municipal e, por isso, não é paga - mantém-se próximo dos 27%.
O relatório da ERSAR mostra que houve uma melhoria de décimas na percentagem de água não faturada, passando de 26,9% em 2023 para 26,5% em 2024. Há uma evolução positiva nos últimos cinco anos, contudo têm sido melhoras muito ligeiras. Neste parâmetro, praticamente todo o Portugal continental está no vermelho (a qualidade de serviço é má) e sobram algumas ilhas no Litoral, no Interior e no Algarve com um bom desempenho.
"Em 2024, a água não faturada pelas entidades gestoras que prestam o serviço abastecimento de água em alta, atinge 34,1 milhões de metros cúbicos (+4,3 % face ao ano anterior). Nas entidades gestoras que prestam o serviço de abastecimento de água em baixa, a água não faturada atinge 224,0 milhões de metros cúbicos (-0,7 % face ao ano anterior)", especifica-se no relatório.
Portugueses pagam 29,45 euros por mês
Em média, a fatura da água em Portugal é de 29,45 euros por mês em 2024, o que baixou face a 2023. Nesse ano, era de 30,09 euros. No entanto, a ERSAR alerta para uma "amplitude significativa no valor da fatura mensal suportada pelos consumidores, decorrente da grande heterogeneidade nos valores praticados pelas várias entidades gestoras".
A regulação económica continua a ser uma preocupação da ERSAR. Entendem que o setor continua com tarifários demasiado baixos para os custos dos serviços, pelo que não há capacidade de investimento, por exemplo, na inspeção de condutas. Em 2024, a maioria das entidades gestoras não recuperou custos, especialmente serviços autárquicos. A cobertura de gastos em relação aos resíduos urbanos é o maior problema.
Por outro lado, a qualidade da água da torneira mantém-se elevada. Vera Eiró indica que o aspeto mais positivo do relatório é mesmo o do "indicador chave, que é o da qualidade da água para consumo humano, que se tem mantido nos 99%". O documento especifica 97% dos portugueses tinham, no final de 2024, acessibilidade física ao abastecimento de água no continente, todavia nem todos aderiram ao serviço: 90% tinham água da companhia em casa. Muitos habitantes continuam a preferir consumir a água dos seus poços e furos, o que pode representar um perigo por contaminação das águas no abastecimento ou nas águas residuais, alertou Susana Rodrigues.
