
Uma composição com uma ave diamante-papagaio (Erythrura psittacea) e peixes danio-pérola (Danio albolineatus), duas das espécies de vertebrados utilizadas neste estudo
Ricardo Jorge Lopes
Um estudo internacional liderado por portugueses da Universidade do Porto revela as enzimas utilizadas no processo de coloração de animais vertebrados, depois de em 2016 terem dado os primeiros passos na descoberta deste mistério.
Uma equipa de investigadores internacionais liderada por portugueses do CIBIO-inBIO/BIOPOLIS da Universidade do Porto (UP) publicou esta quarta-feira na revista Current Biology um estudo que desvendou o mistério da coloração vermelha em animais vertebrados.
Juntamente com membros da Universidade de Tulsa e da Escola de Medicina da Universidade de Washington, ambas nos EUA, a equipa da UP, encabeçada por Miguel Carneiro, descobriu uma nova enzima chamada BDH1L, responsável pela sintetização de cetocarotenóides, pigmento responsável pela coloração vermelha em vertebrados.
O trabalho é uma continuação de um estudo realizado em 2016 pela mesma equipa, no qual foi descoberta a primeira enzima responsável pelo processo, uma cetolase designada CYP2J19. Miguel Carneiro conta que, depois dos resultados de 2016 serem publicados, constataram que "a ação desta enzima não era suficiente para sintetizar os cetoratonóides", por isso continuaram à procura de outras enzimas que pudessem estar implicadas neste processo enzimático.
Agora, com novos resultados, "demonstramos que em várias espécies de aves há uma outra enzima que está envolvida, uma desidrogenase designada BDH1L", explica, citado em comunicado.
Cristiana Marques, coautora do estudo, acredita que "ainda mais importante foi constatar que estas duas enzimas são suficientes para fazer a conversão" e explica como funciona: "a CYP2J19 atua primeiro em carotenoides amarelos que são adquiridos pela dieta, transformando-as em zeaxantinas, que são depois transformadas em cetocarotenóides pela BDH1L".
Mecanismo semelhante noutras espécies
Os investigadores colocaram a hipótese de este mecanismo bioquímico verificar-se noutros seres vertebrados e, através de estudos realizados com peixes danio-pérola ( Danio albolineatus), confirmaram as suas hipóteses. Nesta espécie, duas enzimas semelhantes àquelas usadas pelas aves, eram as únicas envolvidas na produção de cetocarotenóides. Pedro Miguel Araújo, coautor do estudo, investigador da UP e do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Universidade de Coimbra, conclui que "isto demonstra que este mecanismo é utilizado por grupos de vertebrados com uma história evolutiva muito distinta".
O coordenador da equipa Miguel Carneiro acrescenta que esta descoberta "sugere que a utilização deste mecanismo de produção de cetocarotenóides pode ter surgido várias vezes durante a evolução, em diferentes grupos de vertebrados".
