
Início de Agosto de 1968. A Europa vivia tempos agitados: em França, assistia-se ao rescaldo das revoltas de Maio, que abalaram o regime do general de Gaulle; no Leste, as convulsões na Checoslováquia estavam a dias de desembocar numa invasão soviética. Portugal também teve um Verão agitado, ainda que por motivos bem mais prosaicos: a 3 de Agosto, António Oliveira Salazar, presidente do Conselho há 36 anos, caiu de uma cadeira na sua residência de férias no Forte de Sto. António da Barra, no Estoril, batendo com a cabeça. Seria o fim do seu consulado, embora o próprio nunca o tenha sabido.
Durante um mês, nada foi noticiado. O regime tentou esconder o sucedido e o próprio Salazar resistiu a contar aos médicos - só seria internado a 6 de setembro, com um hematoma na cabeça. Por isso, o JN só mencionou o acidente a 7 de setembro, mais de um mês após a ocorrência.
"O prof. dr. Oliveira Salazar sofreu uma queda na sua residência de Verão", titulou o JN nesse dia, numa caixa na capa. O espaço trazia o comunicado divulgado pelo regime, que revelava que o chefe do Governo tinha sido operado à cabeça e garantia que este se encontrava "bem".
No dia seguinte, o tema dominou a primeira página. Insistia-se na ideia de o ditador está a recuperar de forma favorável: "É satisfatório o estado de saúde do prof. dr. Oliveira Salazar", lia-se, sendo ainda anunciado que, na véspera, o JN teve de fazer duas tiragens, dado o "compreensível interesse" dos leitores.
No interior publicou-se, na íntegra, novo comunicado do Governo: "O sr. prof. dr. Oliveira Salazar deu uma queda na sua residência de Verão", sofrendo "contusões numa perna e na cabeça, pois bateu numa pedra". Contudo, o "ilustre enfermo" manteve "a sua vida normal - até que, há poucos dias, começou a sentir certas perturbações". Dias após a operação conversou com os médicos, "sinal evidente de que estava a reagir da melhor forma".
A 9 de setembro, o JN voltava a acalmar os leitores: "Acentuam-se as melhoras" de Salazar, garantia-se. A prova era que o ditador já tinha sido barbeado e já se tinha sentado "na sua poltrona favorita", um sofá de couro especialmente transportado para o Hospital de S. José, em Lisboa.
Mas, na verdade, o seu estado de saúde estava a degradar-se. No dia 16 Salazar sofreu um AVC e, a 27, seria substituído, na presidência do Conselho, por Marcello Caetano. O fundador do Estado Novo viveria mais dois anos, frágil mas consciente, embora sempre convencido - os seus colaboradores próximos assim o decidiram, para o preservar - de que continuava a comandar os destinos do país.
