
Corpo em câmara ardente nos Jerónimos
Pedro Nunes/Reuters
Populares reconhecem em Soares "a grande referência da democracia" e mesmo quem nem sempre o apoiou quis associar-se à despedida.
"Soares é fixe, Soares é fixe". Durante o cortejo fúnebre que conduziu, segunda-feira, o corpo de Mário Soares até ao Mosteiro dos Jerónimos, ouviu-se múltiplas vezes, algumas ecoando em fundo, em vozes solitárias ou em coro, o slogan criado em 1986 para a campanha presidencial. Era a voz do povo nas ruas, durante a cerimónia que antecedeu o funeral de hoje. O primeiro a gritá-lo foi o historiador Valentim Alexandre, assim que a urna de Mário Soares parou diante daquela que foi a sua residência de uma vida inteira, no Campo Grande, em Lisboa.
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O investigador do Instituto de Ciências Sociais mostrou ímpeto na voz. Uma centena de populares, maioritariamente pessoas acima dos 65 anos, não o imitaram no primeiro segundo, mostrando pudor em levantar a voz naquele momento de pesar. Mas acabaram por baixar a guarda e acompanhá-lo.
"Estou aqui porque Soares foi a grande referência da democracia portuguesa. Não estive de acordo com ele muitas vezes, estive até mais em desacordo", dizia. O facto de não ser da família política de Soares, torna-se insignificante na hora de homenagear quem conquistou a democracia num país refém do fascismo, justificou. Entre os anónimos, o ex-ministro Jorge Coelho destacou de Soares "o homem político sem medo". Havia quem comentasse que Soares merecia mais gente na despedida.
Antes da chegada da família Soares ao prédio, onde entraram para esperar pela carrinha funerária, a porta estava ocupada por conhecidos e vizinhos, visivelmente tristes.
Belina Cunha, 79 anos, foi vigilante no colégio e dava uma ajuda em casa quando havia jantares com convidados. Foram mais de 40 anos de convívio. Quando lhe morreu o filho, Isabel, filha de Mário Soares, destacou uma carrinha para transportar alguns amigos até ao velório, no Norte. "Eram como família. Ainda há pouco tempo me deu dinheiro para ajudar o meu neto".
A vizinha Maria do Carmo Silva, de 70 anos, lembrou o convívio de décadas. "Ele conheceu-me de miúda. Falava sempre", disse. "São todos pessoas excecionais". A sua admiração vai, no entanto, além da esfera pessoal. "Foi um homem que sofreu muito por ter optado viver para a política". E a Maria (Maria Barroso), como lhe chamou, "foi o seu pilar".
Quando o cortejo passou pelo Colégio Moderno, a comoção cresceu de tom. Havia quem chorasse copiosamente. Os filhos, Isabel e João, saíram dos automóveis para agradecer as palmas. Na passagem pela Avenida da República, a assistência jovem aproximava-se para registar o momento em telemóveis. Na Praça do Município, Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, deixou um cravo vermelho em cima da urna. E o corpo seguiu, levado numa charrete, com escolta da GNR a cavalo, para os Jerónimos, onde até à meia-noite milhares de pessoas, anónimos e muitos conhecidos, o quiseram velar.
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