Sondagem diária: Seguro perto do melhor resultado de sempre. Ventura com percentagem superior à de Montenegro nas legislativas
Análise de Rafael Barbosa e gráficos de Inês Moura Pinto
A projeção final da Pitagórica para o JN, TSF, TVI e CNN Portugal não deixa margens para dúvidas sobre quem será o vencedor das eleições de domingo. Mas há outras barreiras politicamente relevantes para ultrapassar. António José Seguro deverá ser o próximo presidente da República (67,8%) e pode aspirar a bater o melhor resultado de sempre em presidenciais: Mário Soares, em 1991, com 70,3%. André Ventura deverá ser derrotado (32,2%), mas talvez não vencido, uma vez que poderá fazer melhor do que Luís Montenegro nas legislativas do ano passado (31,2%). Há, no entanto, três grupos de eleitores capazes de baralhar todas as contas: os abstencionistas, cuja percentagem não é possível antecipar; os 7,4% de indecisos; e os 9% que apontam para um voto nulo ou em branco.
Nesta sondagem final, que corresponde à 11ª entrega da sondagem diária, a Pitagórica tornou mais robusta a amostra, com um pouco mais de 800 inquéritos (em vez dos 600 habituais), o que significa que a margem de erro se reduz para mais ou menos 3,51%. Foi igualmente decidido que seria apresentada uma projeção de resultados que segue os mesmo critérios do escrutínio oficial, ou seja, a percentagem de cada candidato depois de uma distribuição proporcional dos indecisos, bem como dos votos brancos e nulos (nas dez vagas anteriores, apresentaram-se apenas as intenções diretas de voto).
Seguro com resultado inédito à vista. Ventura pode chegar a 35%
É em resultado desse exercício que se pode dizer que António José Seguro tem ao seu alcance, mais do que a vitória, um resultado inédito. No intervalo máximo da projeção (71,4%), poderá ultrapassar os 70,3% que Mário Soares conseguiu em 1991, na candidatura a um segundo mandato em Belém. Sendo certo que o histórico líder socialista beneficiou de condições que não se repetiram com Seguro: o apoio incondicional do PS desde a primeira hora (desta vez, apenas em outubro, e com resistências internas) e o apoio tácito do então primeiro-ministro, Cavaco Silva, que preferiu deixar o PSD fora da corrida (desta vez houve Marques Mendes na primeira volta e, na segunda, a rigorosa neutralidade de Montenegro).
Ao contrário, se as eleições fossem hoje (as sondagens só conseguem fazer um retrato de um tempo que já passou), André Ventura seria derrotado sem apelo, nem agravo. O que não quer dizer que não encontre motivos para celebrar na noite de domingo, se estes resultados se repetirem: termina com uma projeção de 32,2% e, se tivermos em conta a margem de erro, poderia chegar até ao patamar máximo de 35,8%, bem acima do que conseguiu a AD nas legislativas de maio de 2025 (31,2%). É certo que isso deverá bastar para o líder do Chega reclamar a liderança da Direita (já o fez na primeira volta), mas haverá outros dados a ter em conta. Por exemplo, e independentemente da percentagem, conseguirá os quase dois milhões de votos de Luís Montenegro?
Mais de 300 mil eleitores de Cotrim estão num limbo político
Uma das maiores incógnitas para as eleições de domingo é precisamente o nível de abstenção e o impacto que poderá ter. E é António José Seguro o que mais parece temer a desmobilização do eleitorado. Mas há mais dois dados da sondagem que introduzem incerteza. Desde logo, a percentagem de indecisos (7,4%), que se manteve estável ao longo destas duas semanas. Mas também a elevadíssima percentagem de eleitores que aponta para um voto nulo ou em branco. Se se confirmassem os 9%, seria inédito, pelo menos numas presidenciais. O valor máximo neste século XXI aconteceu em 2011, no segundo mandato de Cavaco Silva, com cerca de 6%. Sendo que em todas as restantes corridas a Belém os brancos e nulos rondaram sempre os 2%.
Quando se analisam os diferentes segmentos da amostra, há um grupo que se destaca: os eleitores de João Cotrim Figueiredo. Ainda que a maior fatia dos que votaram no liberal, aponte agora para Seguro (46,2%), também é relevante que um décimo esteja indeciso (11,3%) e que um quarto (25,8%) prefira o branco ou o nulo. Tendo em conta que Cotrim recolheu 900 mil votos na primeira volta, são mais de 300 mil eleitores numa espécie de limbo político.
Eleitores castigados pela tempestade dão prémio a Seguro
A exemplo do que se fez nos primeiros dias, também agora é importante olhar para os números da intenção direta de voto (sem distribuição de indecisos, nem de brancos e nulos), até porque é a melhor forma de perceber as principais tendências destas duas semanas de campanha. E, quando assim se faz, percebe-se que que há dois movimentos opostos nas vagas mais recentes: Seguro a ganhar quatro pontos nos últimos três dias, e Ventura a perder três em apenas dois.
A explicação para estas tendências poderá estar na forma como cada candidato reagiu politicamente à tempestade e aos seus efeitos. Quando se analisa a evolução de resultados nos segmentos geográficos da amostra, a Região Centro destaca-se de todas as outras: Seguro, que manteve sempre uma postura mais serena, mas crítica, disparou 15 pontos percentuais em apenas dois dias (de 47,6% para 62,6%); enquanto Ventura, que transferiu a caravana para a zona de catástrofe e a transformou em tema único, afundou seis pontos nos mesmos dois dias (de 27% para 21,3%).
O Centro é aliás, a única região em que o ex-líder socialista termina com uma intenção direta de voto (sem distribuição de indecisos brancos e nulos) melhor do que no arranque da sondagem diária, a 26 de janeiro. Já Ventura, para além do Centro, também acaba a campanha em perda no segmento que inclui as ilhas, o sul e o Oeste (outra sub-região fortemente penalizada pela tempestade).
Mulheres fazem a diferença para Seguro, apesar de algum desgaste
Na análise a outros segmentos, destaca-se também o desequilíbrio de género de ambos os candidatos, visível do primeiro ao último dia. No caso de Seguro, as mulheres (61%) valem agora mais oito pontos do que homens (51,9%). No arranque a diferença era de 16 pontos, mas, entre 26 de janeiro e 5 de fevereiro, o ex-líder socialista perdeu dez pontos entre elas (apesar de recuperar três pontos nos últimos três dias). No caso de Ventura, os homens (30,9%) valem mais sete pontos do que as mulheres (23,2%), o que significa que perdeu três pontos entre eles e ganhou ouros três entre elas ao longo dos últimos 11 dias.
Finalmente, no que diz respeito aos escalões etários, Seguro termina na frente em todos eles. O seu melhor resultado é entre os mais velhos (61,7%), mas foi só entre os mais jovens que conseguiu crescer ao longo da campanha da segunda volta (57,3%). Exatamente ao contrário, o pior resultado de Ventura é nos que têm 55 ou mais anos (23,7%), mas só caiu entre os 18/34 anos (26,6%).
Ficha técnica
Durante três dias (3, 4 e 5 de fevereiro de 2026) foram recolhidas diariamente pela Pitagórica para a TVI, CNN Portugal, TSF e JN as seguintes amostras: 3 de fevereiro, 202 entrevistas; 4 de fevereiro, 203 entrevistas; 5 de fevereiro, 405 entrevistas. Foram tidos como critérios amostrais o género, três cortes etários e 20 cortes geográficos (distritos, Madeira e Açores). O resultado do apuramento dos três últimos dias de trabalho de campo, resultou numa amostra de 810 entrevistas que para um grau de confiança de 95,5% corresponde a uma margem de erro máxima de ±3,51%. A seleção dos entrevistados foi realizada através de geração aleatória de números de telemóvel, mantendo a proporção dos três principais operadores móveis. Sempre que necessário foram selecionados aleatoriamente números fixos para apoiar o cumprimento do plano amostral. As entrevistas são recolhidas através de entrevista telefónica (CATI - Computer Assisted Telephone Interviewing). O estudo tem como objetivo avaliar a opinião dos eleitores portugueses, sobre temas relacionados com as eleições presidenciais, nomeadamente os principais protagonistas, os momentos da campanha bem como a intenção de voto dos vários candidatos. Foram realizadas 1602 tentativas de contacto, para alcançarmos 810 entrevistas efetivas, pelo que a taxa de resposta foi de 50,56%. A distribuição de indecisos é feita de forma proporcional. A direção técnica do estudo é da responsabilidade de Rita Marques da Silva. A ficha técnica completa, bem como todos os resultados, foram depositados junto da ERC - Entidade Reguladora da Comunicação Social que os disponibilizará para consulta online.

