
No caso de António José Seguro, 37% só se decidiram por lhe entregar o voto na última semana de campanha.
Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP
Foi só no próprio dia da eleição presidencial que uma parte significativa dos eleitores decidiu em quem votar. No caso dos três primeiros classificados, foram 13%, de acordo com estudo à boca de urna realizada para a TVI e a SIC. Uma volatilidade que não impediu a sondagem diária da Pitagórica de apresentar um desvio médio de apenas 1,8 pontos percentuais, acertando em pleno na posição relativa dos cinco principais candidatos e, em particular, nos dois que conseguiram passar à segunda volta: António José Seguro e André Ventura.
Num ciclo eleitoral em que as sondagens se transformaram, elas próprias, em tema de discussão e controvérsia, a conclusão, terminada que está a contagem dos votos, é a de que, apesar das naturais diferenças entre institutos, a capacidade de captar as principais tendências correspondeu às expectativas.
No caso da sondagem diária da Pitagórica para o JN, TSF, TVI e CNN, o desvio médio foi de 1,8 pontos percentuais, ainda que Seguro tenha superado as últimas previsões (estava em crescendo até ao último dia de trabalho de campo, três dias antes do ato eleitoral) e Cotrim tenha sido sobrevalorizado (ficará sempre a dúvida sobre o impacto que poderá ter tido a acusação de assédio sexual que marcou a reta final da campanha).
No que diz respeito a Ventura, um dos candidatos que mais ataca as sondagens, a diferença entre a última previsão da Pitagórica e o resultado final foi de apenas três décimas. No caso de Gouveia e Melo ou Marques Mendes foi inferior a um ponto percentual.
A capacidade de prever as tendências é mais relevante quando se percebe, ao analisar os resultados da sondagem à boca das urnas (feita no próprio dia das eleições), que há uma percentagem muito elevada de eleitores que só tomou uma decisão muito perto ou no próprio dia do voto. No caso de Seguro, foram 37% (24% na última semana e 13% no domingo), enquanto no de Ventura o total se reduz para 21% (8% da última semana e 13% no próprio dia). Esta volatilidade foi especialmente elevada no caso de Gouveia e Melo e Marques Mendes: 21% e 20% só decidiram pôr a cruzinha à frente dos seus nomes no próprio dia.
Seguro no feminino, Ventura no masculino
Mas há outros dados relevantes sobre o perfil dos eleitores de cada um dos candidatos, sendo essa informação particularmente relevante no caso dos dois finalistas. No que diz respeito ao género, por exemplo, fica claro que Seguro tem um pendor feminino (58% do seu eleitorado são mulheres), enquanto Ventura depende mais voto masculino (56% são homens).
No que diz respeito à divisão dos eleitores em grupos etários, a fatia mais importante do socialista são os que têm 65 ou mais anos (44% do seu eleitorado), enquanto o líder do Chega revelou maior impacto nos 35/64 anos (48% do seu eleitorado). O voto dos jovens (18/34 anos) representou 20% dos votos de cada um deles (no caso de Cotrim representaram 41%).
Se o ângulo incidir no nível de instrução, voltamos a encontrar diferenças significativas entre o ex-líder do PS e o atual líder do Chega: no caso do primeiro, 53% do eleitorado tem pelo menos a licenciatura; enquanto o segundo se destaca pelos 41% que não completaram o Ensino Secundário. Maior dependência de um destes grupos só a de Cotrim relativamente aos licenciados (64%).
Cortrim supera Mendes no eleitorado da AD
Finalmente, a sondagem à boca das urnas confirma uma das tendências que as sondagens diárias da Pitagórica também detetaram: a dispersão do eleitorado da AD. Foi o liberal Cotrim Figueiredo que mais "pescou" nas águas da coligação PSD/CDS (31%), superando o próprio Marques Mendes (29%). Mas também houve 17% de eleitores de Montenegro em maio, que agora optaram por Seguro, e ainda 14% que votaram em Gouveio e Melo e 7% que escolheram agora Ventura.
No que diz respeito ao eleitorado do Chega nas legislativas do ano passado, Ventura fez quase o pleno, com 82% (Cotrim "pescou" 8% desses eleitores). No caso de Cotrim, fidelizou 73% dos eleitores da Iniciativa Liberal, enquanto António José Seguro ficou com 71% dos que votaram no PS em maio do ano passado. Acresce que 55% dos eleitores do Livre, CDU e BE rejeitaram os candidatos destes partidos e optaram pelo "voto útil" no socialista, que também conseguiu 13% dos eleitores liberais.

