
Sara Gonçalves
Rui Oliveira/Global Imagens
Mediador consegue que 60% a 70% dos alunos apoiados passem de ano.
Há o estigma. E há o orgulho. O último é a resposta ao primeiro. Estamos na Escola do Cerco, no Porto. Naquela que, durante anos a fio, foi considerada a pior escola do país - no último ranking, num universo de 1236 ocupava o 1213 lugar no 3.º ciclo. Num agrupamento que, como sublinha o diretor Manuel Oliveira, junta 14 bairros da parte oriental da cidade, ""zona depósito" de bairros e problemas sociais", lê-se no site da escola.
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"Aqui as pessoas são boas, só têm é que sonhar mais alto". Diz-nos Ricardo Soares, antigo professor de Português e mediador da EPIS na Escola do Cerco. Fala muito de sonhos. De ir além. "Vivem aqui e acham que não vão sair daqui". Tem 35 anos, nasceu em Arcos de Valdevez, e sempre andou por escolas problemáticas. Parou no Cerco, patrocinado pela Sonae, há quatro anos. Acompanha cerca de 60 alunos do 3.º ciclo e já amparou outras tantas dezenas.
Como Sara Gonçalves, agora a frequentar o 11.º ano de Humanidades. Naquele sotaque orgulhoso do Porto, lembra "a idade estúpida", por volta do 8.º ano. "Baldava-me um bocadinho às aulas", explica. "O stôr", que considera "um amigo", ajudou-a a ter método: "Agora já consigo ter o meu próprio estudo, já me consigo safar". Sara, que quer tirar Criminologia e Desporto - "porque se um se fechar tenho outra coisa" - fala de como mudou o seu comportamento. "Se vir um miúdo a ser malcriado chamo a atenção".
Quem vive fora dos muros do Cerco pode não perceber. Mas Maria Alice Camilo, professora de Matemática há 15 anos naquela escola, sabe bem do que se fala. É que se para muitos é importante passar à disciplina "bicho papão", para outros o chegar ao final do ano e ter um aluno a pedir licença para entrar na sala de aula é a maior vitória de todas. Aos 50 anos, na vida desta docente há o antes e o após Cerco. Quando achava "que ser bom aluno era despejar conhecimentos". E quando viu "que esse não era o caminho": "Tenho que olhar para como encontrei o aluno e como o tenho agora".
Ensinar a pescar
O projeto EPIS foi fundamental nesse processo, garante. Pela partilha de "sucessos e insucessos". "Eu sabia quando os meus alunos, como a Sara, vinham do professor Ricardo". Pelo que não tem dúvidas: "Se este projeto desaparecesse seria uma pena porque faz milagres aqui".
Ensino-os a pescar, explica, com humildade, Ricardo. Falamos na biblioteca, onde recebe os alunos que acompanha. Às 9.30 horas são já muitos os que estão a receber apoio. E alguns os que estudam sozinhos. A imagem de uma biblioteca às moscas não cabe, pura e simplesmente, naquela escola. Nem o silêncio. Falam alto. Mas estudam.
"Com eles assino um compromisso. Um tem que ter zero negativas, outro não faltar". Ensina-os a organizarem-se, a saberem estudar, a estarem em sociedade. "Tenho pais que têm dois empregos, como é que vão dar apoio aos filhos?". Cerca de 60 a 70% transitam de ano. Mas sabe que não consegue "chegar a todos". Porque os problemas vão muito para além da dificuldade de conjugar ou de multiplicar. Esses, teve que "encaminhar para a Segurança Social".
Uma realidade dura, presa ao estigma. Que Manuel Oliveira, diretor há oito anos daquele agrupamento que soma 2176 alunos, conhece como a palma das mãos. Lembra que já são Território Educativo de Intervenção Prioritária (TEIP) e fala da "substancial melhoria das performances internas dos alunos". Como Fernanda Ereny, 13 anos, filha de pai boliviano e mãe brasileira. Tímida, recorda as cinco negativas no 7.º ano que a levaram a ser sinalizada pela EPIS. Com Ricardo organizou "o estudo" e melhorou o comportamento. E os menos do 1.º período passaram a mais ininterruptos.
Não cumprem os objetivos definidos pela tutela, mas sabem que melhoram aos poucos. Chegaram a pensar mudar de nome, atirar o estigma para longe. Mas sabem que são precisas gerações. "As parcerias têm ajudado a descolar. O agrupamento tem boa imagem externa, mas em termos regionais e nacionais o Cerco continua a ser a escola do Cerco", sente o diretor. Sara responde. E atira para quem quiser engolir em seco: "Posso ser do bairro, mas se tiver uma postura exemplar não me podem apontar o dedo".
