Casas Primeiro é o projecto que ajuda pessoas que vivem na rua a arrendar uma casa particular. No mês dedicado aos sem-abrigo, faz-se o balanço do programa, que já atribuiu 50 habitações, na voz de Sérgio, um sem-abrigo que deixou para trás 20 anos de rua.
Entre as velhas casas de Alfama ouve-se fado. A música de fundo agrada a Sérgio, um antigo sem--abrigo que conheceu o projecto Casas Primeiro (CP) há 8 meses. Gosta da zona onde agora vive, dos vizinhos e do pequeno apartamento, decorado com fotografias da família. A televisão é o entretenimento da casa, onde se sente "no céu".
"A casa dá saúde mental e física e é mágica nesse sentido". José Ornelas, coordenador do CP, explica que as pessoas sem-abrigo recebem uma nova vida com este apoio, uma alternativa viável à institucionalização. Os primeiros 50 casos escolhidos são pessoas com perturbações mentais e muitos anos de rua. Esquizofrenias e depressões são patologias muito comuns, alimentadas pelo medo e insegurança. Mas quando é confiada uma casa aos doentes os sintomas diminuem, diz o coordenador e docente do Instituto Superior de Psicologia Aplicada. "Dá-se uma metamorfose interior, as pessoas começam a redescobrir-se e à sua cidadania. Têm uma casa, pertencem a uma comunidade", conta.
"Ninguém dá nada a ninguém"
Hoje com 39 anos, Sérgio recorda "os maus-tratos e o abandono familiar" que o levaram à rua quando tinha apenas 18. Os medos e o tratamento indigno da sociedade fizeram-no duvidar da Associação para o Estudo e Integração Psicossocial (AEIPS), que gere o programa, "porque ninguém desce à terra para dar nada a ninguém", diz.
A equipa da AEIPS ajuda os sem-abrigo a alugar uma habitação individual. Distribuídas por diferentes bairros lisboetas, as casas são suportadas pelos inquilinos, que contribuem com 30% do seu rendimento. Recebem seis vezes por mês a visita dos técnicos, que os ajudam a conseguir a documentação em falta e a pedir o Rendimento Social de Inserção. "Acompanham-nos se precisarmos de ir a um centro de saúde, a um tribunal, onde quer que seja", conta o morador, enquanto a assistente social marca na agenda a data da próxima consulta médica. "Tratam-nos com respeito, amor, como seres humanos e ajudam-nos no que podem", afirma Sérgio.
1700 sem-abrigo por alojar
José Ornelas refere que, com a atribuição da casa, "as pessoas com doenças mentais deixam de utilizar as equipas de emergência, da Misericórdia, do INEM e deixam de ser internados nos hospitais, psiquiátricos e civis", serviços dispendiosos. Assim, o CP "tem um custo-benefício muito bom", afirma.
Mas o projecto está ainda muito aquém do número de sem-abrigo que dormem nas ruas de Lisboa. Sérgio ainda se sente "num sonho" e pensa se será verdade que tem uma casa própria. "Só peço a Deus que o CP tenha o máximo de ajudas possível. Se são 1700 sem-abrigo, dêem 1700 casas para os tirar da rua".
