
Sousa Franco com Narciso Miranda e Manuel Seabtra, na lota, minutos antes da tragédia
Foto: Arquivo/Global Imagens
Antigo ministro era candidato e sofreu ataque cardíaco a 9 de junho, numa visita à lota de Matosinhos. "Portugal está de luto", titulou o JN.
Chegou à lota de Matosinhos, por volta das 9 horas, para mais uma de muitas ações de campanha para as europeias daquele ano. Naquele dia, contudo, havia uma diferença: o ambiente estava tenso, em boa medida fruto de uma disputa interna no PS local. Ladeado por Narciso Miranda e Manuel Seabra - o antigo autarca e o que estava em funções -, António Sousa Franco, cabeça de lista socialista às europeias de 2004, viu-se encurralado num ambiente claustrofóbico, fértil em empurrões, agarrões e insultos. Minutos depois, entrou no carro, sofreu um ataque cardíaco e não resistiu. Faz hoje 20 anos.
“É entusiasmo e força”, afirmara Sousa Franco à saída da lota, minutos antes da tragédia, procurando desdramatizar os contornos da conturbada ação de campanha. “Matosinhos e o Porto é força”, reforçou, sorridente mas um tanto abalado.
A notícia da sua morte chegou ainda durante a manhã. No dia seguinte, 10 de junho, o JN titulava: “Portugal está de luto”. Por baixo, lia-se que Sousa Franco, antigo ministro das Finanças em duas ocasiões, não tinha resistido “ao stress da campanha, agravado com os conflitos na lota”. A autópsia preliminar revelou lesões antigas nas coronárias.
Ana Gomes: “Choque terrível”
Nessas eleições, a candidata n.º 3 do PS era Ana Gomes - que subiria na hierarquia após a morte de Sousa Franco, passando António Costa a ocupar o lugar cimeiro. Vinte anos volvidos, a antiga embaixadora lembra, ao JN, o “choque terrível” que foi a morte súbita do cabeça de lista, que descreve como “pessoa excecional” e “um grande professor”.
“Tinha uma grande jovialidade e um grande interesse cultural”, recorda Ana Gomes. “Não era um daqueles economistas desligados da realidade”, acrescenta, frisando que a morte de Sousa Franco foi não só uma perda para o PS mas, também, “para o país”.
A antiga candidata presidencial recorda que a tragédia ocorreu “mesmo no fim” da campanha. Não estava no local, uma vez que os candidatos se tinham dividido para estarem em mais sítios. Diz ter sido “muito difícil de recuperar” ao saber da notícia. A campanha, aliás, seria suspensa.
Ana Gomes lembra que “havia umas guerras no PS local” entre as fações de Narciso Miranda e Manuel Seabra. “A leitura que prevaleceu”, frisa, foi que esses rivais “quiseram promover-se” à custa da ação de campanha.
Ana Gomes refere que a “euforia” inesperada na lota, somada ao cansaço acumulado numa campanha “duríssima”, terão contribuído para o desfecho trágico. Questionada sobre se, depois deste episódio, algo mudou nas campanhas, desabafa: “Ainda ontem estava a pensar se não se exagera...”. E diz que todos ganhariam se as ações de campanha ocorressem sobretudo no formato de “sessões de esclarecimento”.
