
Professor Fernando Pena com o presidente da Associação Álvaro Gonçalves
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Fernando Pena foi distinguido com um prémio na área do ensino de matemática. Ao JN, o professor realça que disse que o desempenho dos alunos é muito influenciado pelos professores e não deixou de destacar a situação precária que a classe docente atravessa.
Enquanto professor de matemática, Fernando Pena não vê números em tudo. Acredita num ensino focado em “conhecimento sólido” e “metas exigentes”, não esquecendo que a escola é o “grande elevador social” que permite a várias pessoas, de diferentes contextos socioeconómicos, “subir [na vida] e ultrapassar a condição de onde partiram”. Mas para isso é preciso que a escola crie a oportunidade para que os alunos sejam ambiciosos.
Este professor, que foi esta semana destinguido com o prémio Álvaro Batista Gonçalves direcionado para a matemática, nota que existe uma “incoerência no ensino”, nomeadamente a nível das metas curriculares. Assim, o desempenho dos alunos fica comprometido, pelo que é a favor de “descartar o experiencialismo” educativo e olhar para as “práticas internacionais reconhecidas” e aplicá-las.
A fórmula para os melhores resultados académicos são professores “competentes e contentes”, diz em entrevista ao JN. No seu entender, as escolas deviam ter mais autonomia e poderem realizar a contratação dos próprios professores.
Na sala de aula, muitas vezes o desempenho dos professores reflete a situação precária que vivem. Com a renovação da classe docente, salários mais atrativos, uma situação familiar mais atrativa, contratos duradouros e bons mecanismos de disciplina, reúnem-se as condições de trabalho cruciais para executar bem a profissão, afirma Fernando Pena. Para além de metas coerentes e bem pensadas, aponta ser necessária a colaboração das editoras para os estudantes terem melhores manuais disponíveis.
“Por alguma razão há tão poucos [jovens] a querer a profissão”, exemplifica o professor premiado, que dá ênfase à ideia de ser preciso atingir estabilidade na profissão.
Condena explicações
Em 2022, Portugal foi colocado entre os países que mais baixaram de pontuação em matemática nos exames Pisa, mas antes o desempenho dos alunos à disciplina estava a ser mais que satisfatório. Fernando Pena relembra que “esses testes internacionais são uma referência e medem apenas alguma parte da aprendizagem, e a subida de desempenho que tivemos há uns anos foi muitíssimo significativa”.
A disciplina de matemática é também a que tem mais procura de explicações, algo que o entrevistado condena. “As explicações correspondem a tentar ter um treino intensivo para poder ter boa nota no exame. Se isso é bom, eu acho que não ", salienta, justificando com o facto de nem todos terem acesso às explicações, o que coloca alguns alunos à frente de outros.
Nesse sentido, Fernando Pena alerta que “um aluno não é um número”, o que se deveria traduzir em acessos mais reais ao ensino superior. O exame, para si, devia ser apenas um dos muitos meios de entrada na faculdade, em vez de corresponder à quase totalidade da nota de acesso. Cartas de recomendação, entrevistas, entre outros formatos, é o que Fernando Pena sugere.
O prémio com que foi destacado teve a sua primeira edição com a entrega do prémio pelo general Ramalho Eanes, que presidiu ao júri, na passada terça-feira. Fernando Pena foi o primeiro a receber a distinção que visa reconhecer e motivar a excelência no ensino na Matemática no ensino básico e secundário.
“Eu sou o primeiro de muitos que podem vir a descobrir que de alguma maneira podem encontrar essa mesma alegria de poder ver a sua carreira reconhecida” reflete o professor, ao ser questionado da responsabilidade que esta vitória acarreta. Ainda assim, a maior responsabilidade é ser o melhor professor que consegue, admitindo que o reconhecimento é um “aconchego na carreira”.
A Associação Álvaro Gonçalves tem sede em Miranda do Douro e procura honrar a memória do empreendedor Álvaro Batista Gonçalves. Um dos seus objetivos passa por "fomentar nas crianças e nos jovens o gosto pelo estudo de diferentes áreas de ensino, especialmente da matemática".
