Violência doméstica: crescem os números, crescem as prudências
Sobe-se a rua de Santa Margarida, onde se encontra o Espaço Igual da Cáritas de Braga, como sobem os números de vítimas de violência doméstica de dia para dia. Segundo a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), o país registou mais de 25 mil ocorrências nos primeiros nove meses do ano passado, o valor mais alto em sete anos. São estas as vidas a que a Cáritas e a Associação de Apoio à Vítima (APAV) tentam dar a mão.
As nuvens escuras abrem a porta a um arco-íris quando Raquel Gomes, coordenadora das respostas de apoio à vítima da Cáritas de Braga, convida à entrada. A importância dada à privacidade está inscrita no longo corredor com várias salas, onde uma jovem espera. A associação conta com serviços gratuitos de apoio emocional, psicológico, social e jurídico, tal como a APAV.
Para Marta Silva, psicóloga no Gabinete de Apoio à Vítima (GAV) da APAV de Braga, é essencial prestar este tipo de apoio, acrescentando que "não faria sentido de outra forma". Dentro do estreito edifício da junta de freguesia de S.Victor, um largo número de revistas, que distraem do motivo da visita, repousa na sala de espera, também. De lá ouvem-se vozes abafadas: "Como está a senhora hoje?".
"Traumatizante" é a forma como Iva, nome fictício, recorda a sua experiência como vítima de violência doméstica, a partir da sua casa no estrangeiro. Em Portugal, vários familiares a quem pediu ajuda fecharam portas, incluindo outras mulheres que também já tinham sido vítimas. "Desconfiavam de mim e perguntavam o que eu tinha feito para ele fazer aquilo", partilha.
Este caso não é único, evidenciando o papel fulcral das associações na consciencialização do fenómeno da vitimação, como faz a APAV. A "sensibilização junto da comunidade", como indica Marta Silva, faz-se de muitas formas. As Jornadas de Braga Contra a Violência realizam-se anualmente na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica Portuguesa de Braga e procuram envolver o meio académico.

Dados de 2025
Já no caso da Cáritas, contrariar o aumento do número de agressores é também uma prioridade. Para esse propósito, há uma aposta em ações contra a violência no namoro, bem como no desenvolvimento da autoestima e estabilidade emocional de crianças em idade pré-escolar. "Se tenho uma boa autorregulação das minhas emoções, a probabilidade de me tornar vítima ou agressor diminui", partilha Raquel Gomes.
"Iva" afirma com convicção que a única solução para o problema da violência doméstica é "prender os ofensores". São várias as liberdades que, embora simples, são cortadas a quem se torna vítima de violência doméstica. Não poder andar na rua sem olhar em volta, com medo que o agressor a seguisse, é uma memória constante. "Um colega de trabalho teve de começar a ir buscar-me a casa", recorda "Iva", acrescentando que o ex-namorado possuía a chave suplente do seu carro, tendo chegado a desligar a bateria ou a mudá-lo de lugar de estacionamento.
De acordo com a coordenadora da Cáritas de Braga, "o acolhimento é necessário para evitar situações drásticas que possam ocorrer se a vítima permanecer próxima do agressor". Desde 2022, a Casa de Acolhimento de Emergência (CAE) recebeu cerca de mil pessoas. A associação vai abrir um novo espaço em que se realizará, segundo Raquel Gomes, "um trabalho de recuperação dos impactos da violência". Terá 12 quartos destinados a 25 pessoas e um pátio exterior onde mães e filhos possam usufruir de tranquilidade.
No primeiro semestre de 2025, o CAE acolheu 122 pessoas, incluindo 62 menores. O número de crianças ser praticamente igual ao de mulheres é um problema nacional. "Este grande fluxo de crianças em acolhimento mostra que estão expostas a níveis de violência adversos", revela Raquel Gomes. Os brinquedos presentes na sala de espera do GAV de Braga refletem o atendimento dado a crianças também nesse estabelecimento.
Quanto aos sinais a que as vítimas devem estar atentas, a APAV destaca a violação dos direitos por parte do agressor. A Cáritas foca-se no momento em que percebem que estão a viver algum tipo de violência: física, verbal, psicológica, sexual ou económica. "A maior parte das vítimas documenta todos eles", comenta Raquel Gomes. Por fim, "Iva" aconselha que "estejam atentas mal haja algo que desconfiem, nem que seja um tom de voz". Depois do tribunal ter ignorado o seu caso, "Iva" recomenda contactar a PSP, fazer exames médicos e ir ao psicólogo, para desde logo conseguir obter o maior número de provas possível.
Se também é vítima, contacte a APAV (116 006), a Cáritas (218 454 220), a CIG (800 202 148) ou 112.
Sobre os autores
Joana Boaventura, 20 anos, frequenta o 2º ano da licenciatura em Ciências da Comunicação, na Universidade do Minho. Inicialmente cativada pela área de publicidade, acabou por interessar-se mais por multimédia. No entanto, continua a apreciar as outras formas de comunicação pois acredita que para ser uma boa comunicadora deve-se ter uma vasta base de conhecimento.
Joana Caetano Gomes tem 21 anos e é aluna do 2.º ano da licenciatura em Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. Desde pequena que gosta de aprender mais sobre o mundo e de escrever sobre ele, tendo escolhido seguir a área de Jornalismo. Publicou dois livros durante o secundário e é agora editora da secção de Cultura do jornal universitário.

