
Acidentes provocados por animais estão a aumentar nas estradas portuguesas
Sara Matos / Global Imagens
Menos circulação fez com que espécies deixassem campos e fossem para as vias. Maioria dos sinistros é nas estradas nacionais e arruamentos, mas também em autoestradas.
Os acidentes provocados por animais estão a aumentar nas estradas portuguesas. Nos últimos dois anos e até maio de 2021, houve 5304 sinistros com origem no aparecimento de animais nas vias, resultando em 240 feridos e num morto no ano passado. A maioria envolve animais domésticos (3474), mas também aumentaram os javalis nas estradas.
Os dados da Guarda Nacional Republicana (GNR), enviados ao JN, mostram que, em 2019, houve 1762 acidentes com 120 feridos, aumentando para 2551 em 2020 com 92 feridos, o que representa uma subida de 44,8% no número de sinistros. Até maio deste ano, já foram registados 991 acidentes na área da GNR com 28 feridos ligeiros.
Este aumento da sinistralidade provocada por animais pode estar relacionado com a quebra de circulação que resultou dos vários períodos de confinamento decretados pelo Governo.
Segundo a GNR, no "ano de 2020, existiu uma diminuição significativa de circulação automóvel, encontrando-se as vias mais disponíveis à ocupação por animais". A verdade é que a diminuição da circulação automóvel e de pessoas fez com que muitos animais deixassem os campos e fossem para zonas mais urbanas, tendo-se verificado várias situações de animais dentro das cidades.
Deixou de ser ameaça
13958863
António Mira, docente da Universidade de Évora e coordenador do projeto Life Lines - Rede de Infraestruturas Lineares com Soluções Ecológicas, admite que "alguns animais selvagens, como os javalis, deixaram de perceber a estrada como uma ameaça, porque não havia tráfego durante o confinamento, tendo sido apanhados desprevenidos quando passou a haver".
Quanto aos domésticos - e em particular os cães -, António Mira admite, ainda sem dados que o possam comprovar, que tenha existido "maior abandono".
"As pessoas estavam em casa, não podiam vir com os animais à rua e, para além disso, houve graves problemas económicos que existem neste tipo de crises". No caso dos gatos, o docente admite que possam ter tido a perceção de que "as estradas não eram um perigo, tal como aconteceu com os javalis".
O projeto Life Lines existe desde 2015 e pretende "reduzir a mortalidade da fauna nas estradas "desde o animal mais pequenino até ao maior, como o javali. Tudo morre na estrada. Tentamos que eles atravessem a estrada por baixo da rede, em locais seguros, com vedações de encaminhamento para os locais onde eles podem passar", diz o professor. A criação destas barreiras também é uma forma de "isolar estas populações".
"É o primeiro passo para evitar que corram o risco de extinção", diz, adiantando que há vídeos de "sete a oito javalis a utilizarem estas passagens". Os dados da GNR mostram que são, sobretudo, os animais domésticos a provocar acidentes nas estradas e, no ano passado, a maioria foi em estradas nacionais (876) e arruamentos (567), mas também em autoestradas (511).
A maior parte foi provocada por cães (num total de 1428), seguidos dos javalis (os segundos animais a provocar mais acidentes, num total de 560). Seguem-se as raposas com 91 acidentes.
Quanto aos distritos de Portugal continental, os cinco mais afetados são Viseu, Braga, Porto, Aveiro e Faro, num total de 937 acidentes em 2020.
