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Biólogo sueco extraiu genoma do Neandertal e foi distinguido com o Nobel

Biólogo sueco extraiu genoma do Neandertal e foi distinguido com o Nobel

O biólogo sueco especializado em genética da evolução conseguiu realizar algo aparentemente impossível: sequenciar o genoma do Neandertal, um parente dos humanos atuais extinto há 30 mil anos. Esse feito valeu-lhe o prémio Nobel da Medicina. O anúncio foi feito esta segunda-feira pelo secretário-geral do Comité Nobel, Thomas Perlmann, em Estocolmo, na Suécia.

Aos 67 anos, Svante Pääbo foi distinguido pelas suas "descobertas sobre genomas de hominídeos extintos e a evolução humana". Curiosamente, o seu pai, o bioquímico Sune Karl Bergström, ganhou o mesmo prémio há 40 anos, em 1982. O diretor e membro científico, desde 1997, do Instituto Max Planck para a Antropologia Evolutiva em Leipzig, na Alemanha, arrecada o prémio de 10 milhões de coroas suecas (925 mil euros), que lhe será atribuído pelo rei Carl XVI Gustaf numa cerimónia formal em Estocolmo a 10 de dezembro.

Tânia Minhós, professora de Antropologia e investigadora no Centro de Rede de Investigação em Antropologia da NOVA FCSH - conhecedora da carreira científica do vencedor -, considera que Svante Pääbo é "um fundador do campo da genética do ADN antigo", responsável pelo desenvolvimento das primeiras técnicas que permitiram analisar o ADN de fósseis com vários milhares de anos, essenciais para o estudo da evolução humana.

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Inicialmente, Svante Pääbo formou-se em medicina. Acabou por especializar-se em genética da evolução, focando a sua investigação no ADN antigo do Neandertal. Ao analisar os genes do hominídeo que coexistiu com o Homo Sapiens em grande parte da Eurásia, o especialista sueco descobriu a existência de cruzamentos entre ambos na região do Médio Oriente, entre há 50 mil e 80 mil anos, devido às migrações das espécies, como pode ler-se no comunicado da Academia sueca.

Avaliando as diferenças e as semelhanças entre ambas as espécies, o especialista "tem feito descobertas muito relevantes em termos de resolver a discussão existente se os humanos Sapiens seriam da mesma espécie dos Neandertais. As diferenças genéticas que mostrou existirem entre os dois hominídeos são suficientes para que sejam considerados diferentes", explicou Tânia Minhós.

Através da tecnologia existente e dos seus próprios métodos de extração e de análise do ADN antigo, Svante Pääbo descobriu que ocorreu uma transferência de genes dos extintos Neandertais para o Homo Sapiens, um fluxo antigo que tem um impacto fisiológico nos humanos de hoje, ao afetar, por exemplo, a forma como o nosso sistema imunológico reage a infeções. Segundo a Academia sueca, o cientista conseguiu revelar "diferenças genéticas que distinguem todos os seres humanos vivos de hominídeos extintos", descobertas que fornecem as bases para explorar o que torna os humanos tão únicos".


Evolução ao nível da genética

Para Tânia Minhós, o trabalho do biólogo sueco "não é uma visão única, mas é indiscutivelmente revolucionária para a área da evolução humana", explicando que o seu contributo tem ajudado "a repensar muitas das ideias que estavam mais ou menos estabelecidas sobre como as espécies humanas eram muito fixas e divergentes, não havendo esse cruzamento."

As descobertas de Svante Pääbo mostram que, "quando as espécies são geograficamente próximas umas das outras, entrecruzam-se e a mesma coisa aconteceu com a nossa evolução - é muito mais uma mistura do que propriamente uma evolução de linhagens muito separadas e distintas", apontou.

Em 2010, Svante Pääbo foi mais longe ao descobrir uma espécie até então desconhecida: o hominídeo de Denisova. "A partir de uma falange, sequenciou um genoma que vai identificar como uma outra espécie de hominídeo contemporânea dos Neandertais e dos Homo Sapiens. Descobre uma nova espécie de hominídeo, extraindo o ADN de um fóssil e não a partir de um fóssil em si. Até à altura, a área geológica apenas analisava as características dos fósseis e os diferentes componentes do esqueleto, mas também a dentição", explicou Tânia Minhós.

Recorde-se que, em 2021, o Prémio Nobel da Medicina foi atribuído aos cientistas David Julius e Ardem Patapoutian "pelas suas descobertas de recetores para a temperatura e o tato". A escolha do Nobel de Medicina é proposta pelo Instituto Karolisnka, um centro de investigação sueco de medicina de prestígio mundial.

O anúncio da categoria de Medicina marcou, como é tradição, o arranque de mais uma temporada Nobel. Na temporada de 2022, segue-se, esta semana, a atribuição dos restantes prémios: na terça-feira é a vez do Nobel da Física, seguindo-se o Nobel da Química na quarta-feira e o Nobel da Literatura na quinta-feira. Os vencedores vão receber os prémios numa cerimónia em Estocolmo, em dezembro, à exceção do Nobel da Paz, habitualmente atribuído pelo Comité Nobel Norueguês, em Oslo, com data marcada na próxima sexta-feira, 7 de outubro. Já na próxima semana, a 10 de outubro, segue-se o Nobel de Ciências Económicas.

Os prémios Nobel nasceram da vontade do cientista e industrial sueco Alfred Nobel (1833-1896) em legar grande parte da sua fortuna a pessoas que trabalhem por "um mundo melhor". O prestígio internacional dos prémios Nobel deve-se, em grande parte, às quantias atribuídas, que, atualmente, chegam aos dez milhões de coroas suecas (mais de 953 mil euros).

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