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Camionistas e emigrantes no Reino Unido com Natal estragado

Camionistas e emigrantes no Reino Unido com Natal estragado

No Reino Unido a situação é caótica para quem quer regressar a Portugal. Voos cancelados, testes caros e resultados que não chegam a tempo dos embarques.

As dúvidas multiplicam-se, as incertezas adensam-se e a confusão entre os emigrantes portugueses no Reino Unido - país de onde os viajantes devem sair com teste negativo à covid-19 nas 72 horas anteriores ao embarque - é de tal ordem que há até quem tenha desistido de viajar para Portugal, abdicando de passar as festas com a família. Como João Rodrigues e a mulher. Ou quem tenha visto o voo ser cancelado em cima da hora e vá celebrar a quadra longe de casa e só, como Beatriz Pereira. Ou como Ricardo Pereira, que ficou bloqueado no Canal da Mancha e vai passar o Natal na cabine do camião.

"Há alguma desinformação, e era bom que houvesse orientações e recomendações sobre o que as pessoas devem fazer", critica Nelson Calvinho, que chegou a Lisboa no domingo e descreve um cenário "caótico". "Ainda pensei em não vir cá passar o Natal, mas tinha de renovar o passaporte, porque não há consulado em Londres", conta o diretor de marketing da Nintendo no Reino Unido, para onde planeia regressar no dia 30, antes do Brexit. Isto se o voo não for, entretanto, cancelado.

Informações contraditórias

Apesar das restrições decretadas pelo governo britânico terem dado a João Rodrigues, que trabalha numa loja de desporto, a oportunidade para viajar com a mulher até Aveiro pelo Natal, o plano de embarcar depressa cairia por terra devido à "confusão"."Algumas notícias diziam que o governo português autorizava que o teste fosse feito em Portugal, mas no Reino Unido estavam seguranças à porta do terminal [do aeroporto] que não deixavam entrar sem o teste na mão. E não sabíamos qual era, sabíamos é que tinha de ser pago por nós. 600 libras [cerca de 670 euros] da viagem mais 100 [aproximadamente 112 euros] por cada teste", explicou.

"No centro de exames do aeroporto era possível fazer o teste mediante o bilhete de avião, mas 90% dos resultados não chegavam a tempo da partida. Ou seja, não conseguíamos embarcar na mesma. E houve voos que foram cancelados. Eram informações contraditórias. E, com tantas perguntas sem respostas claras, decidimos ficar por cá", conforma-se João, que incluiu na equação o constrangimento de ter de voltar a Londres "antes da passagem de ano" de maneira a cumprir "os 10 dias de quarentena obrigatória para poder regressar ao trabalho".

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"Há imensas pessoas que iam passar o Natal a casa e que não vão arriscar", relata Beatriz Pereira, uma vimaranense que trabalha em marketing digital e vive há meio ano no centro de Londres. Devia ter aterrado anteontem no Porto, se a viagem não tivesse sido cancelada. "Ia surpreender a minha família", lamenta-se resignada com o "Natal diferente" que vai ter, sozinha.

"Mesmo que o voo não fosse cancelado, não conseguiria viajar por causa do teste, porque o resultado não chegava a tempo", aponta, referindo-se ao exame realizado no aeroporto. "A Ryanair diz que se pode viajar sem o teste, mas a TAP diz que não", relatou, acrescentando que "há várias farmácias que o fazem, com preços entre 99 e 150 libras [entre os 110 e os 170 euros], mas não há vagas em lado nenhum".

Retido desde segunda-feira perto do porto de Dover, Ricardo Pereira só reiniciou o trajeto para atravessar o Canal da Mancha, rumo a França, na manhã de ontem, após ter realizado sozinho, dentro do camião, o teste à covid-19 e ter obtido resultado negativo. "A polícia militar entregou-me um papel a dizer que estou apto para seguir caminho", disse ao JN, cerca das 11 horas, o camionista das Caxinas, em Vila do Conde. "Fui eu que registei o teste e o resultado na página do governo britânico e, como percebo um pouco de Inglês, ajudei outros colegas. É muito complicado se não tivermos apoio", confessou.

como um campo de refugiados

"Agora, falta pouco", convencia-se Ricardo, ciente, que já não chegaria a casa a tempo da ceia de Natal. "A correr bem, e se descarregar na zona do Porto, chego a Vila do Conde no sábado", estimou.

O motorista sublinha que, apesar dos "milhares" de camionistas retidos em Dover, na tarde de anteontem os técnicos de saúde "fizeram a distribuição dos testes e foram-se embora por volta das 16 horas. Só voltaram hoje [ontem], às 9.30 horas". A confusão era grande: "Parecia um campo de refugiados", comparou o motorista, que fala num cenário de "caos" e critica as "falhas de comunicação" entre as entidades responsáveis.

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