Investigação

Comissão para o estudo dos abusos na Igreja apresenta plano de ação

Comissão para o estudo dos abusos na Igreja apresenta plano de ação

Equipa do pedopsiquiatra Pedro Strecht revela, esta segunda-feira, a metodologia de trabalho a seguir. O relatório deverá ficar concluído até ao final do ano

A Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais na Igreja Católica em Portugal apresenta, esta segunda-feira, as linhas de ação do trabalho que irá desenvolver. A expectativa é que a equipa, liderada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht, possa, até ao final do ano, produzir um relatório sobre a situação.

Para já, na conferência de imprensa marcada para o final da tarde de segunda-feira, serão explicadas as metodologias a seguir, bem como revelados os meios colocados à disposição das vítimas para façam as suas denúncias.

A criação da comissão foi aprovada, em novembro, pela Conferência Episcopal Portuguesa numa assembleia plenária dominada pela questão dos abusos perpetrados por membros da Igreja. Na ocasião, D. José Ornelas, líder da estrutura, deixou a garantia de que a Igreja "tudo" faria para apurar a verdade e assegurou que a comissão gozaria de "total" independência.

"Assusta-me mais não saber do que a realidade que vai surgir. E que surja o mais realisticamente possível e o mais certa possível", reiterou o também bispo de Setúbal, aquando da apresentação pública da comissão, da qual fazem parte Laborinho Lúcio, ex-ministro da Justiça, o psiquiatra Daniel Sampaio, Filipa Tavares, assistente social e terapeuta familiar, e a cineasta Catarina Vasconcelos.

A decisão do episcopado português surge quase três anos depois de uma cimeira global convocada pelo Papa Francisco para debater o tema com bispos de todo o mundo. Foi, aliás, no seguimento do apelo do Santo Padre para o apuramento da verdade, que a Igreja francesa avançou com uma investigação, cujos resultados foram divulgados em outubro, gerando uma onda de choque.

O relatório da comissão independente criada em França aponta para mais de 216 mil menores abusados sexualmente por membros do clero. O número de vítimas ultrapassa as 330 mil, quando considerados "agressores leigos que trabalham em instituições da Igreja Católica".

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Nos últimos anos, houve outras investigações do género em países como Alemanha, Bélgica, EUA, Austrália e Irlanda. Seguindo modelos diferenciados, os resultados foram semelhantes: milhares de vítimas e poucas condenações.

França

O relatório da comissão independente, divulgado em outubro último, aponta para 216 mil menores abusados sexualmente por membros do clero entre 1950 e 2020. Incluindo leigos, o número ascende a 330 mil vítimas. As dioceses vão vender bens ou recorrer a empréstimo para indemnizar as vítimas. Em 2019, cardeal e arcebispo de Lyon foi condenado a seis meses de prisão com pena suspensa por não denunciar acusações de pedofilia contra um padre da sua diocese.

Austrália

Criada em 2012 por iniciativa governamental, a comissão australiana apurou que, entre 1950 e 2015, foram cometidos crimes contra cerca de 4400 menores por parte de 1800 membros da Igreja. O cardeal George Pell foi condenado a seis anos de prisão por abuso de dois rapazes. Cumpriu 405 dias de cadeia, até ao Supremo Tribunal anular a sentença. O ex-arcebispo de Adelaide, Philip Wilson, cumpriu 12 meses de prisão domiciliária, por ter encoberto os crimes sexuais cometidos por um padre.

Alemanha

A investigação pedida pela Conferência Episcopal a três universidades revelou que 3677 menores foram abusados por parte de 1670 membros do clero. Na diocese de Colónia, o inquérito conduzido por um escritório de advogados, a pedido da Igreja, confirmou a existência de 314 vítimas e 202 abusadores. Outras dioceses iniciaram investigações.

Áustria

Após uma série de revelações, no início de 2010, de casos de abusos sexuais e maus tratos por sacerdotes, entre as décadas de 1960 e 1980, foi criada pela igreja uma comissão de inquérito. Foram identificados cerca de 800 casos e 8 milhões de euros concedidos às vítimas.

Bélgica

Uma primeira investigação, em 2010, apurou a existência de 507 vítimas de abusos do clero e que, destas, 13 se suicidaram. Foram depois criados, por iniciativa do Parlamento e da Igreja, centros de denúncia que, até 2020, receberam perto de 1200 queixas. Destas, 937 foram consideradas suficientemente graves para garantir o direito a uma indemnização.

EUA

A Igreja americana recebeu, entre 1950 e 2013, denúncias de cerca de 17 mil vítimas, acusando 6400 membros do clero por crimes cometidos entre 1950 e 1980. Só em Boston, um relatório da Universidade de Justiça Criminal John Jay, de Nova Iorque, concluiu que, entre 1950 e 2002, um total de 10 667 pessoas acusaram 4392 clérigos de abusos sexuais de menores. Destes, só 252 foram condenados e 100 acabaram presos. Mais recentemente, um relatório do Grande Júri da Pensilvânia, publicado em 2018, revelou abusos sexuais praticados por mais de 300 "padres predadores", vitimizando, pelo menos, mil crianças.

Irlanda

No ano 2000, acusações de abusos sexuais cometidos durante décadas colocam em xeque a credibilidade das instituições católicas. Mais de 14 500 crianças teriam sido vítimas. Vários bispos e padres, acusados de esconder esses atos, foram punidos. Segundo dados da organização Bishop Accountability, citados recentemente pelo "El País", dos clérigos irlandeses acusados só 82 foram condenados pela Justiça.

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