Pandemia

Da claustrofobia aos conflitos de casais: 64 psicanalistas dão apoio psicológico gratuito

Da claustrofobia aos conflitos de casais: 64 psicanalistas dão apoio psicológico gratuito

O medo da morte e do isolamento são duas das preocupações partilhadas na nova linha telefónica

"Medo da claustrofobia, do isolamento e da morte, conflitos entre casais e pais sobrecarregados com teletrabalho, lides domésticas e filhos" são algumas das preocupações que já chegaram à nova linha telefónica de apoio psicológico da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.

A rede gratuita (300 051 920), criada há poucos dias, tem 64 psicanalistas (psicólogos, pedopsiquiatras e psiquiatras) disponíveis para ajudarem as pessoas a lidarem com o novo coronavírus. Está aberta das 8:00 às 00.00 horas, todos os dias da semana e fins de semana.

A rede "Vira(l)Solidariedade" tem várias opções de atendimento, sendo a chamada encaminhada para psiquiatras ou pedopsiquiatras, conforme se trate de um adulto, adolescente ou criança a ligar. Qualquer pessoa pode telefonar o número de vezes que quiser e o apoio é anónimo e confidencial.

"Não podemos dar o nosso contacto e nenhum paciente fica a saber o nosso nome. O objetivo não é fazer um acompanhamento psicoterapêutico, mas prestar um apoio pontual a quem procura ajuda nesta situação de crise, ajudando, com meios e estratégias, a lidarem com o problema", esclarece Luísa Branco Vicente, presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.

Com esta rede de apoio, pretende-se ainda ajudar as pessoas a desmistificarem boatos ou desinformação que tem surgido nesta crise pandémica. "Na própria angústia, as pessoas vão criando situações que não têm a ver com a realidade e é importante ajudá-las a desmontar isso e a protegerem-se. Estamos a ouvir e a criar um espaço de encontro acolhedor e potenciador de um maior bem-estar psíquico", resume a também pedopsiquiatra.

A ideia de criar a linha de apoio surgiu há duas semanas quando, no final de uma consulta, uma criança lhe disse que "mais do que uma epidemia do vírus isto é uma epidemia do afeto". "Tenho notado esta dificuldade e preocupação que as crianças têm de não se poderem beijar e tocar, e fiquei a pensar nisso. Têm-me transmitido também o medo da morte", conta. "Um miúdo com dez anos, noutra consulta, viu que um adolescente de 14 anos morreu com Covid-19 e disse-me que não queria morrer", exemplifica ainda.

Preocupada também com os pais destas crianças, que "estão a ter muitas dificuldades em falar com os filhos sobre este tema", lançou o desafio aos sócios da Sociedade de Psicanálise para a criação da linha de apoio. "Em 48 horas 64 psicanalistas disponibilizaram-se para participarem nesta rede, voluntariamente, e criamos a linha com uma operadora de telecomunicações", explica.

A pandemia que vivemos é uma situação nova e "foi muito repentina e violenta, mudando muita coisa nas nossas vidas", explica. Muitos pais têm, por isso, sentido dificuldade em "transmitirem o que se passa com tranquilidade aos filhos". "Estão sobrecarregados, a trabalhar em casa e atarefados com as lides domésticas, sem apoio dos avós e das escolas, e ainda preocupados com os pais deles. Ficam com pouca disponibilidade para os filhos, que é fundamental para que esta vivência em isolamento social não se torne algo traumático", alerta.

O "medo da morte ou de ser contaminado, a claustrofobia e o isolamento" são algumas das preocupações partilhadas. "Começam também a surgir conflitos entre casais, que já não estavam bem e agora, com este confinar do espaço, estão a ter mais dificuldades", conta. A linha tem recebido ainda chamadas de idosos e de técnicos de saúde. "Antes eram eles que protegiam as crianças e agora são elas que os protegem, porque podem ser transmissoras. Estão a sofrer uma situação muito violenta", repara.

Ainda não há uma contabilização do número de chamadas recebidas até agora, mas Luísa Branco Vicente avança que têm recebido algumas com "mais de uma hora". "Há pessoas que precisam de falar muito, que querem que encontremos resoluções para os problemas, e os telefonemas prolongam-se. Mas nós não resolvemos os problemas, tentamos só diminuir a angústia e a inquietação", salienta.

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