Portugal ao Espelho

Despovoamento: De Norte a Sul já há regiões além do ponto de não retorno

Despovoamento: De Norte a Sul já há regiões além do ponto de não retorno

Perdem os mais pequenos e os maiores. Ganham as cidades intermédias e os subúrbios dos subúrbios. Há no país concelhos onde se fazem quilómetros sem ver vivalma, como Alcoutim. Noutros, amontoam-se dormitórios, como Alcochete. Entre 2001 e 2017, três quartos dos municípios perderam densidade populacional. Do Alto Tâmega ao Algarve, alerta a demógrafa Maria Filomena Mendes, já há locais além do ponto de não retorno.

Com o rarear da população, desaparecem serviços públicos, iniciativa privada, redes de vizinhança. Ficam os mais velhos e saem os mais jovens, que levam consigo as crianças, as já nascidas e as que ainda virão a nascer. A tendência sustentada de redução da população faz desaparecer as "âncoras de sustentabilidade" que asseguram uma dinâmica mínima ao território e, a prazo, dita o "desaparecimento completo da população", diz Maria Filomena Mendes.

Alcoutim e a extinção

Entre o virar do milénio e 2017, mais de metade dos concelhos viram a densidade populacional recuar cinco pontos percentuais ou mais, enquanto uma pequena minoria aumentou, na mesma medida. Sabe-se que o país está cada vez mais deslocado para o litoral, mas a real extensão do despovoamento fica patente em locais como Alcoutim.

No virar do milénio, tinha a menor densidade populacional. Em 2017, não só continuava a ser o local com a população mais rarefeita, como foi o que mais perdeu. Com 575 quilómetros quadrados, Alcoutim é o 39.º mais extenso município do país. É maior do que Porto, Gaia, Gondomar, Maia, Valongo e Matosinhos juntos. Mas se estes concelhos têm dois mil habitantes por quilómetro quadrado, Alcoutim tem pouco mais de quatro.

"Os números são verdadeiros, mas não nos podemos resignar à extinção", diz o presidente da Câmara. Osvaldo Gonçalves espera que os 50 e 60 empregos a criar por uma central fotovoltaica em construção leve Alcoutim a "entrar num processo de reversão", mas não chega. "O Governo tem que tomar medidas reais de apoio aos vários interiores do país" e a prioridade, diz, deve ser "distribuir o Estado pelo território, não centralizar".

Anéis em torno da cidade

Amadora e Odivelas são as mais densas. Porto e Lisboa vêm a seguir, mas estão a ceder terreno, com os mais jovens incapazes de pagar habitação e desejosos de melhor qualidade de vida, diz Maria Filomena Mendes. E vão para subúrbios cada vez mais afastados do emprego.

Na capital, para concelhos como Alcochete, Mafra ou Arruda dos Vinhos, mais afastados de Lisboa do que os tradicionais subúrbios.

Em torno do Porto, os números subiram sobretudo na Maia e em Valongo, mas também em Paços de Ferreira, Lousada, Gaia, Famalicão e Paredes.

Nem só o interior perde

Além de Porto e Lisboa, também Portalegre, Coimbra, Guarda, Santarém, Évora, Castelo Branco, Beja, Bragança e Vila Real têm o território mais rarefeito de gente. O mesmo acontece em Viana do Castelo, apesar de estar no litoral, e no Funchal.

Cidades médias mais dinâmicas

A crescer estão Braga e Aveiro, cujas universidades atraem novos moradores, fixados por um tecido empresarial forte, bem como Leiria, Faro e Viseu. Nos Açores, Ponta Delgada está a ganhar terreno.

O que é a densidade populacional?

Relaciona o número de habitantes com o território. É muito diferente ter 20 mil residentes num concelho com oito quilómetros quadrados, como São João da Madeira, ou com 659 quilómetros quadrados, como Mirandela.

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