Covid-19

Doentes estão a atrasar idas aos hospitais. Médicos preocupados

Doentes estão a atrasar idas aos hospitais. Médicos preocupados

O número de pessoas a procurar os serviços de urgência diminuiu drasticamente no mês de março: menos 36,5% em relação a fevereiro, o que estará relacionado com o medo de contrair Covid-19.

Os médicos estão preocupados pelo que isso pode significar no agravamento da condição de saúde destes doentes: desvalorizam sintomas e, quando recorrem ao hospital, por doença aguda, vão em estado mais grave, como acontece nos casos de acidentes vasculares cerebrais (AVC). Por outro lado, o adiamento de consultas e cirurgias programadas nos hospitais e centros de saúde, bem como a remarcação de exames, leva a que outras patologias, como as do foro oncológico, sejam detetadas mais tarde.

Vítor Tedim Cruz, da Direção da Sociedade Portuguesa do AVC (SPAVC), sublinhou que esta "é das principais doenças agudas em Portugal e aquela que causa mais danos por mortalidade, por défices e sequelas". Em março, adiantou ao JN, os médicos perceberam que "com todas as mudanças que estavam a acontecer nos hospitais, os doentes e familiares ficaram com medo de ativar o 112".

Na última quinzena, adiantou, após a declaração do estado de emergência, "foi notório um menor número de vindas ao hospital, e acabavam por aparecer só os AVC muito graves. Os outros ficavam por casa. Alguns transformavam-se em graves, outros ainda podem estar a aguardar. Vamos ver", antecipou o neurologista do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos.

"Se não tivermos o cuidado de manter as vias verdes e os itinerários dos doentes com AVC isquémico e doenças cardiovasculares, no fim da epidemia podemos vir a perceber que morreram mais pessoas do que deviam", alertou.

Risco de minimizar os sintomas

Os doentes oncológicos são outra das preocupações dos especialistas, principalmente no que respeita ao diagnóstico de novos casos. O acesso aos exames, por um lado, "está mais dificultado porque os agendamentos estão mais espaçados e, no caso dos que exigem sedação, como as endoscopias, os doentes têm que ser testados antes". Por outro lado, "os doentes, com medo de recorrer aos serviços de saúde, também minimizam os sintomas ou estão a adiar a sua ida [ao médico]", disse Ana Raimundo, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia.

Os dados apontam para "50 mil novos diagnósticos por ano, em Portugal, e este atraso pode conduzir a médio prazo a um diagnóstico em estádios mais avançados da doença", sublinha. Sobre os doentes em tratamento, a oncologista adianta que o risco tem de ser muito bem avaliado e a decisão tomada "caso a caso".

"Tentamos fazer com que o doente venha o menor número de vezes ao hospital, dando consultas por telefone ou videochamada, adiando outras de seguimento e alguns exames". Isto porque os tratamentos oncológicos diminuem a imunidade e os doentes correm o risco de terem infeções mais graves e "até morrer".

Sem dados de adiamentos

Questionada sobre o adiamento de cirurgias, designadamente do foro oncológico, a ministra da Saúde, Marta Temido, assegurou, na conferência de Imprensa de ontem, que as consideradas "prioritárias e muito prioritárias" continuam a ter resposta no SNS.

"Sabemos que os nossos institutos de oncologia fazem alguma atividade que não se reveste dessa característica e, como tal, essa situação tem que ser considerada caso a caso", admitiu, não desmentido que há operações na área oncológica a serem adiadas. O JN questionou a tutela sobre o número de cirurgias e consultas adiadas, mas não obteve resposta.

Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, explicou que "a prioridade normal está a ser reagendada", mas os casos graves continuam a ser tratados. "O hospital e o médico assistente faz a avaliação de cada caso, no sentido de que todos os adiamentos que possam ter um impacto não reversível na saúde o doente tenha que ser operado".