Condições de trabalho

Dois dias de greve nos call centers

Dois dias de greve nos call centers

Quem ligar para os call centers de telecomunicadoras ou bancos ou fizer uma encomenda na Amazon ou na Wish poderá sentir dificuldades. Está marcada uma greve dos trabalhadores de empresas de outsourcing, esta quinta e sexta-feira.

Estes trabalhadores são contratados por empresas de outsourcing e, depois, colocados em empresas utilizadoras, como operadoras de telecomunicações, bancos e seguradoras, hospitais ou até a Segurança Social.

O setor emprega mais cem mil pessoas, mas a profissão de operador de call center não existe (o Catálogo Nacional de Profissões é omisso) e não é regulada por instrumento coletivo de trabalho, que defina uma tabela salarial, progressão na carreira ou horários, salientou ao JN Sónia Sousa, do Sindicato dos Trabalhadores das Telecomunicações e Audiovisual, que convocou a paralisação.

Não existe uma convenção coletiva de trabalho e, da parte das empresas, ninguém está mandatado para falar com os sindicatos. Ana Gonçalves, secretária-geral da Associação Portuguesa de Contact Centers, disse ao JN que lidera "uma associação empresarial e não patronal" e terão que ser as associadas a dar-lhe instruções para que negoceie com os trabalhadores - o que não aconteceu.

Posições irreconciliáveis

"A atual situação do setor não justifica uma greve", entende Ana Gonçalves. Os salários base brutos médios, diz, estão a subir: passaram de 769 euros em 2017 para 796 euros em 2018. E a remuneração variável (como prémios de qualidade, assiduidade e produtividade) vai de 9% a 26% desse valor.

Sónia Sousa nega e assegura que a norma é o salário base ser igual ao mínimo nacional e que as componentes variáveis são atribuídas mediante objetivos "quase sempre inatingíveis". Além disso, afirma não haver progressões na carreira. "Trabalhei 15 anos na Manpower e ganhava tanto quanto alguém que tivesse acabado de entrar", exemplificou.

Quanto às condições de trabalho, o sindicato fala de cadeiras estragadas ou não reguláveis, má limpeza e ventilação ou auriculares danificados. Uma realidade negada por Ana Gonçalves, que fala de instalações modulares e ergonomicamente ajustadas. Em todo o caso, nas "situações pontuais que possam existir", "as pessoas deviam procurar outros sítios onde trabalhar, com condições melhores", afirma.

As posições de associação e sindicato sobre tempos de trabalho são também irreconciliáveis. Ana Gonçalves diz haver "respeito pelos horários e pausas" e Sónia Sousa assegura que qualquer "pequeno atraso", como uma ida à casa de banho, justifica descontos mas, quando há mais trabalho, as pausas "passam ao estado de pausas suspensas". Em consequência, diz, são correntes queixas de "depressão, esgotamento e stress laboral e o síndrome de burnout".

O sindicato quer também que estes trabalhadores sejam contratos pelas empresas utilizadoras, em nome das quais interagem com o público.

Em novembro, esta greve passará a ser intermitente, ao final da manhã, meio da tarde e início da noite.