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Dois terços dos portugueses não confiam nos tribunais e nos juízes

Dois terços dos portugueses não confiam nos tribunais e nos juízes

Sondagem da Aximage para o JN, DN e TSF revela descrença generalizada no regime. Políticos não são devidamente fiscalizados (83%) e Justiça não tem capacidade para investigar se são corruptos (62%).

Nem os políticos estão a ser devidamente fiscalizados (83%), nem a Justiça tem a capacidade de investigar os casos de corrupção na política (62%). Os resultados de uma sondagem da Aximage para o JN, DN e TSF revelam um clima de descrença generalizada. Não pode ser pior? Talvez possa. Os "tribunais e juízes" são a instituição em que os portugueses menos confiam. Uma avaliação em que o Ministério Público e a Procuradoria-Geral da República também são bastante maltratados.

Foi no passado dia 12 de abril que Rui Rio recorreu ao que parecia ser um tremendismo retórico. Poucos dias depois do despacho do juiz Ivo Rosa relativo à Operação Marquês - que fez cair, por causa das prescrições e da falta de provas, a maior parte das acusações sobre personagens como José Sócrates e Ricardo Salgado -, o líder do PSD denunciava uma Justiça que "o povo não entende" e que constitui "o pior exemplo da doença do regime".

A julgar pelos resultados do barómetro de abril da Aximage, o líder social-democrata está em sintonia com a grande maioria dos portugueses. Mas não ficou sozinho nesse palco por muito tempo. Na sessão comemorativa do 25 de Abril da Assembleia da República, o combate à corrupção, a criminalização do enriquecimento ilícito, a impunidade dos poderosos e, finalmente, a descrença na Justiça, dominaram os discursos, da Direita à Esquerda. A exceção foi o PS, que ontem mesmo aprovou, em Conselho de Ministros, a Estratégia Nacional contra a Corrupção.

Opinião negativa

O trabalho de campo desta sondagem terminou precisamente a 25 de abril e não reflete, portanto, o destaque que os partidos da Oposição entenderam dar ao tema nas comemorações da revolução. Os portugueses já tinham formado uma opinião negativa e, mesmo que a sondagem não tenha perguntas sobre o caso em concreto, parece ser clara a contaminação que a Operação Marquês trouxe à avaliação, seja da Justiça, seja da eficácia com que combate a corrupção.

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No caso da fiscalização aos políticos e detentores de altos cargos públicos, a descrença é geral: quatro quintos dos portugueses acham que não está a fazer-se, com destaque para os inquiridos entre 50 e 64 anos e os que têm rendimentos mais elevados (nove em cada dez); e para os eleitores bloquistas e liberais (fazem praticamente o pleno).

Quando o que está em causa é a capacidade de a Justiça investigar a corrupção entre os políticos e os altos cargos públicos, dois terços dizem que ela não existe. Os mais pessimistas são os homens (mais nove pontos percentuais do que as mulheres); a faixa etária dos 35 aos 49 anos e os que estão no topo das classes sociais (sete em cada dez); e os eleitores da nova Direita liberal e radical (oito em dez).

Confiança em baixa

A sondagem também procurou avaliar o grau de confiança dos cidadãos numa série de instituições que têm algum papel na legislação, fiscalização, denúncia, investigação ou julgamento de casos de corrupção. O cenário não é animador para a maioria (ver texto à parte). Mas é particularmente penoso para "tribunais e juízes", a instituição em quem os portugueses menos confiam: 62% fazem uma avaliação negativa (com destaque para quatro quintos dos inquiridos com 65 ou mais anos), contra apenas 15% que admitem que a confiança é grande ou muito grande.

O saldo é negativo para os tribunais, tal como para as outras duas instituições testadas no inquérito. A confiança no Ministério Público é pequena ou muito pequena entre 42% da população (31% faz uma avaliação positiva), enquanto a Procuradoria-Geral da República recebe nota negativa de 35% dos inquiridos (27% faz uma avaliação positiva).

Nestes dois últimos casos, a análise por segmentos indica que há algumas exceções: entre os mais novos (18 a 34 anos) e os mais pobres, são em maior número os que confiam no MP e na PGR. Quando o ângulo incide sobre as escolhas partidárias, a Procuradoria merece igualmente o benefício da dúvida entre os eleitores do PS e do PSD. Mais à Esquerda (BE e CDU), a confiança é menor. Onde a desconfiança é mais forte é à Direita (Chega e Iniciativa Liberal), tanto nos procuradores como nos juízes.

Os partidos

Os partidos têm uma função instrumental na democracia. Mas isso não os livra da desconfiança. Quando se pergunta aos portugueses se confiam neles para liderar os destinos do país, 45% dão uma resposta negativa (apenas 21% manifestam uma confiança grande ou muito grande). O saldo só é positivo entre os mais pobres e entre os eleitores socialistas e comunistas.

A Comunicação Social

Há quem defina o jornalismo como um contrapoder. Mas também quem olhe para a Comunicação Social como o quarto poder. Talvez seja esta última classificação que justifica a desconfiança dos cidadãos: 43% dão nota negativa (27% mantêm a confiança). Há, no entanto, dois segmentos da amostra em que é maior a confiança do que a desconfiança: entre os mais pobres e entre os que vivem na Região Norte.

A Assembleia da República

A casa dos partidos está mais bem cotada que os partidos que a compõem, mas o saldo não deixa de ser negativo: 39% dizem que a sua confiança no Parlamento para legislar para o bem comum é pequena ou muito pequena, enquanto 34% dizem ser grande ou muito grande. O saldo só é positivo entre os mais jovens, os habitantes da Área Metropolitana do Porto, os mais pobres e os que votam no PS e na CDU.

O Governo

Não há apenas más notícias para as instituições políticas. O Governo, que emana da vontade dos partidos com assento na Assembleia da República, consegue um saldo positivo: são mais os que confiam (42%) do que os que desconfiam (30%). Uma boa notícia para António Costa. Nesta matéria, a posição no espetro político faz a diferença: à Esquerda há mais confiança (com destaque para os eleitores socialistas), enquanto à Direita o saldo é negativo (com destaque para a Direita radical e liberal).

A Presidência da República

A pergunta não era sobre Marcelo Rebelo de Sousa, antes sobre a instituição, mas o contágio entre a personalidade e o cargo é inevitável. A Presidência da República é, de longe, a instituição que gera maior confiança entre os portugueses: 65% acreditam que é o garante da nossa Constituição, apenas 12% manifestam a sua descrença. É assim em todos os segmentos da amostra, com destaque para os cidadãos mais velhos e os eleitores socialistas, comunistas e sociais-democratas.

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