Hans Zollner

"É impossível garantir que não haverá mais abusos sexuais"

"É impossível garantir que não haverá mais abusos sexuais"

O presidente do Centro de Proteção de Crianças da Universidade Gregoriana e membro da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores esteve em Portugal para partilhar experiências e para se inteirar de como estão a ser aplicadas as indicações do Papa sobre este tema.

Hans Zollner, jesuíta, teólogo e psicólogo, defende que se fale de sexualidade com as crianças para as alertar para os abusos, que se escutem as vítimas e que se acabe com o abuso de autoridade por parte de alguns membros da Igreja Católica.

Acredita que as novas indicações e regras dadas pelo Papa Francisco vão, de facto, acabar com o abuso sexual de crianças no seio da Igreja católica?
As medidas que estão a ser implementada pelas várias dioceses, congregações religiosas e instituições da Igreja Católica têm como objetivo tornar as instituições da Igreja num lugar seguro para os menores e pessoas vulneráveis e fazer todos os possíveis para que não aconteçam mais abusos. Não se pode garantir que nunca mais acontecerão situações de abuso, mas não há dúvida de que as medidas que estão a ser implementadas estão já a produzir resultados muito evidentes. O Papa é muito realista e conhece a Igreja como ninguém. Escutar ativamente as vítimas, avançar para a Justiça, criar comissões para a proteção de menores em todas as dioceses e tomar medidas imediatas como o afastamento dos abusadores dos cargos que ocupam, são formas de tratar os casos existentes e evitar novos casos. No entanto, é necessário ir mais longe, algo que leve a mudanças na atitude e na postura, que fortaleça a sensibilidade para com as vítimas de abusos sexuais e os seus próximos. Mas é impossível garantir que não haverá mais abusos sexuais.

A Igreja assume isso?
Somos humanos, não somos perfeitos, somos falíveis. Ninguém pode garantir que os abusos vão acabar nem na Igreja, nem na família, nem nas escolas ou organizações desportivas. O abuso de uma criança por um adulto representa a destruição da confiança depositada numa figura de autoridade. É este o caso quando o abusador é um professor, um treinador, o pai ou um familiar. No caso de a figura de autoridade ser um padre ou um religioso ou religiosa, as consequências são ainda mais graves, porque estas figuras de certa forma representam Deus, além de que o abuso sexual está em flagrante contradição com o que a Igreja ensina sobre a sexualidade humana.

Podemos falar em abuso de poder?
Sim, os abusos sexuais estão frequentemente ligados a abusos de poder. O Papa também tem insistido na necessidade de acabar com o clericalismo porque o fenómeno dos abusos tem diversas facetas, e não se limita ao campo da sexualidade, mas pode estender-se também ao âmbito espiritual. O Papa Francisco tem dito repetidamente que "abuso sexual, abuso de consciência e abuso de poder" estão associados. Portanto, um problema central dos abusos sexuais é o abuso de poder. Durante um certo tempo, em algumas regiões, o papel do sacerdote foi de tal modo exaltado que não era possível avaliar criticamente um padre.

É preciso falar mais, informar mais, educar melhor?
Sobretudo, é necessário que se fale abertamente sobre a sexualidade. Ainda há um certo tabu sobre o assunto, mas é preciso falar na Igreja, na escola, nas famílias. Se as crianças souberem o que é a sexualidade, saberão melhor o que são abusos e falarão sobre isso. Não é fácil, mas é preciso falar sobre sexualidade com as crianças.

Sobre a situação em Portugal, que informações tem?
Estive dois dias a participar em reuniões, workshops e encontros com sacerdotes e leigos e pude verificar que as medidas que estão a ser implementadas pela Igreja em Portugal estão de acordo com o que ficou definido no encontro com os presidentes das conferências episcopais sobre a proteção de menores. Os dados que temos dizem respeito aos abusos sexuais em todo o Mundo e em todas as áreas da sociedade: por cada denuncia que é feita, há cinco que ficam por fazer. Mas, repito, Portugal, não é, de nenhuma forma, um caso que mereça destaque.

Falou com muitas vítimas em todo o Mundo. Qual é a principal queixa?
Querem ser escutadas, querem que acreditemos no que dizem e, sobretudo, querem que alguém lhes diga que a culpa não é delas, que são vítimas e que não foram responsáveis pelo abuso que sofreram. Os especialistas defendem que, em média, uma criança abusada sexualmente demora cerca de 20 anos até conseguir falar sobre o assunto. São anos e anos de sofrimento. O que as vítimas esperam é que nós, como Igreja Católica, façamos tudo aquilo que está ao nosso alcance para impedir os abusos. Esperam mudanças na atitude e na postura, que fortaleça a sensibilidade para com as vítimas de abusos sexuais e que haja prontidão no apoio.

O que é que os padres e os bispos devem transmitir às vítimas?
Que levamos a sério as suas preocupações e angústias. Temos de encorajá-las a abrirem-se e a falarem dos seus medos. E, muito concretamente, temos de informá-las acerca das estruturas de apoio que têm à sua disposição e que lhes podem prestar uma ajuda profissional. Temos de mostrar às vítimas, com a adoção de medidas decisivas, que agimos contra os agressores. Temos de demonstrar que estamos dispostos a fazer luz sobre todos os casos que possam existir, ainda que distantes no tempo.

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