Rede sociais

Elas são brasileiras e "não se calam" mais perante a discriminação e o assédio

Elas são brasileiras e "não se calam" mais perante a discriminação e o assédio

O projeto começou como uma página de Instagram, com relatos de episódios de assédio e discriminação contra a mulher brasileira em Portugal, mas rapidamente ganhou novos contornos. "Brasileiras Não se Calam" quer dar voz a milhares de mulheres, cuja nacionalidade ainda é um rótulo e uma arma de arremesso.

É algo ao qual não podemos fugir: o conceito de "mulher brasileira" acarreta uma série de pensamentos e ideias pré-concebidas em Portugal. É assim desde que a imigração de brasileiros se tornou uma constante e se intensificou em território português a partir de finais dos anos 90 e início dos anos 2000. Eis um exemplo: "Moro há 17 anos em Portugal e até hoje ouço piadas diariamente. Nada mudou. Quando eu tinha 11 anos fui chamada de p*** pela primeira vez por um colega de escola. 11 anos. Hoje estou com 27 e ainda ouço comentários do tipo". A história é contada na página de Instagram "Brasileiras Não se Calam", um projeto que surgiu há menos de um mês para denunciar situações de discriminação e assédio contra mulheres brasileiras.

O projeto espoletou com um "reality show". Parece estranho, mas não é. Na edição de 2020 do Big Brother Portugal falou-se de muita coisa: homofobia, feminismo, "body shaming" (crítica ao próprio corpo ou de outra pessoa) e xenofobia. Quando a frase "brasileira já tem a perna aberta" foi dita por uma concorrente do programa, um grupo de cinco mulheres considerou que era o fim da linha para vários anos de discriminação. "Fez-nos perceber que o preconceito contra as mulheres brasileiras está instalado em Portugal de forma tão natural, que algumas pessoas se sentem à vontade para fazer esse tipo de comentário num programa de televisão", diz uma das coordenadoras do projeto ao JN, sob anonimato. O episódio foi um de muitos que fez estalar o verniz nas redes sociais, inclusive no Brasil, já que na mesma edição participava uma concorrente brasileira. Após receber uma crítica de outra colega, Ana Catharina, nascida do Rio de Janeiro, respondeu: "As pernas são minhas e eu abro onde, na hora, para quem eu quiser, porque eu sou dona das minhas próprias pernas".

O projeto "Brasileiras Não se Calam" ganhou vida nas redes sociais em finais de julho. O projeto supera os 20 mil seguidores e reúne mais de 100 publicações sobre casos de assédio e discriminação em todo o mundo contra a mulher brasileira. A maioria das histórias aconteceram em Portugal. "A grande maioria dos relatos que temos recebido, e também os mais violentos, chegando até à agressão física, infelizmente têm acontecido em Portugal", diz uma das responsáveis.

As denúncias, escritas em português e inglês, chegam ao projeto através da caixa de mensagens da conta de Instagram e são publicados de forma anónima, por se temerem represálias. Os casos acontecem a mulheres brasileiras de todas as idades e em locais tão diferentes como uma escola ou um escritório de advogados, segundo a coordenadora do grupo ouvida pelo JN. "Em alguns relatos, crianças brasileiras com 12 anos são chamadas de «p***» na própria escola e escutam dos próprios profissionais que lá trabalham, quando se vão queixar dos assédios, que a culpa é delas por serem brasileiras e usarem calças de ganga para irem à escola".

Mas o que explica afinal o tratamento discriminatório? Muitos estudos académicos exploram o tema e quase todos chegam a conclusões semelhantes. Uma delas é a "hipersexualização das brasileiras em Portugal", explica ao JN, Mariana Selister Gomes, professora de Sociologia Brasileira e de Estudos de Género na Universidade Federal de Santa Maria, no estado do Rio Grande do Sul, no Brasil. Parte dessas ideias pré-concebidas pode ter começado em plena época colonial, quando o Brasil era ainda um território português. "Os imaginários (...) que dividiram as mulheres entre «Marias» (mulheres brancas, que deveriam ser esposas, virgens e mães) e «Evas» (mulheres negras e indígenas cujos corpos eram considerados disponíveis sexualmente)", esclarece a socióloga.

Mais tarde foi a vez do governo brasileiro entrar em jogo ao promover o país como destino de turismo sexual, nas décadas de 1960 a 1980, que procurou "atrair o turista europeu ao transformar este imaginário em produto, ampliando-o para todas as brasileiras, construídas como uma 'raça mestiça' disponível sexualmente", acrescenta Mariana Selister Gomes. A esta estratégica acrescentam-se "os discursos em torno da brasileira imigrante" que a associam à prostituição.

Em 2019, foi o próprio Jair Bolsonaro a dizer: "Quem quiser vir ao Brasil fazer sexo com uma mulher, fique à vontade". "Um absurdo completo depois de tantos anos de luta contra esse tipo de propaganda turística que transformou a mulher brasileira num produto", diz Mariana Selister Gomes. O presidente do Brasil foi acusado recentemente pela Ministério Público do Brasil de preconceito e discriminação contra mulheres.

Para as coordenadoras das "Brasileiras Não se Calam", a História não pode ser utilizada como "forma de justificação para os assédios que acontecem". "Estamos em 2020, aproximadamente 520 anos depois da colonização do Brasil, e infelizmente as mulheres brasileiras continuam a ser vistas como as mulheres más que seduzem os homens portugueses e as culpadas por acabarem com os seus casamentos", afirma uma das responsáveis pelo projeto.

Muitos dos brasileiros que vivem em Portugal - quase 151 mil pessoas, de acordo com dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) - procuraram melhores condições de vida em território luso, esperançados de que a mesma língua poderia abrir portas. Porém, nem os longos anos de migração entre os dois países são suficientes para dissipar as diferenças. Mariana Selister Gomes tirou o doutoramento no ISCTE, em Lisboa, do qual saiu a tese "O imaginário social 'Mulher Brasileira' em Portugal: uma análise da construção de saberes, das relações de poder e dos modos de subjetivação", e enfrentou também alguns desafios em Portugal. "Quando entrava em contacto com agentes imobiliários para perguntar sobre um imóvel que havia selecionado pela Internet, logo após ouvir o meu sotaque, todos já tinham sido ocupados", recorda. Quando se sentou numa agência imobiliária, a socióloga viu na pasta de uma das funcionárias as observações do senhorio: "não aceito brasileiras".

Para responder a algumas destas dificuldades, o "Brasileiras Não se Calam" evoluiu da rede social Instagram para iniciativas na vida real com várias voluntárias a prestar apoio jurídico, psicológico, aconselhamento académico e financeiro às imigrantes brasileiras. O site do projeto vai abranger a divulgação de ofertas de emprego: muitas mulheres não têm conseguido arranjar trabalho e apontam a discriminação como uma das razões. O futuro passa por levar a luta além-fronteiras com a criação de parcerias com iniciativas semelhantes no estrangeiro. Para que mais ninguém tenha de ouvir novamente: "Você não deveria usar roupa tão colada. Você é brasileira, só reforça o estereótipo".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG