Peregrinação

Daniel, o menino ucraniano que encontrou 105 euros e foi a Fátima oferecê-los à Virgem

Daniel, o menino ucraniano que encontrou 105 euros e foi a Fátima oferecê-los à Virgem

Foram cerca de 170 mil os peregrinos que, esta sexta-feira de manhã, participaram nas cerimónias do 13 de maio. Entre os fiéis estavam Sergiy e Natalyia, dois ucranianos que rezam, com o filho, pelo fim do "inferno" da guerra. Daniel chegou com uma missão especial: a de oferecer à Virgem os 105 euros que encontrou no chão em dezembro, quando foi com a família ver o filme "Fátima".

Com o filho Daniel pela mão, Sergiy Zayika atravessa o recinto de oração, empunhando a bandeira da sua 'querida' Ucrânia. Por momentos, acompanham, de fora, o cortejo de estandartes que segue no topo da procissão com a imagem de Nossa Senhora, saída da Capelinha das Aparições, em direção ao altar.

Aproximam-se, timidamente, do cortejo e são, de imediato, incorporados na frente do grupo, entre dois porta-estandarte com a bandeira de Portugal. No final das cerimónias, com a emoção estampada no rosto, Sergiy, engenheiro mecânico a viver no nosso país desde 2000, conta que há oito anos que vem, uma vez por ano, a pé a Fátima, "sempre" acompanhado da bandeira ucraniana.

A primeira viagem aconteceu em 2014, também num contexto de conflito no seu país, com a crise da Crimeira. Mas, este 13 de maio teve um significado "especial" para a Sergiy Zayika e para Natalyia Shuneyko, a esposa, ambos com familiares na Ucrânia, que "estão a passar um inferno".

Natalya conta que a mãe tem "problemas de saúde" e encontra-se "muito frágil", ao ponto de "não aguentar" a viagem até Portugal. Engenheira civil, de momento desempregada, revela que, depois dos bombardeamentos à cidade de Kryvyi Rih, mãe se refugiou numa aldeia, onde está em "relativa" segurança, por "não haver alvos estratégicos nas proximidades". Os pais de Sergiy continuam também na Ucrânia. "O meu pai não quer sair da sua terra e a minha mãe não o deixa sozinho."

A missão especial de Daniel

Ainda hoje, o casal falará com os familiares ao telefone, como fazem todos os dias, e, seguramente, Fátima entrará na conversa. Querem falar-lhes da "paz" e da "tranquilidade" que encontraram, "mais uma vez", na Cova da Iria e do "conforto" que sentiram, pelas manifestações de apoio ao povo ucraniano, através de "palavras e gestos".

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"Viemos com muita esperança que a guerra acabe. Esperamos que um milagre aconteça e que a paz volte à Ucrânia", desabafa Sergiy. Ao lado, o filho, com dez anos, olha-o com orgulho, ele que também veio a Fátima com uma "missão especial". Tímido, deixa que seja a mãe a revelá-la. Em dezembro, quando foi com a família ver o filme "Fátima", realizado por Marco Pontecorvo, encontrou, caídos no chão, 105 euros, que veio agora oferecer a Nossa Senhora.

A conversa com Sergyi e Natalyia acontece num momento em que o recinto está já a esvaziar, no final de uma peregrinação que marcou o regresso das multidões à Cova da Iria. Num Santuário repleto de fiéis, rezou-se pelo fim da guerra. Foi, aliás, essa a intenção que Rita Soares colocou nesta peregrinação, a sua 33.ª caminhada até Fátima, em 77 anos de vida. "Fiz metade de carro e metade a pé. As pernas e o coração já não aguentam", esclarece 'Ritinha', como gosta de ser tratada, empunhando um cajado que a acompanha há anos, desta vez, decorado com flores brancas e fitas amarelas e azuis, à semelhança de outros elementos do grupo vindo de Gondomar. "Simboliza que estamos em Fátima com a Ucrânia no coração."

Dar prioridade ao diálogo e à negociação

Os apelos à paz estiveram também presentes na homilia da missa da peregrinação, proferida pelo arcebispo D. Edgar Peña Parra, diplomata do Vaticano, e na mensagem final do bispo de Leiria-Fátima.

Na homilia, o representante da Santa Sé sublinhou a importância de "escutar as razões do outro e dar a prioridade ao diálogo e à negociação", que considerou "os únicos caminhos para uma paz estável e duradoura".

Edgar Peña Parra exortou ainda aos fiéis para que, nestes tempos "conturbados" que o mundo atravessa, se entreguem a Deus, pois "abraçados ao Senhor, nada há que temer". "Mesmo nestes tempos difíceis, marcados pelo flagelo da guerra e pelo vírus da pandemia, alegrai-vos: não no mundo, mas no Senhor, porque Ele é fiel às suas promessas", afirmou o arcebispo, acrescentando que na "obra de renovação da Igreja e do mundo, Fátima ocupa um lugar de destaque".

"Estar aqui em Fátima, a 13 de maio, significa sobretudo responder a um chamamento à oração, a depositar no Imaculado Coração o nosso mundo ferido e dilacerado pela falta de paz", acrescetnou o arcebispo, que presidiu à primeira peregrinação aniversária do ano.

Por seu lado, D. José Ornelas, recentemente empossado como bispo de Leiria Fátima, na saudação final aos peregrinos, expressou também o desejo que a mensagem de paz que Nossa Senhora "veio trazer em Fátima seja acolhida no coração dos que alimentam esta guerra, a fim de que pare a barbárie e se possa construir o mundo novo, com justiça, solidariedade e paz".

"Que a presença materna de Maria, modelo da Igreja que cuida dos mais pequenos e frágeis, resplandeça neste momento difícil", que se consubstancia ainda numa "pandemia que condiciona toda a humanidade e uma guerra que atinge com trágica e destrutiva ferocidade a Ucrânia", disse o bispo.

A terminar a peregrinação, D. José Ornelas procedeu à bênção de uma imagem de Nossa Senhora destinada à catedral de Lviv, na Ucrânia, oferecida pelo Santuário de Fátima, um momento muito aplaudido pelos peregrinos.

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