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Bicicletas tentam ganhar poder nas cidades

Bicicletas tentam ganhar poder nas cidades

Em geografias como a França ou o Reino Unido, o desconfinamento gradual trouxe uma novidade para as ruas. O medo de utilizar transportes públicos levou as pessoas a optarem pelas duas rodas nas deslocações urbanas. Por cá, o caminho faz-se lentamente.

A nova normalidade dos dias, que se vai fazendo um pouco por toda a Europa com o levantamento gradual das medidas de confinamento tomadas para travar a pandemia de covid-19, revelou a novidade que pode alterar o panorama geral dos principais centros urbanos. Os transportes públicos deixaram de ser foco de confiança total, por receio de transmissão da doença, e os cidadãos procuram alternativas mais seguras. A bicicleta é a principal delas, o que se tem verificado com mais incidência em geografias como a França e o Reino Unido. Em Portugal, pelo menos para já, o panorama demora a alterar-se.

"Infelizmente, as políticas de incentivo público ao uso regular da bicicleta nas deslocações diárias são praticamente nulas. As ciclovias ainda são insuficientes e mesmo aqueles que ponderam alterar os seus hábitos acabam por não se sentir suficientemente seguros na estrada e abandonam a ideia", considera João Brandão, da MUBi - Associação para a Mobilidade Urbana em Bicicleta. "O receio é que, ao invés dos transportes públicos, as pessoas passem a utilizar mais o automóvel", teme.

Apesar do pessimismo, a MUBi não desiste de tentar alterar mentalidades e de transpor para a realidade portuguesa hábitos que noutros países vão ganhando cada vez mais força. A associação lançou um apelo público à CP para que revogasse a suspensão dos transporte de bicicletas. Na sequência deste pedido, e de uma petição online no mesmo sentido, a CP voltou atrás e decidiu que o transporte voltasse a ser possível desde esta segunda-feira, data em que entrou em vigor a segunda fase do processo de desconfinamento, com a abertura de estabelecimentos de restauração escolas secundárias, entre outros espaços.

"Numa fase de desconfinamento em que por todo o Mundo as entidades competentes lutam pelo aumento do uso dos modos ativos de deslocação, em que a bicicleta tem um papel preponderante, não é aceitável que o principal agente de transporte ferroviário de passageiros em Portugal, em contraciclo com as suas congéneres europeias, se negue a permitir o uso da bicicleta", entende a MUBi.

"A bicicleta, com os transportes públicos, é, para muitas pessoas que agora retomam as suas deslocações pendulares, uma das melhores alternativas ao uso do automóvel individual. Contribui para o descongestionamento das cidades, para a redução da poluição do ar, fator associado a taxas mais elevadas de mortalidade por covid-19, e para a resiliência dos sistemas de transporte", lembra.

Desde o início da pandemia que a MUBi se tem multiplicado em pedidos às mais altas instâncias para que se facilite a opção pelo uso regular da bicicleta. Em 26 de março, foi enviado ao Governo um apelo no sentido de "apoiar e encorajar" os modos ativos de deslocação, enquanto a covid-19 continuar a condicionar o quotidiano. Na missiva, foi reforçado que esta opção "traz enormes benefícios sociais e de saúde pública" porque, "além de segura", o uso da bicicleta tem um "papel importante na manutenção da resiliência dos sistemas de transporte". E também sublinhada a contribuição para "o bem-estar físico e mental da população, fundamentais numa altura de stress e ansiedade".

Vera Diogo, também da MUBi, entende que são "necessárias medidas públicas que possibilitem incentivar o uso recorrente da bicicleta" nos principais meios urbanos. Outra das ações que poderiam levar ao aumento do conceito seria "alargar o uso de bicicletas partilhadas". Curiosamente, em março, a Câmara do Porto tinha previsto arrancar com um projeto do género, que abrangia 2100 bicicletas e trotinetas elétricas. No entanto, com o surgimento da Covid-19, a ideia acabou por ser suspensa até que estejam reunidas as condições de segurança sanitária para a sua concretização.

Se em Portugal a pandemia não trouxe alterações à utilização de veículos de duas rodas amigos do ambiente, países houve onde a aposta passou, exatamente, por insistentes apelos dos governos a esta possibilidade, como forma de evitar o uso massivo dos transportes públicos, ainda potenciais focos de contaminação e de impedir o regresso em força ao automóvel.

Em Itália, um dos pontos mundiais em que´o novo coronavírus provocou mais vítimas mortais (31 mil), os cidadãos recebem um subsídio do Estado se alterarem os hábitos de sempre. Esta semana foi anunciado pelo Governo que cada italiano poderá ser ressarcido até 60% do valor total despendido na compra de uma bicicleta, num valor máximo de 500 euros. A medida entrou imediatamente em execução, estará em vigor até ao final do ano e destina-se a cidades com mais de 50 mil habitantes. Além das bicicletas, estão abrangidas as aquisições de trotinetas elétricas e de segways.

Noutros pontos do globo, foi decretado o alargamento imediato de ciclovias e criados pontos temporários destinados em exclusivo à circulação de bicicletas, tal como se verificou em Nova Iorque (Estados Unidos), Toronto e Vancouver (Canadá), em Bogotá (Colômbia) e na Cidade do México (México). Um pedido no mesmo sentido foi deixado em carta aberta ao Governo do Reino Unido, elaborada por mais de uma centena de especialistas em saúde pública e mobilidade. Na missiva, os subscritores expressaram que as infraestruturas de emergência "proporcionam maior segurança a quem se desloca a pé e em bicicleta para o local de trabalho".

Em Portugal, este ano, antes ainda dos efeitos da pandemia, o Governo anunciou um estímulo de 350 euros para os que se decidirem pela compra de bicicletas elétricas e de 100 euros para as convencionais

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