Reportagem

A falta que faz uma pista de gelo nas cidades

A falta que faz uma pista de gelo nas cidades

Portugal tem uma seleção nacional de hóquei no gelo e uma equipa, a "Luso Lynx", que, à falta de competição no país, participa na Liga de Andaluzia. Jogadores, treinadores e outros responsáveis sonham com uma pista de gelo olímpica na Grande Lisboa, a qual, dizem, "vai atrair muitas equipas estrangeiras" e trazer receitas.

Portugal é um país ameno, com muito sol e praias de sonho junto às cidades. Nada, porém, que seja incompatível com pistas de gelo. Jim Aldred, canadiano de 54 anos, é o treinador das equipas de hóquei no gelo nacionais e explica porque não há incompatibilidade. "Vejam a Califórnia, a Florida, ou mesmo os vossos vizinhos espanhóis. Todos têm climas idênticos e praticam modalidades no gelo. Aliás, se há coisas que os praticantes gostam é de treinarem e a seguir irem à praia", observa.

Jim Aldred e a mulher, Cristina Lopes, luso-canadiana, chegaram há dois anos a Portugal. Ele foi jogador na "Top Junior League" e no nosso país implantou o projeto de desenvolvimento do hóquei no gelo. O resultado pode ser surpreendente para muitos. "Há imensa gente a procurar-nos, a perguntar se podem juntar-se à equipa. Portugueses nascidos cá e filhos de emigrantes que viveram em países onde se praticava a modalidade", explica Cristina, sublinhando que, desde a criação de uma página no Facebook, em apenas quatro meses, contam já com 2500 seguidores.

A verdade é que os jogadores não têm uma pista de gelo para treinar. Durante o período de Natal ainda aproveitaram o recinto criado num centro comercial na zona de Lisboa, mas, no resto do ano, o recurso é o pavilhão do Hóquei Clube de Sintra, onde treinam duas vezes por semana, mas, obviamente, não no gelo.

O sonho de ter um pavilhão com pista de gelo é o que anima mais de quatro dezenas de praticantes. "Falta-nos essencialmente um patrocinador, porque já falámos com algumas câmaras, que deixaram em aberto a possibilidade de nos cederem um terreno e temos o projeto pronto a avançar", adianta ao JN Cristina Lopes.

A escolha de Lisboa é por uma questão estratégia, mas os responsáveis da equipa acreditam que, vencendo a primeira batalha, outras cidades do país como o Porto ou uma das algarvias poderão replicar o projeto, aproveitando desde logo a grande capacidade de atração turística. E, além de desenvolverem a modalidade, abrindo-a a mais praticantes, acreditam que as cidades poderão beneficiar com estas pistas para desportos de inverno.

"Já viu o que é as equipas russas, que são imensas, poderem vir estagiar em Portugal? Com o clima que há aqui, toda a gente quer vir para Portugal, que é um país que todos gostam", diz Maxim Andreyev, nascido no Cazaquistão mas a viver há anos em Lisboa. "A modalidade tem muitos adeptos, que virão para as cidades portuguesas deixar cá dinheiro", acrescenta o sempre bem disposto guarda-redes.

Aqui pode ver a equipa portuguesa em ação.

O treinador concorda e dá o exemplo dos outros países de clima ameno, onde há pavilhões para desportos de inverno. "Os jogadores podem vir cá fazer os seus jogos amigáveis, treinarem e nas horas vagas irem passear nas cidades ou à praia. São opções que todos gostam", assegura Jim Aldreed.

Cristina Lopes estima que o projeto da construção de um pavilhão, incluindo a estrutura, com balneários, bancada, restaurante, escritório e receção, ronde os dois milhões de euros. Mas sublinha que é um investimento recuperável. "Não é só o hóquei. Há a patinagem, o curling, as corridas e até a possibilidade de organizar grandes espetáculos como o Disney no gelo", sublinha. Acrescenta que é também possível uma cobertura para a pista, de forma a que, pontualmente, se possam organizar torneios de outras modalidades, como basquetebol, ou hóquei em patins.

Eliseu Pinto de Almeida, arquiteto de profissão, é campeão de corridas de bicicletas desdobráveis em veteranos, mas diz que jogar ao mais alto nível hóquei "é agora para estes jovens cheios de valor". Mas apresenta uma ideia para a construção de uma pista de gelo de forma que garanta a sustentabilidade.

"O projeto deve ser, desde logo, assente em painéis solares para fornecimento de energia. Depois, é combinar o frio com o quente. A maquinaria pode ser a mesma e é só uma questão de fazer a otimização das trocas de energia entre a pista e a piscina", explica.

Guilherme Morais, biólogo marinho, é dos entusiastas da seleção. Apesar de em Portugal ser o hóquei em patins que ganha títulos internacionais, diz que essa modalidade nunca o entusiasmou. "Comecei com os patins em linha, depois apareceu esta equipa e é mesmo disto que eu gosto", conta ao JN.

Tal como os colegas, o jovem defende a construção da pista de gelo, acreditando que é uma mais-valia para qualquer cidade e para melhorar resultados. "Estamos a jogar numa liga amadora, de seis equipas, e estamos em terceiro, sendo que eles treinam no gelo e nós não. Por isso, considero que são bons resultados, imagine se tivéssemos a nossa arena", sustenta,

Cristina Lopes assegura que o projeto está à disposição de quem o queira consultar e que falta apenas o patrocinador/investidor. "Assim, como temos de jogar no estrangeiro, o dinheiro fica todo lá fora. Em vez de ganharmos, somos nós que damos a ganhar aos outros", conclui a luso-canadiana.

ver mais vídeos