Reportagem

"Bullying" imobiliário esvazia bairros de Lisboa

"Bullying" imobiliário esvazia bairros de Lisboa

Arrancam corrimões de escadas, caixas de correio, mandam cortar a luz e ameaçam chamar a polícia. Os moradores no Centro Histórico de Lisboa dizem que, para os novos senhorios, "vale tudo" para os desalojar e abrir caminho ao Alojamento Local. Alguns dizem que "só mortos" deixam a casa.

Moram na mesma casa há décadas, alguns até nasceram lá, mas, de repente, são confrontados com cartas que dão conta da venda dos edifícios e anunciam a não renovação dos contratos de arrendamento. É assim que, sobretudo nos últimos dois anos, se aponta o caminho da rua a milhares de residentes nos bairros históricos de Lisboa. Os que tentam resistir dizem que são confrontados com pressões "rocambolescas", que incluem cortes de eletricidade, ameaças de presença policial ou mesmo danos causados em escadas e habitações para forçar a necessidade de obras profundas. Para já, vale-lhes a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que, além de denunciar estes casos, tem prestado apoio jurídico gratuito.

"Não sei o que vou fazer à minha vida... Eu nunca pedi nada a ninguém, mas não tenho para onde ir", desabafa, sem conter as lágrimas, Elisa Vicente, de 76 anos, residente no Beco do Arco Escuro, ao Campo das Cebolas. Ao lado, o marido, João Silva, de 82 anos, acamado há cinco, após sofrer um AVC, está totalmente alheado da conversa, devido ao seu débil estado de saúde. O casal vive com um filho de 60 anos, também reformado, por ter 85% de invalidez. A mulher conta que terão de sair até junho do próximo ano, mas que, na casa ao lado, já despejada, as obras não a deixam descansar e criam-lhe rachas nas paredes e no chão."Ainda nem fizeram a escritura de venda do prédio e já começaram as obras, ainda por cima com estas ferramentas que não podem ser usadas em espaços destes", conta ao JN, acrescentando que já se queixou à Polícia Municipal. "Disseram-me que registaram a queixa e que esperasse", revela.

A casa de Luís Sousa, no Beco do Jasmim, na Mouraria é simultaneamente um verdadeiro museu benfiquista. "A da família, esta é a minha grande paixão", explica, movendo-se entre símbolos do clube da Luz, que vão desde a vitória na Taça Latina em 1950 até ao recente "tetra". Aos 57 anos, em vias de ser despejado, este é também um desgosto que carrega. "Fico sem casa e sem ter onde guardar estas relíquias?", interroga-se, com um encolher de ombros desanimado.

"Não tenho para onde ir, mas viver para debaixo da ponte só vou arrastado", garante Luís Sousa. Ao JN, conta que a nova senhoria vive no Gabão e que recebeu a primeira carta em maio do ano passado e a segunda em janeiro deste ano. Em ambas não havia margem de negociação. "A advogada telefonou-me e disse-me que se eu não saísse, mandava cá a polícia", revela.

É esta ameaça da presença policial que leva alguma população, sobretudo os mais idosos e menos informados, a ceder à pressão e deixar as respetivas casas.

"Isto é um bullying imobiliário, há situações inacreditáveis", considera um morador, que solicitou o anonimato, com receio de represálias. "Num prédio da Rua dos Fanqueiros, onde uma senhora de 92 anos vive num 4.º andar, arrancaram os corrimões da escada, os interruptores da luz e retiraram as caixas do correio. Assim, os moradores nem sequer puderam responder às cartas do senhorio, sendo que a ausência de resposta, significa que, automaticamente, aceitam a rescisão do contrato", observa.

Mais jovem e mais informada, Carla da Cunha, que, em novembro, foi forçada a abandonar a sua casa do Pátio do Carrasco, em Alfama, contestou a ordem de despejo em tribunal. "O senhorio cortou-me a água e a eletricidade. Consegui que a EPAL me restabelecesse a água, mas a EDP não fez o mesmo e tive de sair", revela.

Aos 38 anos, com duas filhas menores, de 9 e 17 anos, a solução foi recorrer a uma habitação de emergência em Marvila, disponibilizada pela Proteção Civil. "Mas esta não será para sempre", diz. Já a chave da casa de onde foi despejada, garante que só entrega em tribunal, quando o seu recurso for apreciado.

Nas ruas junto ao castelo de São Jorge, o frenesim de turistas é constante. Mas não são só os visitantes estrangeiros que andam por ali a tirar fotografias. "Andam aí uns senhores a fotografar as casas e a fazer perguntas", conta Luísa Araújo, 43 anos, moradora na Rua do Espírito Santo, que em março recebeu uma carta onde lhe eram dados três meses para deixar a casa onde habita com o marido e as três filhas, de 22, 15 e 4 anos.

A mulher, que vive ao lado da mãe, espera que lhe seja atribuída uma casa pela Câmara, para poder continuar a viver no bairro. Assume não ter possibilidades financeiras para os "preços exorbitantes" que se pedem pelas rendas hoje em dia e conta o receio generalizado que se sente na população. "Há potenciais compradores que batem à porta das pessoas, fazendo-se passar por funcionários da Câmara, para poderem entrar e ficarem com a real noção do que valem os imóveis por dentro", destaca.

Estes receios são confirmados pelo simples percorrer das ruas dos bairros. Pelas conversas e pelo contraste entre as casas envelhecidas, ainda com habitantes, e os renovados edifícios, reconvertidos em "casas pitorescas que os turistas adoram", refere Carla da Cunha.

Em comum, todos acreditam que se não houver mudanças na legislação, os bairros históricos de Lisboa serão, dentro de pouco tempo, espaços dominados pelo Airbnb. Mas, como no poema de Manuel Alegre, "Trova do vento que passa", há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não. É o caso de Felicidade Silva. "Tenho 79 anos, vivi sempre na mesma casa em Alfama e foi preciso vir uma menina de 20 e tal anos a quem os pais ofereceram um prédio para me querer pôr fora de casa. Mas eu não saio. Só saio da minha casa morta", referiu numa sessão pública recente, perante dezenas de testemunhas que aplaudiram a sua determinação.

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