Cidades mais inteligentes e menos seguras

Cidades mais inteligentes e menos seguras

Tudo está ligado em rede e há criminosos atentos a estes fenómenos. Infraestruturas básicas como a eletricidade, a água e os transportes são, por isso, alvos apetecíveis. Autoridades têm dificuldade em acompanhar estes movimentos tecnológicos e a legislação aplicável normalmente é lenta.

Hospitais que não respondem às emergências médicas, cidades mergulhadas na confusão de trânsito devido ao bloqueio dos semáforos ou serviços de transporte público parados. Qualquer uma destas situações mais parece saída de um filme que deixaria a mais evoluída das cidades à beira de um ataque de nervos. Mas a verdade é que são riscos reais e podem acontecer a qualquer momento em todas as grandes metrópoles. Em Portugal e no Mundo, os aglomerados urbanos mais inteligentes fazem aumentar os riscos de exposição a múltiplos perigos.

A dependência dos centros das cidades face aos serviços de Internet torna as cidades mais vulneráveis a ciberataques que acontecem sem rosto e são difíceis de controlar. A legislação existente nem sempre ajuda e tarda a acompanhar o ritmo elevado do desenvolvimento tecnológico.

"Há dois principais riscos. O primeiro prende-se com a possibilidade das redes serem hackeadas e criarem problemas aos cidadãos. A segunda diz respeito à forma como os dados gerados pelos utilizadores podem ser comprometidos e usados de forma menos positiva", explica ao JN Rob Kitchin, especialista em Smart Cities, da Maynooth University, na Irlanda.

"Há riscos que podem comprometer a privacidade das pessoas que vivem ou visitam essas cidades inteligentes e também impedir premeditadamente a utilização de serviços críticos ou essenciais assentes nas tecnologias digitais", refere António Gameiro Marques, diretor-geral do Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS).

"A acontecer em larga escala, poderão fazer parar uma parte substancial dessa cidade e, assim, coartar as pessoas do acesso a esses serviços", nota.

Paralelamente, ao mesmo tempo que a tecnologia evolui, o número de pessoas a viver nas grandes cidades não para de aumentar. Se em 2008 metade da população vivia nos grandes centros urbanos, em 2040 espera-se que esse número aumente para 65%. Os números avançados por um estudo publicado na Postcapes referem, ainda, que até 1975 eram conhecidas apenas três megacidades, Nova Iorque, Tóquio e a Cidade do México. As estimativas apontam para que em 2025 o número de megacidades chegue às 29.

Em Portugal, a Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica (UNC3T), um grupo da Polícia Judiciária, é um dos organismos responsáveis por manter a segurança nos sistemas digitais. "Hoje estamos todos mais dependentes das novas tecnologias de informação. Há dez anos, por exemplo, não usávamos os smartphones desta forma", refere Carlos Cabreiro, diretor desta unidade. Para o responsável, as exigências não se prendem apenas com a dependências dos serviços tecnológicos, "mas também pela dependência crescente dos fornecedores destes serviços".

O tráfego rodoviário, os sistemas de saúde ou as infraestruturas urbanas são já geridas com recurso às novas tecnologias de informação. "As cidades inteligentes não são uma coisa do futuro. É onde vivemos agora", diz Rob Kitchin. O especialista alerta para o aumento de ciberataques, com especial incidência nos sistemas de gestão elétrica e recorda dois casos particulares: "Em Haifa, um ciberataque condicionou o trânsito de toda a cidade durante oito horas. Em Lodz, na Polónia, um adolescente hackeou o sistema de trams da cidade provocando ferimentos em vários passageiros".

São casos isolados, mas que têm paralelo em quase todos os continentes e que deixam Portugal em alerta.

Mesmo sem enumerar situações tão críticas, Carlos Cabreiro recorda o que aconteceu com o "Wanna Cry", em 2017, que terá afetado mais de 12 mil computadores só em Portugal. "A maior preocupação prende-se com sistemas de emergência médica. Se são atacados numa grande cidade, podem impedir o socorro a quem mais precisa", diz.

"Os benefícios são sempre acompanhados com novos riscos", explica o especialista da Maynooth University. O objetivo dos decisores políticos deve passar, por isso, por "criar sistemas que maximizem os benefícios e minimizem os efeitos perniciosos, direcionando as mais-valias para os cidadãos".

"É importante que, logo na fase de conceção, se identifiquem as áreas da cidade onde um eventual ataque de cibersegurança trará mais risco para os cidadãos e assim adotar medidas preventivas em função desse nível de risco", explica o CNCS.

A grande dificuldade está muitas vezes na forma como a legislação demora a acompanhar a evolução tecnológica. "A legislação é o reflexo da nossa conduta e funciona sempre numa lógica de reação e a rápida evolução tecnológica dificulta a adaptação", refere o responsável do UNC3. "Quem faz este tipo de ataques tem como objetivo provocar danos na vida das pessoas. Está a cometer um crime e a legislação deve avançar nesse sentido", sublinha.

Apesar da exposição que as grandes cidades têm aos ataques eletrónicos, os especialistas acreditam que as mais-valias compensam os desafios criados. "Estamos convictos de que, se as boas práticas forem acauteladas, as oportunidades para os cidadãos claramente compensam os riscos", admite o CNSC.

Para o futuro, Carlos Cabreiro acredita que a "inteligência artificial" poderá auxiliar as autoridades a controlarem os ataques nas redes digitais das grandes cidades, mas lembra que "todas as pessoas têm um papel ativo na própria proteção". "A forma como nos relacionamos com as redes sociais e os dados que disponibilizamos sobre o que fazemos são aspetos a que devemos estar atentos", conclui

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