
Primeira ação coletiva, no Monte do Picoto, em Braga
Semente Sorridente
Chama-se "Semente Sorridente" e quer pintar Portugal de verde. É um projeto ambiental criado por dois jovens fixados no Porto, mas com raízes no interior do país, que ensinam às "pessoas da cidade" como "plantar uma árvore, plantado no sofá".
A ideia de criar uma plataforma que incentivasse a reflorestação, ao mesmo tempo que pudesse aliar a ação no terreno a uma componente online, surgiu depois dos incêndios de outubro, que, segundo o relatório da Comissão Técnica Independente, provocaram a morte a 48 pessoas. "Partiu da necessidade de criar uma ligação emocional entre as pessoas e a natureza", explicou ao JN Tiago Santos (25 anos), um dos mentores do projeto, que vê na "falta de informação" e na "falta de cuidado" dois dos principais causadores dos fogos.
Para Ana Pinheiro (24 anos), outra das responsáveis, a "Semente Sorridente" é uma alternativa às "pessoas da cidade" e aos jovens que, não tendo "acesso ao campo e à natureza", "têm acesso a um computador e querem ajudar". Porque os incêndios são "um problema de todos", defende.
Árvores autóctones são originárias do próprio país, por isso mais adaptadas ao meio ambiente e resistentes a incêndios
O processo é simples: os interessados acedem ao site do projeto, escolhem uma de três árvores autóctones (entre carvalho, castanheiro e sobreiro), elegem um nome e um padrinho para a planta e submetem o pagamento. Passado algum tempo, recebem, no e-mail, uma fotografia e a localização GPS da árvore plantada, com uma placa que identifica o nome do rebento e o de quem o apadrinhou. "A foto serve para materializar a ideia, torná-la tangível", explica Tiago.
O valor pedido, 4,99 euros, serve para pagar a árvore (comprada a um fornecedor de Braga), a estaca, a placa, o adubo e as viagens ao local onde a planta foi colocada, para plantação e manutenção. "É um serviço personalizado, a partir de casa", diz Ana, orgulhosa no projeto que "nasceu das cinzas".
Além de "simplificar a forma como as pessoas ajudam o ambiente", a iniciativa visa, num segundo momento, incitar a que se levantem do sofá e vão visitar a árvore que compraram. "Vamos cuidar mas queremos que a pessoa venha connosco", explica Tiago. Na primeira ação coletiva, que teve lugar a 17 de fevereiro, no fim da época recomendada para a plantação, no Monte do Picoto, em Braga, cerca de 50 pessoas plantaram 100 árvores, metade das quais apadrinhada.
Sábado é dia de calçar as botas
Espécies invasoras são árvores que se disseminam rapidamente e consomem a água das restantes
O projeto vai ter, no próximo sábado (28 de abril), a segunda ação aberta à comunidade, com mais 30 pessoas a juntarem-se à causa e a apadrinharem 30 das 50 árvores que ainda não tinham nome. A missão passará por colocar as placas e estacas que faltam, regar as plantas, arrancar ervas daninhas e, sobretudo, eliminar espécies invasoras. "Não adianta estar a regar um carvalho, se ao lado está um eucalipto. Vai roubar-lhe a água toda", explica Ana que, como Tiago, é autodidata e não tem formação na área agrícola (ela é arquiteta, ele é engenheiro de Gestão Industrial).
Ao JN, explicaram que cruzaram conhecimento e trabalharam com pessoas da área, que lhes deram dicas essenciais para melhor plantarem e cuidarem das árvores. A Câmara Municipal de Braga, através do Pelouro do Ambiente, forneceu as ferramentas e disponibilizou o local de plantação que, explicam os jovens, "tem de estar preparado, limpo e pronto para receber determinado tipo de plantas".
"Não somos idealistas ao ponto de achar que são estas 80 árvores apadrinhadas que vão mudar o mundo. Mas se os 80 padrinhos falarem com outras 80 pessoas e essas agirem localmente enquanto voluntárias ou se comunicarem as formas de evitar tragédias... acabam por ter um papel exponencial", remata Tiago.
