Reportagem

Protegem idosos dos perigos de Lisboa

Protegem idosos dos perigos de Lisboa

Programa Vassouras e Companhia, criado há seis anos pela Junta de Freguesia de Santo António, em Lisboa, já evitou algumas burlas e reverteu outras, limpou casas que eram antros de lixo e acompanhou centenas de idosos nas suas tarefas diárias como ir ao banco, ao médico ou aos correios.

Vendas fraudulentas, com contratos assinados quase à força, tentativas de furto das reformas ou mesmo burlas consumadas. Estes são alguns dos perigos à espreita numa grande cidade para os grupos mais vulneráveis, nomeadamente os idosos. A isto junta-se ainda a solidão e a perda de autonomia, que muitas vezes resultam na falta de capacidade para cuidar da higiene pessoal e da casa. Foi para proteger esta população sénior e reforçar os laços humanos no seu dia a dia que a Junta de Freguesia de Santo António, no coração de Lisboa, criou há seis anos o programa Vassouras e Companhia.

"Esta gente ajuda-me muito. Se não fossem eles eu já não prestava para nada", desabafa, entre lágrimas, Odete Mantas Peres, de 80 anos. "Esta gente" é a equipa do "Vassouras e Companhia", que foi buscá-la a casa para a acompanhar ao banco. A idosa diz ao JN que está "muito doente" e conta às técnicas de Ação Social o que a médica de família lhe disse nas últimas consultas. Recebe beijinhos e mensagens de ânimo. Amparada, entra na carrinha e repete o desabafo. "São boa gente, são boa gente".

Há uns tempos, Odete Peres foi uma das vítimas de uma tentativa de venda porta a porta pouco transparente. "Obrigaram-na a assinar um contrato de compra de um aparelho linfático", revela Inês Carrolo, coordenadora do projeto. Aqui valeu-lhe a intervenção direta da equipa do "Vassouras". "Fomos com ela e com a Polícia à empresa e conseguimos anular o contrato e reverter a situação", conta a responsável. João Pontes era livreiro e recorda que fez "muitas feiras do livro". Agora, aos 86 anos, já precisa de ajuda nas deslocações. "Vão buscar-me e acompanham-me ao médico e aos correios. São uma grande ajuda. Sem eles, uma vez caí nas escadas", diz.

Mas uma das histórias mais famosas aconteceu há tempos a uma idosa residente na Rua do Cardal a São José. Um homem bateu-lhe à porta e apresentou-se como o fornecedor de bacalhau do restaurante vizinho, cujo proprietário a mulher conhecia há anos. O burlão aproveitou este facto para garantir que o estabelecimento estava fechado e que o dono lhe havia pedido para deixar a encomenda com a senhora, que deveria fazer o pagamento, e depois seria reembolsada. "Na verdade, a D. Alzira deu-lhe 300 euros para pagar o bacalhau e enquanto foi buscar o dinheiro, o homem ainda lhe furtou o ouro e o dinheiro que ela tinha em casa", recorda Inês Carrolo, acrescentando que a única coisa que o indivíduo deixou em casa da mulher foram "caixas vazias".

Prevenir a burla é, aliás, uma das fortes apostas do "Vassouras e Companhia". Quando esta já aconteceu, a solução é correr atrás do prejuízo, tentando reverter a situação. Aconteceu, por exemplo, com uma idosa que foi atropelada e partiu uns brincos que valiam 350 euros. "Foi pô--los a arranjar numa ourivesaria, mas o que aconteceu é que quando os foi buscar deram-lhe uns parecidos, mas que eram uma imitação. Fomos lá com a PSP e formalizámos a queixa", conta a técnica de Ação Social.

Outro episódio que deu que falar diz respeito a uma mulher cega, de 89 anos, que foi encontrada pela equipa do "Vassouras" em casa, em condições infra-humanas, envolta em urina, desidratada e mal nutrida. Era um caso de abandono por parte do filho, que acabou por ser condenado a prisão efetiva devido a este crime denunciado pelo JN em primeira mão em março de 2012.

Ajudar nas tarefas de casa e organizar limpezas profundas quando o cenário encontrado assim o obriga é, aliás, outra das vertentes do projeto. Foi quase acidentalmente que a equipa descobriu o estado em que vivia David José, um homem de 83 anos, antigo ator de teatro e cantor, que contracenou com atrizes famosas como Amália Rodrigues e Laura Alves. Uma casa cheia de lixo, com ratos a deambularem por toda a parte, móveis apodrecidos e papéis amarelecidos. Depois de uma limpeza profunda, vive hoje em condições dignas, recebendo o apoio regular do "Vassouras". Mais dramático foi o caso da D. Aida, uma mulher com mais de 90 anos, que vivia com o filho, com cerca de 70 anos. "Fomos lá casa e estavam os dois no sofá. A senhora pediu-nos para falarmos baixinho que ele estava a dormir", lembra Inês Carrolo, revelando que, estranhando a ausência de movimento, os técnicos aproximaram-se do homem e acabaram por verificar que este estava, afinal, morto.

Mas a segurança dos idosos é, por vezes, também a segurança de todos. Inês Carrolo conta a história do senhor Carlos, que, aos 89 anos, bebia uma garrafa de whisky a que chamava "morangos da Escócia". "O problema é que tinha carro e ainda conduzia. Um dia pediu a um dos nossos colaboradores para ir com ele a Trancoso e na viagem acabou por entrar em contramão". Neste caso, a intervenção do programa acabou por levar à retirada da carta e consequente inibição de conduzir, devido ao perigo que representava.

Foi para responder a casos como estes que a Junta de Freguesia de Santo António apostou no programa. "A vulnerabilidade dos idosos não é um problema nosso, é geral. Mas nós fazemos o que é possível para proteger os que nos estão mais próximos", explica ao JN Vasco Morgado, presidente da Junta, frisando que este programa é "uma resposta local para um problema nacional".

Além de apoiar os idosos nas tarefas diárias, o "Vassouras e Companhia" é também um instrumento de combate à solidão e abandono. "Não queremos que fiquem fechados em casa. Pelo contrário, apostamos em que mantenham ao máximo as suas antigas rotinas. Para eles terem uma pessoa que os ajuda a descer as escadas já é muito importante", conclui Inês Carrolo.