Surf dá milhões às cidades costeiras

Surf dá milhões às cidades costeiras

Cidades da costa estão rendidas ao potencial de um desporto que atrai muitos turistas e canaliza chorudas receitas de milhões de euros para os municípios. Espinho recebe prova internacional e os hotéis estão cheios.

Portugal e algumas das suas cidades já estão a capitalizar o facto de terem das melhores ondas da Europa, ainda para mais associadas a um clima ameno e a um património cultural e gastronómico riquíssimo. Um dos melhores exemplos é a Nazaré que, graças a um recorde mundial, mais que quadruplicou o número de visitantes em sete anos e, em três anos, gerou um impacto económico de dez milhões de euros. Agora, é tempo de uma estratégia nacional integrada.

Estamos em meados de março. Nas últimas semanas, duas tempestades varreram a costa portuguesa. Esteve frio, choveu e o vento foi violento. Apesar disso, os hotéis de Espinho estão todos cheios para o Espinho Surf Destination, que arranca neste fim de semana. Estamos em meados de março e há dezenas de pessoas dentro do mar de Matosinhos. A culpa é do surf, um desporto em clara expansão que tem atraído muitos turistas e vale milhões para as cidades com betão e mar.

O fenómeno não tem passado despercebido às autarquias costeiras, que têm procurado cavalgar a onda deste desporto aquático que conquista cada vez mais praticantes em Portugal e no Mundo. Olhando para os casos de Matosinhos, Espinho, Nazaré, Peniche ou Ericeira (Mafra), a estratégia de promoção está a resultar.

Segundo uma estimativa da Associação Nacional de Surfistas (ANS), o diretas e indiretas em Portugal. O número foi avançado pelo presidente da ANS há três anos, pelo que hoje, com mais de 200 mil surfistas residentes e muitos milhares de surfistas visitantes, o retorno deverá ser ainda maior. Nas cidades que têm conseguido capitalizar melhor as ondas o crescimento tem sido notório.

A marca Espinho Surf Destination foi criada há quatro anos e tem tido "uma evolução enorme", conta Gonçalo Pina, mentor e um dos organizadores do evento que este ano foi transferido de junho para março. A ideia inicial foi pegar no "diamante" de Espinho - as suas ondas - e fazer um trabalho exaustivo de comunicação que não precisou de grandes embelezamentos.

"Somos a onda de referência do Norte e será mesmo uma onda única no Mundo em contexto urbano", garante Gonçalo. Ou seja, apenas era necessário "comunicar a verdade". E, graças a esta verdade, em quatro anos, o turismo em Espinho "cresceu de uma maneira exponencial: os hotéis estão cheios, tal como o alojamento local e o comércio, os cafés e a restauração".

"Espinho afirma-se hoje como um destino turístico de excelência para a prática de surf. A marca veio destacar as qualidades da nossa onda, a dinâmica já existente no nosso concelho e a simpatia e a hospitalidade desta população", considera, por sua vez, o vice-presidente da Câmara, Vicente Pinto. Aliás, não é por acaso que o lema do evento é "uma onda de classe mundial numa cidade amigável".

No passado fim de semana arrancou o Longboard Pro, a primeira prova do Espinho Surf Destination. Para a semana é a vez do Junior Pro, que é considerada o melhor prova Junior Pro europeia e que esgotou as inscrições.

No ano passado, o Espinho Surf Destination trouxe mais de 100 mil pessoas à praia. Segundo a Universidade Católica, em três anos o evento gerou receitas diretas de seis milhões de euros e um impacto mediático nacional na ordem dos dois milhões de euros.

De resto, a prova tem sido a alavanca para a promoção do concelho como um destino de surf de referência, algo que já o é mas que precisa de ser divulgado. "O coração de Espinho está na praia. Já somos um dos melhores destinos europeus de surf mas temos de ser um destino mundial", antecipa Gonçalo Pina. Para tal, recomenda, é necessário diferenciar o apoio do Turismo de Portugal e criar uma estratégia nacional. "Tem de haver uma promoção integral do país. Não pode ser só Peniche, Cascais e Nazaré a terem os maiores investimentos. E mesmo o Porto e a Área Metropolitana não podem promover o surf sem falar de Espinho".

Matosinhos é apontada como uma das melhores praias do Mundo para o primeiro contacto com a modalidade e as 16 escolas de surf e os dois surf hostels presentes no concelho são a prova disso. E a Câmara Municipal tem procurado capitalizar essa qualidade.

"O surf tem-se tornado cada vez mais estratégico no desenvolvimento turístico, graças a sermos a melhor praia urbana para a abordagem ao surf", afirma a presidente da Câmara. Luísa Salgueiro explica que a Autarquia tem promovido a instalação e acolhido escolas de surf e também aproveitado a realização de várias provas internacionais para ter mais visibilidade. Além disso, em todos os momentos de promoção de Matosinhos nas feiras internacionais "há sempre uma presença especial do surf".

A Câmara tem a consciência das responsabilidades especiais e das necessidades específicas do desporto e tem procurado assegurá-las. "Há um trabalho de rede permanente com as escolas na organização dos espaços, por exemplo, balneários, chuveiros ou bebedouros", explica a autarca. Por outro lado, uma vez que a praia passou a ser frequentada o ano inteiro, agora há limpeza e foi implementado um programa de salvamento balnear de apoio aos surfistas que funciona 12 meses por ano. E, "mesmo não sendo responsabilidade da Câmara, estamos este ano, pela primeira vez, a fazer análises da qualidade da água todo o ano para irmos, sempre em articulação com as escolas, monitorizando as condições para a prática da modalidade", revela Luísa Salgueiro.

O presidente da Junta de Freguesia de Matosinhos e Leça da Palmeira já avançou mesmo com a ideia de criar uma marca de promoção, tal como se fez com o Espinho Surf Destination. Em Matosinhos, "depois do "World"s Best Fish", há que trabalhar para merecermos reconhecimento internacional como a melhor praia do Mundo para a iniciação ao surf: "World"s Best Learning Surf Spot"", sugere Pedro Sousa.

Dois dos grandes atrativos do surf como catalisador do turismo são o facto de ele ser praticado o ano inteiro e também ter uma percentagem significativa de praticantes estrangeiros com alto poder de compra,

Segundo uma estimativa avançada pela Junta de Freguesia, haverá em época baixa cerca de dois mil surfistas em Matosinhos (60% dos quais estrangeiros) e, em época alta, o número de praticantes sobe para perto de cinco mil, sendo que agora já serão 40% os estrangeiros.

As primeiras localidades a aperceberem-se do potencial do surf foram Peniche e Ericeira. Durante muito tempo, nos anos 90, Ribeira d"Ilhas acolheu uma etapa do circuito mundial de surf mas então passava quase despercebida. Na última década, o desporto sofreu uma revolução e atingiu um patamar de profissionalização impressionante, catapultando-se para uma mediatização muito maior que culminou na sua aprovação como desporto olímpico para os jogos de Tóquio, em 2020.

Para se ter uma ideia, só nos Estados Unidos da América estima-se que o surf tenha um impacto anual de seis mil milhões de euros. Em Portugal, os números são mais modestos mas, mesmo assim, impressionantes. Segundo dados da World Surf League, que organiza o circuito mundial de surf, em 2014, a etapa portuguesa do "tour", que se realizou em Peniche, teve um impacto económico direto de 15 milhões de euros, mais 46 milhões de retorno mediático, muito à custa de uma audiência global de 300 milhões de pessoas. A Ericeira, apesar de ter perdido para supertubos, em Peniche, a etapa do campeonato do Mundo, não ficou parada. Em outubro de 2011, a Câmara de Mafra obteve o selo de Reserva Mundial de Surf para a Ericeira, galardão atribuído pela organização internacional "Save the Waves Coalition".

Na altura, foi apenas a segunda reserva a ter aquela distinção a nível mundial e permanece como a única reserva europeia, concentrando "sete ondas de classe mundial num espaço de apenas quatro quilómetros: Pedra Branca, Reef, Ribeira d"Ilhas, Cave, Crazy Left, Coxos e São Lourenço".

Foi há sete anos que Garrett McNamara (na foto) catapultou a Nazaré e o seu famoso "canhão" para todo o Mundo ao surfar um "monstro" de 23 metros de altura. A proeza trouxe um recorde mundial ao americano e a sorte grande à pitoresca vila piscatória que nunca mais foi a mesma. Desde 2011 que o número de visitantes não pára de aumentar, tal como a economia local, que tem vindo a crescer a taxas anuais entre os 20 e os 50%, chegando mesmo a duplicar em alguns casos, como na restauração. Segundo um estudo da Fundação Gulbenkian, entre 2011 e 2014, o impacto mediático das ondas gigantes gerou um retorno económico direto superior a 10 milhões de euros. Para se ter uma ideia, em novembro e dezembro de 2014, altura das ondas grandes, a Nazaré teve mais referências nos média internacionais do que Lisboa.

Garrett McNamara foi e é um dos grandes responsáveis por esta explosão mediática, não só pela onda gigante que surfou, como também pelo amor e carinho que desenvolveu pela Nazaré e que é recíproco. O americano é hoje um verdadeiro embaixador da vila. Trata quase todos os locais pelo nome e faz questão de apresentar os restaurantes e as lojas aos amigos que o visitam e que são cada vez mais. No ano passado, estima-se que perto de um milhão de forasteiros tenham visitado a Nazaré. Só um dia do evento Nazaré Challenge trouxe 20 mil pessoas à praia. E o melhor é que o surf praticamente eliminou a sazonalidade, havendo procura durante o ano inteiro. Com o fluxo de visitantes a não dar sinais de abrandar, continuam a abrir novos negócios e está já em marcha um hotel de cinco estrelas, tal como a construção de várias habitações para cidadãos estrangeiros que, em busca da onda dos seus sonhos, querem estabelecer residência na Nazaré.