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Terrorismo força mudanças nas cidades

Terrorismo força mudanças nas cidades

Cidades do mundo inteiro adotaram sistemas de retenção de veículos de forma a prevenir eventuais ataques terroristas com recurso a viaturas. Essa ameaça criada por objetos comuns também muda a organização urbana.

No último ano, uma série de ataques terroristas com recurso a veículos atingiram cidades em toda a Europa, incluindo Londres, Barcelona, Berlim e Nice, e também os Estados Unidos. Isto alterou não apenas a perceção de segurança dos cidadãos destes países, mas também o urbanismo das cidades. Muitas optaram pela colocação de barreiras de segurança e outras medidas mais visíveis a olho nu, como o policiamento fortemente armado. Também em Portugal algumas, como Lisboa, instalaram este tipo de dispositivos em áreas de maior fluxo de pessoas. Uma forma de se prepararem para a eventual ameaça.

Embora Portugal não seja um alvo evidente ou até provável de um ataque terrorista, forças de segurança e sistemas de segurança interna estão atentos a essa possibilidade, pelo que a face das cidades começa a sofrer alterações. Logo após os ataques na Catalunha, em agosto, Lisboa optou por colocar blocos de betão nas zonas mais movimentadas e turísticas da capital, como o Mosteiro dos Jerónimos, Chiado e a Rua Augusta, para evitar um ataque com viaturas. Mas a capital não é a única cidade portuguesa a fazê-lo. Já anteriormente, as autarquias de Coimbra, Albufeira e Portimão tinham implementado medidas de segurança nas vias públicas, nomeadamente pilaretes. No Porto, no final de agosto, aquando do Air Bull Air Race, foram colocadas barreiras de betão. E no S. João de Braga, em junho, aconteceu o mesmo.

Embora as autoridades nacionais não tenham aumentado o nível de alerta, a PSP informou que desde há alguns meses que tinha reforçado a vigilância e segurança em áreas e locais de maior concentração de pessoas. O mesmo sucedeu recentemente, no Natal e Ano Novo, com a PSP a reforçar o policiamento junto dos transportes públicos, zonas comerciais, históricas e locais de diversão noturna.

Durante a quadra, o policiamento foi especialmente mais visível nas zonas comerciais, transportes públicos, zonas históricas ou de maior concentração turística. Houve ainda lugar ao reforço da fiscalização nas zonas de diversão noturna e foi mantido o policiamento "mais musculado" em Lisboa e no Porto junto aos grandes terminais ferroviários e aeroportos, tendo em conta a ameaça .

Na passagem de ano, todos os acessos ao Terreiro do Paço estiveram controlados, com barreiras de cimento e estruturas com espigões metálicos a bloquear as viaturas em caso de emergência. Medidas extensivas à festa no Porto, que teve lugar na Avenida dos Aliados.

"Em qualquer situação temos de avaliar a possível ameaça, temos de clarificá-la em termos de perigosidade e possibilidade", explica ao JN o tenente-general Leonel Carvalho. Segundo o ex- secretário geral do Gabinete Coordenador de Segurança, o país "não está livre" de ser alvo de um atentado, mas adianta que "não está na prieira linha dos terroristas" porque, em termos de população suspeita, "praticamente não existe" e porque "Portugal não é um país muito mediático".

O militar considera que as barreiras de cimento são uma medida razoável para prevenir uma das formas mais modernas de ataques terroristas, nomeadamente em zonas com maior concentração de pessoas, como praças e monumentos mais visitados e terminais de transportes. Mas esta é apenas uma das medidas mais visíveis a olho nu. Outras há que escapam ao conhecimento dos cidadãos.

"A Polícia está sempre atenta e se houver informação de que há um atentado em preparação outras medidas serão tomadas. Os ataques com recurso a viaturas são um dos meios mais utilizados pelos terroristas por serem de fácil atuação. Podem furtar um veículo sem que isso revele as intenções, ao contrário do que acontece com a aquisição de explosivos", observa o oficial.

A colocação destas barreiras é da responsabilidade das autarquias, mas também da Polícia. Há estruturas destas permanentes, que são colocadas nas cidades e não têm a ver com eventos específicos. São responsabilidade das câmaras, apoiadas em avaliação policial. Outra coisa são os eventos. Aí a PSP faz a avaliação de segurança e define o que tem de existir. É o que sucedeu por exemplo na passagem de ano em Lisboa.

Para além deste tipo de medidas, e tendo em conta a prevenção de possíveis ataques, desde 2015 que a Polícia adotou aquilo a que chama policiamento com visibilidade reforçada: equipas do comando são reforçadas por elementos da Unidade Especial de Polícia e deslocadas para áreas de maior fluxo de pessoas.

"Aí sim, há uma presença mais musculada do efetivo policial com um objetivo dissuasor e também para garantir uma resposta mais rápida numa hipotética situação", acrescenta.

Também a GNR está atenta ao fenómeno. Segundo o major Bruno Marques, porta-voz do Comando Geral da GNR, foi feita uma análise das várias cidades e vilas e verificou-se que na sua área de atuação existem momentos em que o fluxo de pessoas é muito grande. Como medidas, destaca que "umas são mais visíveis, outras menos, como a troca de informação entre diversas entidades nacionais e estrangeiras que é feita todos os dias, e a investigação criminal que está permanentemente no terreno a recolher informação, que é o mais importante para a prevenção deste tipo de situações".

Já as ações mais visíveis ocorrem quando há grandes eventos, como aconteceu na visita do Papa, em maio do ano passado, em que "houve um trabalho muito grande de recolha de informação de diversas entidades com responsabilidade nesta matéria", segundo o oficial da GNR.

A intervenção no terreno envolveu largos meses de recolha de informação e também a presença de milhares de militares e a utilização de algumas medidas preventivas, como viaturas e outro material, como as barreiras físicas.

Se a colocação de barreiras nas cidades é considerada uma medida essencial para a prevenção de ataques terroristas, a sua adoção nem sempre gera consenso. Para o urbanista Rio Fernandes, "há vantagens e desvantagens". Assinala, porém, que é conveniente "entender que as cidades e todos os lugares do Mundo sempre tiveram algum perigo". Sublinha ainda que "nos ataques terroristas não morrem tantas pessoas num ano como de violência familiar em meia dúzia de cidades, mas é um problema que chama muito a atenção".

"Acho bizarro que exista agora uma valorização dos ataques terroristas. Parece-me interessante até para a perceção de segurança que haja mais polícia, que esteja mais armada e mais visível em zonas de maior movimentação de pessoas. Agora levar a questão ao extremo de interferir de forma mais ou menos violenta com o bem-estar das pessoas é algo que tem de ser ponderado. Agora todas as cidades do Mundo têm de ter barreiras, pessoas que são revistadas, uma loucura securitária", conclui o geógrafo.

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