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Tiago Oliveira : "Eucalipto é uma árvore. Não pode ser considerada culpada"

Tiago Oliveira : "Eucalipto é uma árvore. Não pode ser considerada culpada"

Chefe da Estrutura de Missão para a Gestão Integrada de Fogos Rurais assegura que os problemas ocorridos nos graves incêndios de 2017, com o SIRESP e a descoordenação das autoridades, não se repetirão este ano.

Há cinco meses na chefia da Estrutura de Missão para a instalação do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais, a quem caberá criar a Agência para a Gestão Integrada dos Fogos Rurais proposta pela comissão técnica independente que elaborou o relatório aos incêndios de Pedrógão Grande, Tiago Oliveira garante que as maiores falhas ocorridas em junho e em outubro de 2017 não se repetirão - a descoordenação na Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) está sanada e os problemas na rede de emergência SIRESP serão resolvidos com mais meios técnicos e formação dos recursos humanos. O engenheiro florestal do Porto, de 48 anos, que o primeiro-ministro foi buscar ao serviço de proteção florestal do grupo Navigator, admite ainda mexidas nas fases de combate a incêndios e discorda das teses antieucalipto.

Já estão reunidas as condições para que 2018, no que toca a incêndios, não venha a ser como 2017, começando pelo SIRESP?

A pergunta que me coloca sobre o SIRESP tem a ver com o Ministério da Administração Interna. Aqui, estamos preocupados com duas coisas: a formação que vai haver para quem vai usar o SIRESP, como elemento muito importante para o bom funcionamento. E, quando há um evento de operação em que o SIRESP vai ser muito solicitado, haver disciplina de rádio no uso dos equipamentos e um plano de comunicação associado ao estado-maior daquele evento. As pessoas quando chegam a um evento de combate ao incêndio têm regras de comunicação e canais que lhe estão alocados. Se todos entram no incêndio a usar o canal-manobra, naturalmente o sistema vai entupir e ter performance pior.

Em que vai consistir essa formação?

É uma formação para os elementos dos postos de comando, GIPS [Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro], [bombeiros] sapadores, que estão acostumados a usar o aparelho. Mas também têm de ser treinados para terem formação de disciplina na operação do aparelho de rádio, integrado num teatro de operações mais avançado. Isso consegue-se com formação, simulacros, com comando, controlo e supervisão da operação. Se a pessoa não usar o rádio corretamente no teatro de operações, para a próxima tem de usar.

Ao que sabemos, e os relatórios assim o apontam, o problema não era tanto de quem usa o SIRESP, mas as falhas técnicas do sistema.

Há um problema de tecnologia que está identificado no relatório da CTI [Comissão Técnica Independente para o incêndio de Pedrógão Grande], há um problema de formação e de cobertura das antenas e mobilização das antenas. Este ano vai haver um reforço, com mais antenas no terreno. Mas julgo que as questões associadas às comunicações foram muito mediatizadas, quando nem sempre é esse o problema. Pode ter sido naquela circunstância. Mas, normalmente, as comunicações têm sempre dificuldades por questões de orografia, de falhas de equipamentos, de baterias que falham frequentemente. Portanto, os operacionais sabem que, uma vez atribuída a missão, têm de comunicar o mínimo possível.

Então, avança-se para a formação dos operacionais, porque os problemas técnicos estão resolvidos?

Sim. O plano de trabalho do MAI está entregue, com as antenas que vão ser adquiridas e um conjunto de formações. Penso que não vai haver dificuldades pelo lado das comunicações.

Em relação às várias fases de combates aos incêndios, vamos continuar a ter a Alfa, Bravo e Charlie, passa a haver só uma ou qual o formato que está a ser estudado?

Sabemos que os incêndios acontecem em julho, agosto e setembro. Há sempre duas a três semanas no ano muito difíceis. O dispositivo tem de ser dimensionado em função da distribuição histórica dos fogos, dando liberdade para um pré-posicionamento em função de um alargamento da campanha de incêndios: começa mais cedo e acaba mais tarde.

Isso significa o quê? A fase Charlie começa mais cedo e a Bravo desaparece?

Não queria falar em fases, porque a própria diretiva afasta um pouco esse conceito. O importante é ter o dimensionamento ajustado à necessidade. Se não houver incêndios e chover em maio ou junho, mas os recursos estão contratados, há um custo em ter os meios parados, nomeadamente os aviões sem voar. Esses meios podem fazer: ações de sensibilização, limpeza da vegetação à volta das casas e dentro das florestas, observação, treino. A isso chama-se o duplo envolvimento das forças. Ou seja, quem previne, combate. Quem combate, previne É uma forma eficiente de gastar o mesmo dinheiro, mas com mais resultado.

Já estão preenchidos todos os cargos da ANPC?

Tem de fazer essa pergunta ao general Mourato Nunes [presidente da ANPC]. Aqui temos uma visão de cima. Há uma lei orgânica que está a ser preparada, alinhada com o modelo futuro, que sai a 31 março e dará o enquadramento necessário para que a operação da ANPC corra melhor.

Uma das críticas dos relatórios aos incêndios de 2017 é a mudança que ocorreu nos cargos dirigentes e operacionais da ANPC em janeiro. Estamos em março de 2018 e ainda há lugares para ocupar e gente para ser substituída. Não estamos a preparar uma repetição dos níveis de descoordenação de 2017?

Acho que vai ser difícil que isso aconteça. É improvável mesmo que isso aconteça. Porquê? Primeiro, há um comandamento, muito focado na operação de 2017, pelo comandante Mourato Nunes, há um saber fazer do comando de homens, uma seleção de recursos humanos que já vem de trás. As fragilidades daquela equipa têm de ser apoiadas para que sejam menos frágeis. Por isso, esta Estrutura de Missão tem um programa de recrutamento de peritos internacionais e nacionais, para as colmatar e ajudar nos locais onde possa haver maiores adversidades.

Como é que tem assistido a uma certa demonização do eucalipto?

As causas dos incêndios não são só as da espécie. Um eucaliptal, pinhal ou sobro, se tiverem por baixo vegetação com carga alta, acima da altura do peito, o fogo que ali passar vai arder com a mesma intensidade e libertar a mesma quantidade de energia. Porque o que está a conduzir o incêndio é o sub-bosque, não é o fogo de copa em copa. É raro em Portugal haver fogos de copa. Se formos às áreas ardidas de Oliveira do Hospital ou Pedrógão Grande, face ao total, vemos poucas áreas em que o fogo andou de copa em copa. Por isso, crítico não é a espécie, é se a estrutura da composição daquele povoamento tem ou não vegetação arbustiva. Entre um eucaliptal bem tratado ou um pinhal, prefiro combater o fogo dentro de um eucaliptal, porque o fogo tem uma menor evolução na superfície. O eucalipto projeta mais fogo? Projeta. Mas também não me parece que um país corrido de ponta a ponta com eucaliptos faça sentido.

Choca-o ver a forma como os eucaliptos estão a renascer junto da EN236, conhecida pela "estrada da morte"?

Trata-se de uma espécie florestal, que reage bem ao fogo. Aquilo é uma árvore. Não pode ser considerada a culpada. Está a reagir ecologicamente àquilo que ela sabe fazer: está a regenerar, a sair das cinzas e a entrar no verde. Ela vai arder já para o ano? Não, as folhas daquelas árvores têm muita água. Pode fazer muita confusão, mas tenho uma visão técnica do problema.