SOS Floresta

Travar declínio do sobro custa (para já) 60 milhões

Travar declínio do sobro custa (para já) 60 milhões

Cerca de 60 milhões de euros é quanto pode custar, para já, a implementação de medidas de proteção do sobrado a Sul do país e o início do seu alargamento. Estas são as contas do grupo de cidadãos que constitui a "Iniciativa Pró-Montado", que pretende do Governo medidas que possam combater o avanço do deserto do Saara, entre elas o aumento do número de sobreiros, dos atuais 60 por hectare para 80 a 100.

Segundo o grupo, formado por produtores de sobro e cortiça, autarcas de vários municípios alentejanos, associações ambientalistas e ainda investigadores, as áreas de montado abaixo do rio Tejo estão em risco, e não é de agora. O objetivo passa por sensibilizar as autoridades a canalizar para o setor parte de verbas de fundos europeus do Portugal 2020 para a agricultura, que ficaram por executar, e outros que ainda estão a ser desenhados, de modo a apostar na resistência climática dos sobreiros.

Pedro Sousa, um dos produtores de sobro que faz parte da "Iniciativa Pró-Montado", garante que não se pode continuar a passar ao lado das doenças, pragas e secas que vêm atingindo a floresta a Sul - que concentra 72% dos sobreiros e 92% de azinheiras do país.

"Não há só uma floresta em Portugal. Há várias. No Norte e Centro são florestas lenhosas. E esta [sobrado], além do seu enorme valor económico, pode e deve servir para travar a desertificação do ´Sul do país", sustenta sobre uma floresta que, no ano passado, permitiu a exportação de 966 milhões de euros em cortiça.

Montado em agonia

Daí que o grupo exija o lançamento de um concurso regional para o Alentejo de apoio à melhoria de resiliência e de valorização ambiental. Em causa poderão estar cerca de 60 milhões de euros, dos fundos europeus do Portugal 2020, que poderiam ser reafetados a esta estratégia, para fazer face a cerca de "duas décadas de deterioração do clima e de três anos de seca seguida".

A possibilidade de haver um forte investimento em sobro na reflorestação do Centro e Norte, afetados pelos incêndios de 2017, não é vista com bons olhos pelo grupo. O motivo deve-se à falta de "resultados práticos", quanto a rendimentos de produtores e à qualidade da cortiça, já que "demorarão cerca de 30 a 40 anos a aparecer".

O apelo é que que o montado de sobro e também o de azinho "passem a ter programas de defesa e apoio próprios", para que a densidade por hectare aumente: passando de cerca de 60 árvores por um hectare para 80 a 100.

Segundo o grupo, um dos apoios financeiros para tal estratégia pode vir do reforço em 133 milhões de euros do Programa de Desenvolvimento Rural Florestal, que conta neste momento com 530 milhões de euros.

Pedro Sousa alega que o Alentejo mantém-se, "de longe", como "repositório principal do fornecimento de cortiça ao país", já que o "montado de sobro é o seu povoamento florestal" pode servir de barreira para o avanço do deserto.

Durante o levantamento da realidade do montado no Alentejo, para elaborar tais pedidos ao Governo, este grupo admite que sofreu "um valente susto". Nas serras de Portel, Grândola ou Santiago do Cacém, foram encontradas árvores em agonia e em desfolhação - queda prematura de folhas.

Estes cenários do sobro no Sul, bem como as intenções do grupo para inverter o declínio do setor, já chegaram às mãos do primeiro-ministro e do ministro da Agricultura. Até agora, ainda não houve uma resposta.