Reportagem

Tripeiros do Mundo

Em pleno Centro Histórico do Porto, a Breyner"s House, na Rua do Breyner, vivem 22 jovens. E quase todos são estrangeiros. Não fosse aquela uma residência que tem como referência acolher os estudantes que chegam, de vários países, à Universidade do Porto.

Regina, José, Vishvesh, Noa, Victoria, Thomas e Sacha são alguns dos rostos que contribuíram para o novo recorde alcançado pela Universidade do Porto, que registou, este ano, o maior número de sempre de estudantes estrangeiros. No total, foram 2471 os jovens que chegaram à Invicta, ao abrigo dos programas de mobilidade internacional, entre os quais o Erasmus +. Mas desengane-se quem pensa que são só os europeus que elegem o Porto para estudar. Porque é da América do Sul que chega a maior parte dos jovens: dos 2471 estudantes, 1021 são brasileiros. E seguem-se outras 75 nacionalidades, que vão da vizinha Espanha até Israel ou Vietname.

Na Breyner"s House, poucos minutos bastam para que muitas nacionalidades se misturem. É assim em casa e é assim na Universidade do Porto. Onde quase todos têm aulas em português. "Para mim, torna-se complicado, porque não falo português, mas os professores tentam ajudar-me em inglês", conta Regina Paul, 26 anos. Quase a concluir o Mestrado em Ciências do Ambiente, a jovem alemã confessa que mudou de planos. "Cheguei em setembro e supostamente já devia ter ido embora em janeiro", adianta, acrescentando que "não quis sair". Quando chegou a altura da decisão, muitos foram os motivos que a fizeram ficar. "Ainda estou aqui porque gosto mesmo da cidade", explica, sorridente. "O Porto é uma cidade muito agradável, com muita gente jovem", revela. Além disso, "há sempre muita coisa para fazer e sítios novos para conhecer".

E a língua não é um obstáculo. A jovem esclarece: "Os professores são muito simpáticos e ajudam-nos em inglês sempre que precisamos". Uma relação de proximidade entre alunos e docentes que Regina aprecia particularmente. Porque "assim torna-se fácil até para quem não fala português", conclui. Ainda assim, Regina admite que se o futuro passasse por ficar a viver e trabalhar no Porto, teria que "aprender a falar português fluentemente".

À volta da mesa, comenta-se a refeição. E Alicia Abaitua, 22 anos, é quem assume, ao jantar, a posição de chefe. O nome até pode enganar, mas a jovem é portuguesa. E conhece a receita de um bom bacalhau à Brás. Por isso, é uma das escolhidas quando, entre todos, combinam o país que irá ser representado à refeição. Numa casa com tantos moradores, nem sempre é fácil agradar a todos.

"Sou vegetariana e nisso os portugueses não são lá muito meus amigos", comenta, em jeito de brincadeira, Noa Levi, 25 anos. A aluna israelita "nunca tinha estado em Portugal", mas garante que rapidamente passou a sentir-se em casa. Viver no Porto e não comer carne é ficar, desde logo, sem conhecer muitos dos pratos típicos da cidade, mas Noa não se lamenta. Porque "o peixe é muito bom". De tal forma que a faz deixar, por breves segundos, o inglês. Para dizer, em bom português, que gosta "muito" de bacalhau.

Na cozinha, os gostos até podem ser diferentes. Mas no que toca à cidade que escolheram para completar os estudos, a opinião é unânime. "Toda a gente que eu conheço gosta muito de Portugal e principalmente do Porto, que é uma das cidades mais escolhidas pelos estudantes". As palavras são de José Rodrigues Aires, 20 anos. O aluno da Faculdade de Direito da Universidade do Porto que, com sotaque brasileiro, explica o que faz com que todos os que visitam Portugal gostem da Invicta. "As pessoas recebem-nos muito bem e são muito simpáticas".

A terminar o Mestrado em Gestão, Sacha Morizot, 25 anos, não se arrepende da escolha que fez no ano passado. Escolheu o Porto para ficar durante todo o ano letivo. Ao contrário de muitos, que optam por fazer apenas um semestre fora do país onde vivem. "É uma excelente oportunidade para descobrir uma nova cidade e estar com pessoas de diferentes nacionalidades", diz, acrescentando que "é uma cidade que permanece autêntica, apesar de estar sempre a mexer". Além disso, "é uma cidade em que nos sentimos muito seguros", completa.

E quando o assunto é trabalho, o jovem assegura que qualquer trabalho se torna melhor se juntar, num único grupo, "pessoas de várias nacionalidades". Com visões, culturas e experiências muito diferentes, não faltam razões para o sucesso. Desde que está em Portugal, Sacha aproveitou para percorrer o país. "Já visitei Lisboa, fui até ao Algarve e aos Açores", conta, recordando o "fim de semana incrível" que passou em Ponta Delgada. Com a data de regresso a Paris cada vez mais próxima, o estudante ainda não faz planos para o futuro. Sabe apenas que quer, um dia, voltar ao Porto. Com a família. E que, se o destino lhe reservasse uma oportunidade de trabalho na Invicta, seria "um enorme prazer".

Também no início do ano letivo chegou, no ano passado, Victoria Sol Olmos, 24 anos. Encantada com a beleza da cidade, confessa que não foi só isso que a surpreendeu pela positiva. Porque, quando chegou ao Porto, descobriu a forma "descontraída" com que os portugueses levam a vida. "A cidade é muito bonita, mas o que eu mais aprecio é a calma que toda a gente tem", diz, soltando uma gargalhada. "É como se as pessoas não tivessem preocupações", completa. E Regina, a colega alemã, subscreve. Na Alemanha, "o modo de viver o dia a dia" também é "muito diferente" daquele que ficou a conhecer em Portugal. "Lá [na Alemanha] há mais regras", diz. E dá um exemplo: "Seria impensável alguém viver numa casa como esta" . A estas palavras segue-se, claro está, nova gargalhada, que dá conta de alguma desorganização. Contudo, numa habitação com mais de 20 moradores, outra coisa não seria de esperar. O segredo, garantem, é dividir as tarefas. E não é difícil. Porque em inglês todos se entendem.

A maior parte dos estudantes ficou a conhecer a residência ainda antes de chegar a Portugal, através de uma plataforma online. Mas há exceções. Como é o caso de Vishvesh Rajamanickam, 25 anos. O indiano, estudante de Engenharia Mecânica, conheceu "a Casa dos Breyner"s" quando já frequentava as aulas na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). "No semestre passado, eu já fazia parte desta família, porque vinha cá algumas vezes. Quando percebi que estes iam ser os meus últimos meses de estudante pensei para mim: porque não viver ali com eles?" E assim foi. Fez as malas e juntou-se à família.

Numa casa em que raro é ouvir falar português, comenta-se, em inglês, cinema e futebol. E há quem não desperdice uma oportunidade de ir ver os jogos ao Estádio do Dragão. Thomas Lemarchal, 25 anos, assume-se como um "grande fã de futebol". Para o jovem francês estudante de Arquitetura viver na Invicta "é ótimo" por vários motivos, principalmente porque pode ver ao vivo os jogos do F. C. Porto. Acompanhado pelos amigos que, como ele, "adoram futebol". Em julho regressa a Paris, mas tem um desejo: "Espero voltar ao Porto".

O objetivo, assegura, é voltar com a família, que também já se deixou conquistar pela Invicta. "Mas, o ideal seria voltar a encontrar as pessoas que conheci aqui", confessa. E é com um sorriso que termina: "Esperamos voltar. Todos juntos. Outra vez"

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