O adeus à casa de onde saiu o chá que acalmou Marcello Caetano

O adeus à casa de onde saiu o chá que acalmou Marcello Caetano

Casa Pereira, uma das "Lojas com História" nomeada pela Câmara de Lisboa, fecha portas no final do ano. O "templo" do café do Chiado, onde Amália Rodrigues ou Freitas do Amaral eram clientes habituais, é gerida por António Lemos, que, aos 92 anos, ainda serve ao balcão e trata da contabilidade.

Assistiu de perto à Revolução de 25 de Abril de 1974, ao grande incêndio do Chiado, em 1988, entre outros episódios marcantes da história de Lisboa e de Portugal. A localização privilegiada da Casa Pereira, no número 38 da Rua Garrett, atraiu também muitas figuras públicas, entre políticos, artistas, escritores ou desportistas. Agora, 89 anos depois da inauguração, vai fechar portas no final do ano e o futuro é ainda incerto. Até lá, continua a ser gerida por António Lemos, que, aos 92 anos, demonstra uma lucidez e vitalidade impressionantes. É que, além de atender os clientes ao balcão, como faz desde 1945, quando ali começou como empregado, é ele ainda quem faz a contabilidade do negócio.

"A loja vai acabar?_Ai, não me faça isso!". É assim que Clara Velez, de 72 anos, reage à notícia que lhe é dada pelo JN Urbano. Tinha acabado de entrar para comprar umas bolachinhas únicas para mandar pelo correio para uma amiga que vive na zona de Fátima. Tudo porque, justifica, "não há em toda a Lisboa uma casa com a qualidade dos produtos desta".

José António Lemos, 64 anos, filho do proprietário, prepara-se também para se reformar e explica a decisão de encerrar o negócio: "O meu pai está cansado e os meus filhos não querem ficar com isto, pelo que o investimento necessário para modernizar o espaço também já não fazia sentido, porque não teria continuidade".

Sorridente, Lemos pai - natural da zona de Vila Real, apesar de desde muito novo radicado em Lisboa - recorda as vivências ao balcão. Questionado sobre se assistiu ao cerco de Salgueiro Maia ao Quartel do Carmo (que fica a uns escassos 300 metros), no 25 de Abril de 1974, acena negativamente com a cabeça, mas revela um pormenor inédito acerca desse dia: "Fechei a casa e fui-me embora. Mas antes ainda atendi um militar da GNR que veio cá buscar um chá para o presidente do Conselho, Marcello Caetano se acalmar".

A excelência dos produtos da Casa Pereira atraiu também figuras como Amália Rodrigues - "que era fã dos chás e sempre muito simpática" -, o político recentemente desaparecido Freitas do Amaral, ou o antigo internacional do Benfica, Shéu Han.

Os mais velhos recordam "o cheiro intenso e único" a café à porta daquela casa. José António explica que até ao incêndio do Chiado,"80% do negócio era assegurado pelos clientes habituais". A_transformação da zona, e da própria vivência da cidade, acabou por trazer grandes mudanças. "Hoje, quem compra mais são os estrangeiros", observa.

Mudaram os clientes, mudou também a oferta. "Continuamos a ter os nossos produtos tradicionais, os que deram nome à casa, como o café, o chá, as bolachas e os chocolates", explica Lemos filho, acrescentando que mais tarde passaram a ter a garrafeira, muito apreciada pelos estrangeiros.

Mas a Casa Pereira é, ainda hoje, um "templo do café". E nem a generalização das máquinas das cápsulas "matou" o negócio. "Quebrou um bocadinho, mas alguns dos clientes que aderiram à tendência das cápsulas já voltaram", conta José António. O segredo? Talvez o facto de todo o café ser comprado em grão, mandado torrar e depois moído na loja consoante a preferência do cliente.

De toda este rol de acontecimentos, a única certeza é que a fachada terá se ser mantida, por ser uma Loja com História. O futuro do espaço não é ainda conhecido, mas dificilmente se manterá no ramo. Em 2020 logo se verá.

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