Covid-19

O vírus que limpa o ar e abafa o ruído das cidades

O vírus que limpa o ar e abafa o ruído das cidades

Ruas desertas, longe do habitual ritmo frenético, o céu mais limpo e uma quietude tensa. Porto, Lisboa e outras cidades mundiais, onde as emissões poluentes caíram a pique, estão irreconhecíveis.

Poucos dias depois de ser decretado o estado de emergência por causa do novo coronavírus, que obrigou milhares de pessoas a resguardarem-se em casa, cumprindo o isolamento social, várias cidades europeias começaram a funcionar a meio gás. A quebra das deslocações diárias e a redução da atividade económica deixaram milhares de carros parados, o que teve um impacto brutal na emissão de gases poluentes para a atmosfera.

Em alguns locais de Lisboa, as emissões de dióxido de azoto para a atmosfera desceram 80% e, no Porto, 60%, segundo imagens captadas por satélite e divulgadas pelo Laboratório de Observação da Terra do AIR Centre, entre os dias 10 e 28 de março. "Verifica-se claramente uma mudança", diz Pedro Silva, responsável pelo laboratório.

Alexandra Monteiro, investigadora do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro, não tem dúvidas de que "nunca se viu nada assim". "Chega a haver reduções de 70% em algumas estações de monitorização. Há melhorias impressionantes da qualidade do ar", diz.

A investigadora, que faz a previsão da qualidade do ar todos os dias para Portugal, analisa com frequência os dados fornecidos pela estação de monitorização de poluição do ar da Senhora da Hora, no Porto, "uma das mais fiáveis". Na estação de Avintes, em Vila Nova de Gaia, também encontrou dados surpreendentes. "Passou-se de níveis elevados para níveis residuais. É difícil ir abaixo disto", acredita.

Avenida reduz para metade

Na Avenida da Liberdade, em Lisboa, registaram-se as concentrações mais baixas dos últimos sete anos. "É um dos casos paradigmáticos em termos de poluição e os níveis de concentração de gases reduziram em 60%", diz Francisco Ferreira, dirigente da associação ambientalista Zero. "As concentrações médias de dióxido de azoto na Avenida de Liberdade costumam rondar os 57 mg/m3 (microgramas por metro cúbico). Registamos agora medições de 23 mg/m3, é menos de metade do valor-limite para a concentração anual, que é de 40 mg/m3", avança.

Os dados são de um estudo do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa, realizado entre 16 e 27 de março. Foram avaliadas as concentrações de dióxido de azoto em alguns pontos da cidade, numa tentativa de avaliar o impacto que as medidas de isolamento estão a ter na redução da poluição do ar, em particular devido ao tráfego rodoviário.

"Não havia grandes dúvidas, mas agora temos a certeza absoluta de que o tráfego rodoviário é o principal responsável pelos grandes índices de poluição", diz o também professor neste estabelecimento de ensino. "Os números vão permitir-nos perceber até onde poderemos restringir o tráfego automóvel para se cumprir a legislação, o que antes não era possível", explica.

Os valores registados na estação de monitorização de poluição do ar dos Olivais, perto do Aeroporto de Lisboa, têm também mostrado a influência de outras fontes, como os aviões, na diminuição da poluição, repara ainda.

Pelo Mundo, a Agência Europeia do Ambiente confirmou também, esta semana, que houve "grandes reduções" de poluentes atmosféricos nas cidades europeias. E o tráfego automóvel foi "o grande responsável pela redução de emissões poluentes em toda a Europa", garante Alexandra Monteiro.

O silêncio que vem dos céus

Lisboa é dos casos mais significativos de redução de emissões poluentes no continente europeu, mas Barcelona e Madrid destacam-se. "São cidades com mais problemas ambientais do que nós e as medidas de contenção lá foram mais rigorosas do que as nossas", observa Francisco Ferreira.

Com milhares de carros e aviões parados, também a poluição sonora caiu a pique nas cidades, sobretudo em Lisboa, por causa da zona de influência do aeroporto. "Esta avenida é uma autêntica autoestrada, mas no primeiro domingo do isolamento social, o ruído era de tal forma baixo que conseguimos ouvir, pela primeira vez em quase dois anos que aqui moramos, o chilrear dos passarinhos", conta Francisco Costa, que vive junto à Avenida das Forças Armadas. Rui Martins, morador no Areeiro, sente o mesmo. "O ruído dos automóveis e dos aviões, que me acordavam às cinco da manhã, diminuiu imenso", diz.

O regresso dos passarinhos

Nos centros históricos de Porto e Lisboa, onde o crescimento do alojamento local e de bares fez disparar as queixas relacionadas com o barulho, nos últimos anos, até se estranha o silêncio. "Finalmente os moradores têm sossego. Nem parece o mesmo bairro, às vezes até faz impressão. Estranhamos o sossego, mas o problema do ruído resolveu-se", diz Luís Paisana, presidente da Associação de Moradores do Bairro Alto, de Lisboa.

Joana Areal, membro do grupo de Facebook "Menos Barulho em Lisboa", que também tem denunciado situações de ruído excessivo, agora elogia o silêncio. "Na Baixa é um sossego absoluto. Os passarinhos até vêm à corda onde esticamos a roupa, é uma diferença abissal", relata a moradora em São Cristóvão.

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