Iniciativa

Vivências de migrantes em Lisboa partilhadas em diários

Vivências de migrantes em Lisboa partilhadas em diários

Pessoas de várias nacionalidades estão a escrever sobre a sua adaptação à vida na capital. Memórias ficarão disponíveis na Biblioteca de São Lázaro e algumas serão publicadas em forma de livro.

Há cada vez mais estrangeiros a viverem em Lisboa, mas pouco sabemos sobre como se sentem e os desafios que enfrentam. Passar estes pensamentos para um diário é o repto do projeto "Diário de Migrantes" da associação Arquivo dos Diários. Em diários tradicionais, em papel, mas também em áudio, vídeo, fotografia, canções e até banda desenhada, 40 pessoas de 15 nacionalidades escolheram a forma como querem contar as suas histórias.

Farhana Akter, 39 anos, do Bangladesh, é uma delas. Viu aqui uma possibilidade de mostrar como se sentiu quando chegou há dois anos e de dar a conhecer a sua cultura e história. "É uma boa oportunidade para as pessoas conhecerem como vivemos, os nossos sentimentos. Falo do nosso estilo de vida, que é completamente diferente daqui, pois lá seguimos muitas regras. É a primeira vez que partilho tantas memórias e pensamentos privados", confessa Farhana, que já se apaixonou por Lisboa.

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"No meio da vida agitada da cidade, podemos parar para ir aos jardins dormir uma sesta ou ler, é fantástico. Não temos este tipo de espaços, onde podemos estar connosco próprios, no Bangladesh porque há muita população", compara.

Loraine Sousa, 31 anos, de Anápolis, Brasil, há quatro anos em Lisboa, já tem mais para contar. "Descrevi tudo o que fiz desde que cheguei, algumas peripécias. Acredito que ao contarmos as condições dos imigrantes, sujeitos a muita burocracia, poderemos também ajudar a melhorar alguns aspetos", diz.

"Discriminação"

Para escrever, alguns têm ajuda de mediadores. "Escuto as histórias deles e através de perguntas ajudo-os a evocarem memórias e a desbloquearem na escrita", explica Lídia Melo, mediadora, que fala cinco línguas. Neste acompanhamento desde julho, notou nos diaristas "alguma falta de acolhimento, principalmente dos latinos americanos e africanos". "É curioso constatar isso numa cidade tão cosmopolita. Todos sentem algumas dificuldades de integração. A maioria dos seus amigos são estrangeiros, não sentem que os portugueses os rejeitam, mas também nem sempre os acolhem", explica.

A mediadora, que acompanhou seis diaristas, dá um exemplo de "discriminação". "Quando um alemão procura casa o senhorio propõe aumentar a renda, mas a um brasileiro por vezes já não quer arrendar".

Clara Barbacini, fundadora do Arquivo dos Diários e coordenadora deste projeto, explica que a ideia é "combater preconceitos sobre quem não se conhece, integrar e mostrar a heterogeneidade dos percursos migratórios". "Nem todos vêm a fugir de uma guerra. Há quem venha para trabalhar ou por amor, porque gostam de Lisboa".

Clara espera que os diários "sejam também um ponto de referência para quem faz pesquisa académica e uma inspiração para realizadores e encenadores".

Várias partes do mundo

Os diaristas do Arquivo dos Diários são de várias partes do mundo, desde o Paquistão, Nepal, Bangladesh, Brasil, Cuba, Venezuela, Colômbia, Japão, Angola, Guatemala e alguns países europeus. Nos diários, além do processo de integração em Lisboa, também recordam a vida nos países de origem. "Temos um rapaz do Congo a falar sobre o avô, que traficava os irmãos e os vendia como escravos. Fala na língua original e optou por fazer vídeo", explica Isabel Mões, também coordenadora.

Em setembro, haverá ainda uma exposição sobre os diários e encontros públicos com os diaristas nos bairros dos Anjos, Mouraria e São Paulo. "Todas as histórias são diferentes e os percursos de vida incríveis. Sentimos que às vezes percebemos mais do nosso país através do olhar deles", acrescenta.

A iniciativa partiu de Clara Barbacini, italiana a viver em Lisboa, que se inspirou no Archivio Diaristico Nazionale, nascido há três décadas na Toscana, em Itália. "Tem oito mil diários. Entreguei lá cartas da Primeira Guerra Mundial do meu bisavô, que nunca voltou. Foram descobertas pela minha tia num sótão", recorda. O projeto é financiado pelo Fundo Social Europeu e pela Câmara Municipal Lisboa, em colaboração com a Rede DLBC Lisboa - Associação para o Desenvolvimento Local de Base Comunitária em Lisboa.

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