Mário Soares

Encontro com Craxi foragido à Justiça

Foto Arquivo

Mário Soares na entrega do Globo de Ouro

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Bettino Craxi em 1993

Foto Bruno Mosconi/ Arquivo

Livro escrito por Rui Mateus

Foto Bruno Mosconi/ Arquivo

Mário Soares, presidente da República em visita de Estado à Tunísia, em março de 1995, encontrou-se na Embaixada de Portugal, em Tunes, com o antigo primeiro-ministro italiano Bettino Craxi, condenado à revelia a penas de prisão pelos tribunais do seu país.

Este encontro provocou, em Portugal, duras reações do PSD, do Ministério dos Negócios Estrangeiros e de vários órgãos da Imprensa. "Soares confundiu, no local errado, as suas relações particulares com as relações políticas que um presidente da República deve ter relativamente a uma personalidade tão controversa como é o ex-chefe do Partido Socialista italiano", escreveu o jornal "Público" em editorial.

Bettino Craxi - que chegara a ser um dos políticos mais poderosos de Itália, antigo primeiro-ministro e antigo líder do Partido Socialista italiano - tinha sido condenado a 27 anos de prisão (10 dos quais efetivos), no âmbito da "Operação Mãos Limpas", por meia dúzia de crimes de corrupção e de financiamento ilícito de partido político. No entanto, alegando problemas de saúde, Craxi tinha decidido fugir e, aquando da visita de Mário Soares a Tunis, não estava a cumprir a pena de prisão porque, desde a primavera de 1993, recusara-se a abandonar a sua luxuosa mansão em Hammamet, na Tunísia, onde veio a falecer em novembro de 2000.

"Globo de Ouro" entregue por Carlucci

Mário Soares recebeu, em abril de 1997, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, um "Globo de Ouro" da SIC, como "grande prémio de carreira". Para espanto da maioria dos portugueses, o premiado tinha escolhido Frank Carlucci - antigo embaixador dos Estados Unidos da América em Portugal e antigo diretor da CIA (a "secreta" norte-americana) -, para lhe entregar o prémio. No dia 11 do mesmo mês, o jornalista Miguel Sousa Tavares tecia o seguinte comentário: "Um homem constrói toda uma carreira política e um percurso cívico feito de resistência à ditadura paga com prisões, deportações e exílio; bate-se de novo contra outra ditadura de sinal contrário e levanta o país com ele; torna-se primeiro-ministro e Presidente da República após a mais extraordinária campanha eleitoral a que Portugal já assistiu; é o símbolo da democracia, um arauto do que reclama ser o socialismo democrático, o advogado da integração europeia, o único português vivo verdadeiramente conhecido e prestigiado em todo o mundo; 'doutor honoris causa' por 37 universidades, de Salamanca a Manila, amigo e conselheiro de todos os grandes do Mundo nos últimos 20 anos - um homem é tudo isso e, na hora de ser homenageado no seu país, recebendo um 'prémio de carreira'(!), escolhe para lhe fazer o elogio um estrangeiro, americano e ex-director da CIA! Francamente, dr. Mário Soares, o que é que lhe terá passado pela cabeça? Homenagens a mais, com certeza!"

"Contos Proibidos" de Rui Mateus

"Contos Proibidos - Memórias de um PS desconhecido", de Rui Mateus, condensa memórias de 20 anos de militância socialista. Logo à partida era anunciado como "um livro de que Mário Soares não vai gostar. Não é lisonjeiro o retrato que dele faz Rui Mateus, até há alguns anos o homem-forte das relações internacionais do PS e um dos envolvidos no 'caso Emaudio' (...), revelando um Mário Soares muito diferente daquele que as biografias nos apresentam".

"Contos Proibidos - Memórias de um PS desconhecido" é um livro de 372 páginas (a que se juntam 79 páginas de anexos e mais 32 de fotografias), editado pela D.Quixote.

O livro começou a ser distribuído em 27 de janeiro de 1996 e, nesse mesmo dia, sob o título "A revolta do mal-amado", os jornalistas João Garcia e José Vegar revelavam, ao longo de 13 páginas da revista do semanário "Expresso", pormenores dessa obra que descreviam como "(...) um livro de que Mário Soares não vai gostar. Não é lisonjeiro o retrato que dele faz Rui Mateus, até há alguns anos o homem-forte das relações internacionais do PS e um dos envolvidos no "caso Emaudio" (...), revelando um Mário Soares muito diferente daquele que as biografias nos apresentam. Um Soares que não é leal para com os amigos, que tudo sacrificou à estratégia pessoal de ser presidente da República, que nos meios internacionais estava longe de contar com a amizade, ou mesmo com a camaradagem socialista, de Olof Palme, Willy Brandt, Helmut Schmidt, ou Gonzalez. Amigos (e bem mais recentes do que aquilo que se pensa), só Mitterrand e Craxi, segundo o testemunho de Rui Mateus. Além de Carlucci, que transformou Soares no homem de confiança da CIA - e das sucessivas administrações americanas - na Internacional Socialista".

Nove anos depois do aparecimento deste livro, que não voltou a ser reeditado, o advogado Vítor Ramalho (ex-deputado do Partido Socialista e soarista de longa data) - escrevendo no "Diário de Notícias" um artigo de opinião sob o título "Soares parece jovem", a propósito da sua candidatura às eleições presidenciais de 2006 -, referia-se ao livro, afirmando: "É a primeira recandidatura de Mário Soares à Presidência da República, depois da publicação de "Contos Proibidos - Memórias de um PS desconhecido", do ex-soarista Rui Mateus (...). O teor do livro não foi desmentido. Esse livro - que eu não li - surgiu na altura em que surgiu pelas condições em que surgiu. O que está agora em jogo é o futuro do país e não coisas marginais que distraem os portugueses, para que a situação pantanosa continue como está (...)".

As eleições de 22 de fevereiro de 2006 deram a vitória a Cavaco Silva (apoiado pelo PSD) e Mário Soares, que durante a campanha eleitoral teve algumas crispações no PS, sobretudo com outro candidato socialista e seu amigo de longa data Manuel Alegre, obteve apenas o terceiro lugar, com 14% dos votos.

Rui Mateus, fundador do PS, tinha conhecido Mário Soares em 1969. Foi longa esta histórica ligação. Soares e Mateus estiveram pela última vez frente-a-frente na casa do primeiro, na praia do Vau, em Portimão, em 5 de julho de 1990. O que ali disseram não consta do livro, que condensa memórias de 20 anos de militância socialista.