Saúde

Combate à cegueira no Brasil vence Prémio Champalimaud

Combate à cegueira no Brasil vence Prémio Champalimaud

O Instituto da Visão - IPEPO, a Fundação Altino Ventura e o Serviço da Oftalmologia da UNICAMP recebem esta quarta-feira um prémio no valor de um milhão de euros, no total, graças ao trabalho que têm desenvolvido na área da visão, nomeadamente no combate à cegueira. As organizações atuam em São Paulo, na Amazónia e em zonas rurais do Brasil, de modo a ajudar essencialmente pessoas carenciadas.

Rubens Belfort é o presidente do Instituto Visão - IPEPO, criado há 30 anos, que já tratou mais de 2 milhões de pessoas nos últimos 5 anos. Esta organização não governamental e sem fins lucrativos, situada em São Paulo, no Brasil, foca-se essencialmente nas pessoas carenciadas que se encontram na periferia das grandes cidades e na Amazónia, recorrendo a tecnologia à distância.

O também professor titular de Oftalmologia na Escola Paulista de Medicina explica que este trabalho só é viável graças à "tecnologia moderna que possibilita que exista um diagnóstico à distância". Acrescenta ainda que "os profissionais de saúde que trabalham nessas zonas encaminham para o instituto imagens dos olhos dos pacientes e a partir daí é enviada a indicação do que os profissionais podem fazer para tratar os doentes".

Belfort considera que as parcerias com outras organizações são muito importantes, tendo destacado a "forte ligação" que existe entre o Instituto Visão - IPEPO e a Marinha do Brasil: é fundamental não só para chegar até à Amazónia, que "não tem estradas, só rios", como também "é muito importante na zona da fronteira por questões de segurança". Em Portugal, o Instituto Visão - IPEPO tem parceria com a Universidade de Coimbra, contando com o apoio de professores de oftalmologia.

Relativamente ao prémio, Rubens Belfort admite que irá "aumentar a credibilidade da instituição" e o dinheiro será "investido para aumentar o acesso à medicina na Amazónia, utilizando tecnologias disruptivas que irão levar [a medicina] a um novo paradigma".

Liana Ventura é uma das seis co-fundadoras da Fundação Altino Ventura, criada em 1986, que tem como missão reabilitar pessoas não só com deficiências visuais, como também auditivas, físicas e cognitivas da população com baixos rendimentos no Norte e Nordeste do Brasil. Desde que foi fundada, a Fundação Altino Ventura já atendeu mais de 14 milhões de pessoas na área da reabilitação e da oftalmologia. Em média atendem 35 mil pacientes por mês. Em 2018, foram atendidas mais de um milhão de pessoas apenas para a área da visão, que engloba consultas de oftalmologia, cirurgias e diagnósticos, e foram feitas18 mil cirurgias.

Das várias iniciativas que integram a Fundação Altino Ventura, Liana Ventura destaca o que considera ser "um projeto enorme": no interior de Pernambuco, é feito um diagnóstico a crianças para perceber se têm problemas visuais como miopia, hipermetropia e estigmatismo e, caso realmente existam, é feita uma doação de óculos a essas crianças com a ajuda de parcerias internacionais. Outro dos projetos destacados por Liana é relativo ao vírus zika. Além do diagnóstico a crianças que já nasceram afetadas pelo vírus, é também assegurada a reabilitação.

Camila Ventura, chefe do departamento de Pesquisa Científica da Fundação Altino Ventura, explica que têm à disposição uma Unidade Cirúrgica Móvel. "Um autocarro cirúrgico que atua no interior do estado de Pernambuco", onde já foram feitas 33 mil operações às cataratas". Outro dos projetos destacado pela oftalmologista consiste "em examinar o fundo do olho dos bebés, pois pode haver um descolamento da retina", um distúrbio oftalmológico, sendo que atualmente este projeto cobre quatro maternidades da capital.

Os cerca de 333 mil euros entregues à Fundação Altino Ventura serão usados para "criar o terceiro centro de terapia aquática em Pernambuco para pessoas de baixa renda", onde será possível fazer tratamentos de hidroterapia, adianta Camila Ventura.

O terceiro projeto premiado é o Serviço de Oftalmologia da Unicamp que integra o Hospital de Clínicas da Universidade de Campinas, sendo um dos mais importantes do Brasil. Segundo Carlos Arieta, coordenador da disciplina de oftalmologia na Unicamp, são atendidos cerca de 80 mil pacientes por ano, sendo que 16 mil são encaminhados para as urgências. O coordenador refere que este serviço atua em todas as áreas de oftalmologia, desde consultas simples a cirurgias mais complexas, dando o exemplo de transplantes da córnea. A unidade conta com cerca de 80 colaboradores.

Carlos Arieta explica que o prémio é uma mais valia para a Unicamp, uma vez que dará "visibilidade para pedir apoios ao governo federal, estadual, municipal e a políticos do Brasil". Relativamente ao valor monetário, vai ser usado para cumprir dois objetivos: montar uma rede especializada de oftalmologia e desenvolver o projeto de um novo edifício para a área de oftalmologia. O coordenador sublinha que esta rede é necessária para organizar a região de Campinas, composta por 90 cidades, uma vez que, por vezes, "os pacientes de uma cidade distante descolam-se até à Unicamp, quando pode existir o equipamento [necessário ao seu tratamento] numa cidade vizinha". Adianta que a concretização desta rede irá permitir um avanço do sistema único de saúde que, conforme explica, "é um sistema de atendimento 100% gratuito". Relativamente ao projeto arquitetónico, Carlos Arieta salienta que, uma vez que a Unicamp é um dos hospitais mais recorridos, é necessário um edifício maior para a área de oftalmologia, sendo que a Universidade de Campinas já alocou um terreno para este efeito que será coberto por parte do valor recebido com o Prémio Champalimaud de Visão 2019.

O prémio é entregue esta quarta-feira pelo presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa.