
Grupo "Escudo Identitário" colou cartazes contra a "ideologia de género" em escolas de todo o país
Escudo Identitário/Facebook
A organização "Escudo Identitário", criada em 2017, espalhou mais de mil cartazes em cerca de 300 escolas do país, contra aquilo a que chama de "ideologia de género", alertando para o "perigo" que a mesma constitui. Nega os fascismos e extremismos que lhes são atribuídos.
"Lutamos pelo bem-estar social, a soberania e identidade Portuguesa, e ainda pelos valores tradicionais Europeus". Com maiúsculas, tal e qual como está transcrito. Assim se descreve o "Escudo Identitário" no Facebook, onde se diz "patriota" e "apartidário" e onde vai publicitando algumas das ações que realiza.
Contactada pelo JN, a Comissão Central do Escudo Identitário explicou, em resposta escrita via email, que nasceu da necessidade de criar um "movimento metapolítico que transcendesse a velha e bafienta dicotomia direita-esquerda e lutasse por ideais comuns" ao povo português e europeu. Hoje, são mais de 200 jovens - a maioria homens, mas também há mulheres - no país inteiro. Dizem combater "o mundo do niilismo, do hedonismo e da apatia".
A mais recente ação tornada pública pelo grupo - e que espoletou uma onda de críticas na Internet - decorreu no passado domingo e consistiu na afixação de mais de mil cartazes contra a chamada "ideologia de género" em mais de 300 escolas do Porto, Gaia, Lisboa, Montijo, Almada, Cascais, Oeiras, Loures e Faro. "Sabemos que é pelas escolas que os 'iluminados' transmitem as ideias. Os principais propagadores destes disparates temem o debate aberto, livre e racional porque sabem que as suas ideias não duram dois segundos sob escrutínio", diz a Comissão.
Mas o que é isto da "ideologia de género" de que o grupo tanto fala e que está inscrito em letras garrafais nos tais cartazes afixados nos muros escolares? É, responde o grupo, a ideia de que "sexo e género são coisas diferentes e não relacionadas". Além de não reconhecer "qualquer sentido" na premissa - que a lei portuguesa reconhece -, aponta que não tem suporte científico.
E quem são eles, os "iluminados"? "Regra geral, são professores académicos que justificam as suas posições com teses absurdas e sem qualquer cabimento" importadas dos Estados Unidos, "numa altura em que já mesmo por essas bandas estes movimentos 'progressistas' estão em retirada total", acusa o grupo. "Assim que começou a haver debate livre sobre estes temas, o castelo de cartas caiu. E é isto que queremos fazer em Portugal."
Não somos nem fascistas nem extremistas, somos jovens Portugueses a lutar pelos nossos ideais
A finalidade desta ação, explicou o "Escudo Identitário", era provocar o debate, evitando tabus, e atrair mais pessoas para a página da organização. Os dois pontos da ordem de trabalhos foram conseguidos, mas a resposta do público teve pouco de positiva. Foram muitas as vozes críticas que se insurgiram, com algumas a considerarem as práticas do grupo "fascistas" e "extremistas". O "Escudo" responde que não se revê nos termos: "A única ilação a retirar dessas críticas é a preguiça intelectual. Em vez de criarem argumentos sólidos e bem fundamentados, (as pessoas que criticam) preferem recorrer a falácias ad-hominem. Não somos nem fascistas nem extremistas, somos jovens Portugueses a lutar pelos nossos ideais."
Apesar das ameaças que garantem receber - "só hoje, já fomos ameaçados mais de 10 vezes" - dizem que as tentativas de intimidação têm o efeito contrário. "Nós vemos isto como o sinal que estamos a fazer algo certo. Estamos a combater o Status Quo, estamos a picar uma elite que se considerava soberana neste país e que julgava não ter oposição. Lidamos com isto com a certeza que este é o caminho a seguir e que não importa as ameaças, jamais iremos baixar os braços."
Lei reconhece o direito à autodeterminação e proíbe discriminação
O JN recorda que a colagem de cartazes em imóveis públicos é punível por lei (exceção para conteúdos políticos e de publicidade), com aplicação de coima. A lei estabelece que, apesar de competir às autarquias o licenciamento da afixação de cartazes em locais previamente identificados pelo requerente, "não são suscetíveis de licenciamento as intervenções que descaracterizem, alterem, conspurquem ou manchem a aparência exterior e ou interior de monumentos, edifícios públicos, religiosos, de interesse público e de valor histórico ou artístico (...)".
A lei prevê "uma apreciação do conteúdo temático ou da expressão criativa da alteração em causa, salvo quando seja suscetível de consubstanciar a prática de um crime". Tendo em conta que Portugal reconhece "o direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género", proíbe "qualquer discriminação, direta ou indireta" e estabelece que "o Estado deve garantir a adoção de medidas no sistema educativo (...) que promovam o exercício do direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género", as ações do grupo visado podem ser responsabilizadas nos termos do Código Civil.
Num futuro próximo, o grupo tem marcada uma conferência sobre Economia no Porto, para o próximo dia 17, e a celebração da Restauração da Independência em Lisboa, no feriado de 1 de dezembro.
