
Investigador Eduardo Moreno
Orlando Almeida / Global Imagens
Perceber como as células cancerígenas matam as saudáveis e conquistam território abre caminho a nova terapêutica para reduzir mortalidade.
O investigador Eduardo Moreno, do Centro Champalimaud, em Lisboa, descobriu o mecanismo através do qual as células cancerosas comprimem e matam o tecido saudável, permitindo aos tumores progredirem. O trabalho, desenvolvido em parceria com Romain Levayer, do Instituto Pasteur, foi recentemente publicado na revista científica "Current Biology".
Apesar dos diversos estudos sobre cancro, ainda não é bem conhecido o processo de progressão de um tumor, ou seja, como passa de um grupo de células anormais à formação de uma massa tumoral. Por isso, numa primeira fase, os cientistas estudaram como mutações em genes transformam células saudáveis em células cancerosas. Depois, perceberam que, quando demasiadas células tentam sobreviver e crescer num espaço reduzido, gera-se uma competição mecânica. É o que acontece no caso de um cancro, pois as células cancerosas proliferam sem controlo, comprimem as saudáveis e matam-nas.
O mecanismo molecular como isto acontece é a nova grande descoberta. E permite aos cientistas estarem mais perto de descobrir uma forma de travar a progressão de tumores.
Um passo em frente
"O mais interessante neste estudo é que descobrimos o mecanismo através do qual as células cancerígenas comprimem as células do tecido saudável vizinho e, ao comprimir as células, matam-nas. Essa é provavelmente uma das razões pelas quais o cancro mata, pois faz com que os órgãos parem de trabalhar normalmente e a pessoa morre", explica o espanhol Eduardo Moreno, que há anos se dedica a fazer investigação no Centro Champalimaud. Travando isso, acrescenta, "podemos tornar o tumor menos agressivo, travar o seu crescimento e evitar a morte", desvenda.
Neste mais recente trabalho, iniciado em 2016, Moreno e Levayer focaram-se nas células epiteliais (como as que formam a pele e sistema digestivo), já que cerca de 90% dos tumores humanos surgem no epitélio. Utilizando um epitélio da mosca da fruta (Drosophila melanogaster) como sistema modelo, os cientistas descobriram que, quando as células saudáveis eram comprimidas por células tumorais, o sinal de EGFR/ERK (que permite a sobrevivência das células) diminuía nas células saudáveis e estas morriam, permitindo ao tumor progredir.
O processo não acontece ao contrário (as saudáveis matarem as cancerosas), porque as tumorais têm as "vias de autoeliminação bloqueadas", o que as torna "mais resistentes à compressão e difíceis de matar", explica Moreno.
O próximo passo é descobrir como a força mecânica se liga à inibição dos sinais de sobrevivência das células. E depois, como travar essa destruição e impedir que os tumores cresçam. Romain Levayer considera que esta pode vir a ser uma nova abordagem terapêutica, que passe por "deter o crescimento do tumor e reduzir a mortalidade associada ao cancro no futuro".
