
O belga Tony, a sua mulher polaca, Maja, e a cadelinha Maus, em casa, Vila Real de Santo António, Algarve
João Silva / Global Imagens
"Maus", a rafeira que levou o belga Tony a fazer 600 km para a resgatar e que juntou uma comunidade de desconhecidos para a procurar. Esta história tem um final feliz.
A vida sinuosa da cadela Maus começa ainda antes dela nascer, ainda na barriga da mãe, Lulu, corria 2014. Chama-se Maus, nome invulgar para um cão a não ser para fãs de Spiegelman e da sua BD dos ratos maus nazis, porque o dono é belga e ela parecia um ratinho quando nasceu, daí o nome "mouse", que é "rato" em inglês, ou Maus em fonético português.
Estava então nesse momento Maus no ventre da mãe, ela e os nove irmãos que iam nascer, e a mãe Lulu vagueava perdida, muito grávida e desvalida, a arrastar o barrigão pelas colinas atrás da casa de Tony, um ex-guarda prisional belga que se apaixonara por Silves e pelo nosso Sul. Honorável e piedoso, Tony, sobrenome Croonenborghs, que é um coração de manteiga apesar do seu ar de durão, recolhe a muito prenhada Lulu e uma semana depois, era manhã no seu pátio solar, vê 10 crias nascer.
Novas casas, vida triste
Mas a felicidade logo dá em tristura e confusão: Lulu, nome irónico que quer dizer "Lucky you" (sortuda), morre em desolação: "Dirofilariose, anemia, anaplasma, tanta complicação que nem com a nossa veterinária amorosa, a Ana, de Messines, da Arca de Noé, não teve hipóteses de viver", relata agora Tony. Encontraram casas para os cachorrinhos, todos em novos lares, mas ninguém queria Maus nem o seu irmão enfezado, Louki, e ficaram os dois com Tony.
O tempo, passa, os anos vêm, vão, Maus cresce, é feliz, vive com quatro cães, mas o coração do belga atravessa tumultos - desapaixona-se, deixa o Algarve, volta à Hasselt natal, daí vai para Rhodes, na Grécia do mar Egeu, daí outra vez, três anos depois, o seu coração é um eletrocardiograma a voar, e Tony volta ao Algarve. Nesse entretanto, Maus teve nova casa, vivia em Marmelete, Monchique, onde em 2018 a floresta toda ardeu.
E a vida de Maus muda toda outra vez, há doenças no casal que a acolheu, desleixos, dias inteiro sem comer, e a cadela espaventosa, muito magra, torna a fugir até que Tony, que nunca lhe perdeu o rasto no bem-querer, a tornará a acolher.
E estamos já no coração deste verão, e Maus, que vivia livre em soltura, agora em Vila Real de Santo António, a ponta perto de Espanha que é a nova casa de Tony, uma noite não voltou. Passa um dia, passa outro, passam maus pressentimentos na cabeça insone do bom belga. Ele varre o concelho todo, procura, brada, mete fotos dela, pequenina, castanha, tolhida, no www.encontra-me.org e noutros sites caninos de desaparição.
Sete dias sem notícias
Durante sete dias nada se passou, a esperança já vanescia, "doía-me muito no coração", até que, de súbito, alguém avista a cadela no Porto, a 600 km dali, Maus corria na Boavista, e avisa Tony. Alvoroço, descrença, excitação, os sentidos numa confusão, e o belga larga-se de carro país acima. Desistirá a meio, houve novos avisos, não seria ela, se era vaneceu, ele fica descorçoado, a ansiar.
Foi Ana Lemos, socióloga do Porto, quem viu os olhos tristes da Maus. "Magrinha, assustada, rosnava, não deixava ninguém chegar. Coitadinha, foi roubada. Só pode ter sido isso". Mas Ana não desiste, espalha cartazes, cria um grupo no WhatsApp, junta gente a procurar, Carina, Carla, Orlanda, Leonardo, traçam mapas, ninguém vai desistir.
Até que há dias, Ana vê de novo Maus, confirma, é ela, avisa-se o bom Tony, cinco horas depois ele está no Porto. "Atirei-me literalmente a ela, coitadinha, perdida, arranhou-me, rosnou-me, não me conhecia, partia-me o coração. Mas lá a apanhamos e minutos depois ela já dormia no meu colo, veio assim o caminho todo até casa, no meu colo comigo a conduzir, nunca mais a vou largar, o meu pequenino ratinho Maus".
