
Fábio Poço/Global Imagens
Estudo ao glifosato da Plataforma Transgénicos Fora revela contaminação "crónica". Apenas 13 municípios aderiram à campanha sem herbicidas.
Morem na cidade do Porto ou numa quinta em Vila Velha de Ródão, todas as pessoas que, em outubro, numa iniciativa da Plataforma Transgénicos Fora, fizeram análises à presença de glifosato na urina estavam contaminadas. Um sinal de que o pesticida - cuja toxicidade divide entidades, mas que foi classificado, em 2015, pela Organização Mundial de Saúde, como "carcinogéneo provável para o ser humano e carcinogéneo provado para animais de laboratório" - está disseminado e atinge todo o país.
Em Portugal, a lei, revista em 2017, proíbe a sua aplicação em diversos espaços públicos, mas não interdita completamente o uso. Alexandra Azevedo, coordenadora da campanha Autarquias sem Glifosato, diz que a lei "está longe de ser corretamente aplicada e de garantir a saúde pública".
Das 308 câmaras do país, apenas 13 integram a campanha: Braga, Lousada, Vila Real, Porto, Castelo de Paiva, São Vicente, Castro Verde, São Pedro do Sul, Cabeceiras de Basto, Vila Nova de Paiva, Alcanena, Aveiro e Funchal. 23 juntas de freguesia também aderiram. Há outros municípios, como a Maia, que começou a aplicar a monda mecânica, que não pediram para integrar a lista, mas abandonaram o glifosato. Outros, como Sintra, aderiram e depois saíram. Questionada sobre o assunto, a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) diz que não tem "elementos".
Há várias "situações previstas na lei que não estão a ser cumpridas" e preocupam a população. Em 2018, Alexandra Azevedo recebeu duas dezenas de denúncias e pedidos de esclarecimento. "Um homem que presenciou aplicação numa escola, outro que viu aplicar num espaço ajardinado de uma superfície comercial com pessoas a passar", conta.
Margarida Silva, da Plataforma, não acredita que as câmaras estejam a "esgotar as outras possibilidades antes de usar glifosato", seja por "hábito ou falta de preocupação". Mas a contaminação pode ter várias fontes (ar, água e alimentos), que devem ser analisadas. O glifosato pode chegar mesmo a quem mora num município que abandonou o seu uso.
Portugal acima da média da UE
A contaminação é "crónica", conclui Margarida Silva. Amostras recolhidas a 62 voluntários, em julho, acusaram que cerca de 65% tinham glifosato efetivo. Em outubro repetiram a análise a 44 pessoas e a contaminação foi detetada em todos. "Portugal está acima da média dos 18 países da União Europeia, onde as amostras contaminadas são 50%".
Os valores foram mais baixos em 2018 (1,39 nanogramas por mililitro foi o mais elevado) do que noutros testes realizados em 2016 (26,2 ng/ml, 20 vezes acima da média europeia), mas a Plataforma não acredita que tenha a ver com uma maior restrição da lei. "A nova amostra foi realizada noutra altura do ano e a maioria são pessoas que comem biológico", sublinha Margaria Silva.
Perante as "evidências", a Plataforma pede ao Governo um estudo sobre a exposição dos portugueses, que proíba a venda para usos não profissionais e torne obrigatória a análise ao glifosato na água de consumo. De preferência, este ano.
Vendidas 1302 toneladas de glifosato em 2017
A venda de glifosato em Portugal diminuiu 22,7% entre os anos 2014 e 2017, de acordo com dados avançados ao "Jornal de Notícias" pela Direção- -Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV). Em 2014, foram vendidos 1684 toneladas de glifosato, em 2015 foram 1488 toneladas, em 2016 o valor foi de 1306 toneladas e em 2017 foram vendidas 1302 toneladas daquele herbicida. Em relação a 2018, aquele organismo não avança dados. A venda de produtos fitofármacos em geral também mostra uma tendência de descida em Portugal. Em 2014, foram vendidas 12 908 toneladas e em 2017 esse valor desceu para 8687 toneladas, o que representa uma queda na ordem dos 32,7%, refere a DGAV.
A saber
O que é o glifosato e para que serve?
É um herbicida sistémico não seletivo. É utilizado para matar ervas daninhas e infestantes. Na Europa existem cerca de 300 herbicidas à base de glifosato.
O seu uso está autorizado em Portugal?
O decreto-lei 35/2017 não permite o uso em diversos espaços públicos, nomeadamente em escolas (exceto agrárias), jardins de proximidade, parques de campismo, estruturas residenciais para idosos, hospitais e unidades de saúde. São admitidas exceções, por exemplo, quando "comprovadamente não se encontrem disponíveis meios e técnicas de controlo alternativas". Os avisos são obrigatórios. Para a agricultura e florestas, a DGAV tem uma lista de fitofarmacêuticos autorizados, alguns com glifosato.
Quantos municípios ainda aplicam?
A ANMP não tem informação. Em 2016 (antes da última alteração à lei), o BE questionou os municípios e, dos 107 que responderam, 89 referiram usar. O partido está a preparar uma proposta de lei para pedir a interdição total.
O que diz a Comissão Europeia?
Em 2017, a Comissão Europeia renovou a licença para uso de glifosato, por um prazo de cinco anos. Portugal absteve-se.
Em que países foi proibido?
Alguns já baniram ou restringiram o uso, como os Países Baixos, Bélgica e os Emirados Árabes. Em 2017, a França anunciou que ia banir no prazo de três anos.
Testemunhos
Fiquei chocada
Nutricionista suspeita que tenha sido contaminada por uso no condomínio
Daniela Seabra olhou para as suas análises e as do filho e ficou "chocada". A criança, de três anos, apresentou uma contaminação de 0,41 ng/ml em julho e de 0,59 em outubro. Ela, de 43 anos, tinha 0,15 ng/ml na primeira análise e 0,28 ng/ml na segunda.
"Fiquei chocada. Não esperava que os valores dele fossem superiores. Tenho cuidado na alimentação e comemos muitos alimentos biológicos", diz a nutricionista da cidade do Porto.
Daniela Seabra já tinha preocupações com o assunto e, por isso, quando soube da iniciativa da Plataforma Transgénicos Fora, inscreveu-se e pagou os 78,20 euros pedidos para saber o nível de exposição. O resultado, em vez de a sossegar, deixou-a mais preocupada.
Depois de refletir, acredita ter descoberto um dos focos de contaminação. "Vi a pulverizar o passeio em calçada portuguesa do condomínio. Perguntei e era glifosato". É o passeio por onde passa quando está bom tempo para ir brincar ao jardim com o filho. "Se a contaminação está no chão, ele fica mais exposto", reflete. Agora planeia reunir com o condomínio para que "deixem de usar ou, no mínimo, que avisem".
A nutricionista acredita que a mudança será a "conta-gotas", com a consciencialização da população pouco a pouco. Mas é importante, a "bem da saúde" de todos.
Tudo está contaminado
Agricultor biológico teve o nível mais elevado da amostra feita em Portugal
Luís Dias não ficou alarmado pelo facto de ter sido detetada a presença de glifosato nas análises que fez. Mas ter sido nas duas e, num dos casos, ter o valor mais alto das 62 pessoas que se sujeitaram à análise, isso sim, apanhou o agricultor biológico de Vila Velha de Ródão de surpresa. Em julho os resultados foram de 1,39 ng/ml e em outubro 0,71 ng/ml.
"Não foi um resultado dramático, mas é a prova de que tudo está contaminado e estamos permanentemente sujeitos a inalar e a comer alimentos com glifosato", desabafa.
Luís Dias tem cuidado com a alimentação em casa, mas geralmente faz refeições fora. E essa, acredita, é a principal porta de entrada do glifosato no seu organismo. "Como e bebo o que há nos restaurantes. Não podemos estar a escolher ou a adivinhar" o que foi pulverizado ou não com glifosato, explica.
Isso, e a aplicação em espaços públicos. Numa ocasião, conta, ficou dentro do carro "à espera que um trabalhador acabasse de pulverizar o passeio" que ele iria ter de pisar para chegar ao destino.
"Sei que não se pode proibir tudo de repente, são precisas alternativas e contrapartidas. Mas é preciso estudar a exposição da população e usar o princípio da precaução" para preservar a saúde, acrescenta Luís Dias
Entrevista a especialista
O JN falou com Susana Loureiro, especialista em ecotoxicologia, da Universidade de Aveiro.
Porque há tanta dualidade de opiniões?
Há perceções iniciais que depois não foram confirmadas e resultados distintos de várias comunidades científicas. Inicialmente pensava-se que o glifosato tinha uma elevada taxa de degradação, mas aparentemente não é assim. Tem impacto quando aplicado sem proteção ou inalado. Pode ser incorporado no solo e em alimentos ou escorrer para águas.
Quais os efeitos?
Em termos éticos, não podemos avaliar exatamente numa pessoa os efeitos que os químicos podem originar. São utilizados modelos animais para conseguirmos prever quais vão ser os efeitos no Homem. E há vários efeitos negativos que têm sido descritos, como alterações no desenvolvimento fetal, no sistema nervoso, rins, sistema circulatório, fígado e reprodução.
Pode provocar cancro?
Estes estudos todos levaram a que várias agências e a Organização Mundial de Saúde tenham classificado o glifosato como provável carcinogéneo em humano. A meu ver, quando há um alarme relativamente a este tipo de efeitos, tem de ser estudado e clarificado.
E em termos ambientais?
Há estudos sobre os efeitos em abelhas e outros polinizadores, porque se verificou a existência de glifosato no néctar e pólen das abelhas. Ao serem aplicados com outros compostos químicos, a toxicidade pode aumentar.
