
É o retrato de um país a múltiplas velocidades. Confirmando que o fosso territorial agravou-se. Com polos positivos nas áreas metropolitanas do Porto e Lisboa (AML) e no litoral centro e norte e negativos nas periferias dessas áreas metropolitanas, no interior e no sul do país.
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Mas também com escolas que produzem "autênticos milagres", nas palavras do antigo ministro da Educação David Justino, coordenador da mais recente edição do "Atlas da Educação 2017".
"A escola pode fazer a diferença, como fica bem patente na identificação, quer dos concelhos, quer das escolas/agrupamentos [ver infografia] que, não obstante os contextos socialmente desfavoráveis onde se inserem, obtêm bons resultados escolares.".Assim se lê no documento a que o JN teve acesso e que será apresentado no próxima dia 25. Numa iniciativa da Associação EPIS - Empresários pela Inclusão Social em parceria com o centro de investigação CICS.NOVA.
Segundo os investigadores, as escolas que contrariam o determinismo situam-se, "predominantemente, nas periferias das grandes cidades, em número considerável no norte litoral, mas encontram-se dispersas um pouco por todo o país". Como é o caso que retratamos na página ao lado do Agrupamento de Escolas de Manteigas.
O porquê do sucesso
O peso das variáveis organizacionais é diminuto. Olhando para a dimensão das turmas, o seu "efeito é residual em todos os ciclos", não sendo possível, no entanto, concluir que "um aumento ou redução de alunos por turma possa contribuir para melhorar ou piorar os resultados". E chegamos à elitização. Porque muitas das turmas de maior dimensão estão, precisamente, nas zonas de maior pressão demográfica, mais urbanizadas, onde é maior o número de alunos provenientes de estratos sociais elevados.
O que nos leva, por conseguinte, a uma discriminação ao nível do corpo docente, que nos ciclos de escolaridade mais elevados escolhem escolas do litoral com melhores resultados ("orientadas para a maximização dos resultados nos exames nacionais"). Sobrando para as periferias e para o interior professores com menos anos de experiência.
E o que faz a escola? O que todas as outras fazem. Sem marcas distintivas. Para surpresa de David Justino, "a cultura organizacional escolar é pouco diferenciadora". De acordo com o Atlas, "existe uma cultura escolar associada ao poder prescritivo e burocrático da ação centralizada do Ministério da Educação, mas são incipientes as culturas das escolas enquanto referenciais distintivos". Os investigadores concluem, por isso, que "a ideia da autonomia das escolas [...] parece ainda uma quimera, que uma abundante retórica alimenta".
Guetização dos imigrantes
O termo é dos investigadores. É a variável com maior efeito negativo: 90% dos alunos de origem imigrante concentram-se em apenas 50 escolas. Com maior incidência na AML e no Algarve. "Se combinarmos os maus resultados escolares com as elevadas taxas de retenção e a sua concentração num número relativamente reduzido de escolas, arriscamo-nos a falar de segregação de alunos."
No que à carência económica familiar diz respeito, o seu efeito negativo nos resultados escolares é mais relevante no Secundário. Mas não é uma sentença à partida. E voltamos aos milagres. Porque há escolas que "conseguem superar os constrangimentos sociais e acrescentar valor na aprendizagem". Além de que, frisa o estudo, mais do que a capacidade económica, o mais forte preditor do sucesso escolar dos alunos portugueses são as qualificações das mães. "O poder explicativo do capital escolar familiar é crescente à medida que subimos nos ciclos do Ensino Básico, registando uma ligeira quebra no Secundário."
