
Leonardo Negrão / Global Imagens
O número de problemas detetados nas linhas de comboio que podem causar acidentes ferroviários aumentou 85% entre 2012 e 2016, segundo o relatório "Ecossistema Ferroviário Português", realizado pela Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT). Segundo dois especialistas ouvidos pelo JN, a situação não deverá ter melhorado.
Não é, por esse motivo, de estranhar que mais de metade das linhas de comboio em Portugal esteja em estado medíocre ou mau (ver mapa e primeiro gráfico de barras), segundo um relatório da Infraestruturas de Portugal (IP). Adicionalmente, o serviço prestado ao cliente final pela CP acumula reclamações em várias entidades.
O relatório da AMT demonstra factualmente como as anormalidades se foram acumulando. Se em 2012 havia 146 problemas ("precursores" de acidentes), em 2016 as deficiências detetadas já iam em 271, isto é, um crescimento de 85% no espaço de cinco anos. A maioria relaciona-se diretamente com o estado das vias.
subcontratação
"A infraestrutura precisa de ser modernizada e o material circulante de ser substituído", resume Pedro Mêda, membro da Ordem dos Engenheiros (OE) do Norte. "É sabido que na última década, devido às restrições orçamentais, a manutenção foi descurada e houve linhas em que a própria conservação da via foi reduzida abaixo dos mínimos", acrescenta Diogo Ribeiro, diretor da licenciatura em Engenharia Civil do Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP). "A opção pela subcontratação externa faz com que muitos dos trabalhos de manutenção e renovação sejam realizados por operários e técnicos superiores com pouca experiência no terreno", acrescenta.
A carga de comboios de passageiros e de mercadorias colocada em cima de linhas ferroviárias com baixo grau de manutenção e investimento é, segundo os especialistas, um problema sério. "Os comboios de mercadorias apresentam configurações de vagões que podem atingir uma extensão de 750 metros, com velocidades de circulação e cargas por eixo cada vez mais elevadas. Esta nova realidade vai acelerar o processo de degradação da via férrea e obrigar a intervenções de manutenção cada vez mais frequentes", explica Diogo Ribeiro, um especialista envolvido desde 2016 no projeto da linha de alta velocidade da Califórnia.
Pedro Mêda concorda em absoluto. "O crescimento no tráfego de mercadorias introduz maiores exigências na infraestrutura ao nível da gestão dos corredores para a circulação dos comboios", refere o membro da OE Norte.
O problema da bitola
Diogo Ribeiro elencou uma série de problemas a resolver e não tem dúvidas de que a eletrificação e a bitola (distância entre carris) são prioritários. Portugal e Espanha têm na maior parte da sua ferrovia uma bitola ibérica, cuja distância entre carris é maior do que a europeia. Ou seja, os comboios que andam numa bitola não podem passar para outra.
Mas há uma solução de recurso. "É importante a extensão dos quilómetros com linhas eletrificadas e com sinalização eletrónica, além da instalação de travessas polivalentes que permitem a alteração da bitola, principalmente nos corredores internacionais", explica o professor do ISEP.
Concertação ibérica
Não discordando, Pedro Mêda lembra que a estratégia não pode ser apenas nacional. "A migração da bitola implica uma concertação ibérica. Em Portugal, deveria haver uma estratégia clara. Atualmente, temos troços a serem renovados que não estão a ser equipados com travessa polivalente (Linha do Norte), contudo há outros pontos que já estão dotados deste tipo de elementos, como alguns troços da Linha do Oeste e o ramal de Lagos", explica Pedro Mêda.
"O administrador da CP é um incompetente"
Luís Braga é professor de História do 2.º Ciclo, numa escola de Viana do Castelo, tal como José Carlos Lima, docente de Português na mesma instituição. Quando vão a Lisboa, apanham o comboio Alfa na estação de Nine, percorrendo 40 km desde o centro da cidade. E assim aconteceu na sexta-feira, dia 9 deste mês. Enquanto aguardavam tranquilamente junto à linha, não ligaram muito quando surgiu um comboio regional antigo, precisamente à hora do Alfa (20.12 horas).
Dada a agitação dos passageiros no exterior, rumo à composição, Luís Braga desconfiou que aquele poderia afinal ser o seu comboio. E era mesmo. "A CP usou de má fé, quando, em Nine, anuncia a chegada do Alfa e o comboio que entra na linha é um regional. Não deu qualquer explicação aos seus clientes que pagaram um serviço e lhes é prestado outro de pior qualidade", afirma José Carlos Lima. "Acontece habitualmente, segundo dizem os clientes regulares do Alfa e os próprios revisores", acrescenta Luís Braga.
Quem reclama recebe
"O bilhete que eu paguei é mais caro. Ou seja, a ligação do Alfa é feita em regionais até ao Porto, nomeadamente para quem vem desde Braga", explica ainda Luís Braga. No entanto, segundo fonte oficial da CP, é possível obter um reembolso. "Aos clientes que apresentam reclamação perante estas situações, a empresa devolve a diferença entre o valor do serviço pago e o valor do serviço que efetivamente foi utilizado".
Uma vez chegados a Campanhã, provenientes de Nine, foram confrontados com um transbordo para o verdadeiro Alfa. "Foi uma grande confusão, com malas e pessoas a atropelarem-se. Só vi algo parecido no Quénia", relata o docente de História.
Revoltados com toda a situação, os dois professores organizaram um abaixo-assinado de protesto durante a viagem, recolhendo mais de três dezenas de assinaturas. Posteriormente, fizeram uma reclamação escrita na estação de Viana do Castelo, enviando cópia ao Ministério das Infraestruturas, à Autoridade da Mobilidade e Transportes, ao presidente do conselho de administração da CP e aos deputados eleitos por Braga e Viana, para além de cinco presidentes de câmara da região.
Contactada pelo JN, fonte oficial da empresa explicou que a CP dispõe de dez unidades de Alfa Pendular, sendo necessários diariamente oito para assegurar os comboios programados. "No momento atual, dado que está em curso a intervenção de "meia vida", uma das dez unidades está permanentemente imobilizada em oficina durante alguns meses. Por outro lado, as restantes unidades também precisam de realizar operações regulares de manutenção", explica a mesma fonte.
Quanto à substituição dos Alfa pelos regionais, a empresa admite que há alterações, embora recuse que tal suceda de forma programada. "Quando, pontualmente, ocorre uma avaria ou incidente que obriga a uma imobilização adicional para reparação, a CP tem necessidade de proceder a substituição pontual do material circulante", refere a empresa.
O segundo "imprevisto" aconteceu logo dois dias depois da primeira peripécia. No domingo seguinte à ida para Lisboa, os dois docentes de Viana compraram bilhete para um Alfa que partia às 16.09 horas da Estação do Oriente rumo a Nine. Quando já estavam sobre a Ponte de São João, que liga Gaia ao Porto, foram informados que iriam ter de trocar de comboio em Campanhã.
"Quem concebe uma operação assim não merece servir o público como dirigente, porque não quer saber dos direitos de personalidade dos clientes e, por isso, deve ser demitido", lê-se na reclamação escrita dos professores. "O administrador da CP deve ganhar sete ou oito vezes o meu salário e, reputadamente, é incompetente. Eu tenho condições objetivas para o dizer, uma vez que o que ele está a fazer é de uma pessoa incompetente", sublinha Luís Braga.
